quarta-feira

Intervenção em momentos de ansiedade no consultório

 Por que, na minha prática clínica, eu primeiro acalmo o corpo e só depois trabalho os pensamentos?





Uma das perguntas que os pais mais fazem durante o processo terapêutico é: “Por que, quando meu filho está em uma crise de ansiedade, você não começa conversando ou explicando imediatamente o que está acontecendo?”


A resposta está na forma como nosso cérebro e nosso sistema nervoso funcionam.


Quando uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto entra em uma crise de ansiedade, em um ataque de pânico ou em um momento de intensa desregulação emocional, o corpo interpreta aquela situação como se existisse um perigo real. O organismo entra em estado de alerta e ativa um conjunto de respostas automáticas de sobrevivência. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos, as mãos podem suar, o estômago “embrulha”, surgem tremores, sensação de falta de ar, vontade de fugir, de chorar ou até mesmo de se isolar.


Nesse momento, o cérebro está concentrado em proteger a pessoa. Por isso, áreas responsáveis pelo raciocínio, pela reflexão, pelo planejamento e pela aprendizagem ficam temporariamente menos disponíveis. É justamente por esse motivo que, durante uma crise, longas explicações, sermões ou tentativas de convencer a criança de que “não há motivo para ficar assim” costumam produzir pouco efeito.


Na minha prática clínica, utilizo esse conhecimento para orientar a intervenção. Antes de qualquer estratégia cognitiva, meu primeiro objetivo é ajudar o sistema nervoso a perceber que ele está seguro.


Isso significa que eu começo regulando o corpo.


Primeiro, ajudo a criança, o adolescente ou o adulto a diminuir o estado de alerta. Utilizo estratégias de ancoragem, orientação para o ambiente, consciência corporal, percepção dos pés apoiados no chão, respiração confortável, movimentos suaves e recursos que favorecem a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, ofereço uma presença calma, uma voz tranquila e um ambiente previsível, porque o sistema nervoso também se regula por meio da relação com o outro.


Somente quando observo que o organismo começa a sair desse estado de hiperativação é que iniciamos a segunda etapa do trabalho.


É nesse momento que explico o que é a ansiedade, por que o corpo reagiu daquela maneira e quais sinais ele estava tentando comunicar. A criança aprende a reconhecer o que acontece com seu coração, sua respiração, seus músculos e seus pensamentos. Ela começa a perceber que aqueles sintomas, embora sejam muito desconfortáveis, representam uma resposta de proteção do organismo e não um sinal de que algo grave necessariamente está acontecendo.


Depois dessa compreensão, torna-se possível trabalhar os pensamentos, as emoções, os comportamentos e as situações que desencadearam aquela resposta. A partir daí, utilizo recursos da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e de outras abordagens baseadas em evidências para desenvolver novas formas de enfrentamento, fortalecer habilidades de regulação emocional e construir respostas mais saudáveis diante das dificuldades da vida.


Em outras palavras, o processo terapêutico segue uma sequência lógica.


Primeiro, o corpo precisa sentir segurança.


Depois, a mente consegue compreender.


Só então conseguimos ensinar novas estratégias de pensamento, comportamento e resolução de problemas.


Essa forma de intervenção respeita o funcionamento natural do cérebro e do sistema nervoso. Em vez de exigir que a criança pense de maneira racional quando seu organismo ainda acredita estar em perigo, nós ajudamos primeiro o corpo a desacelerar. Quando isso acontece, a aprendizagem, o diálogo e a reflexão tornam-se muito mais eficazes.


É por isso que costumo dizer aos pais que não adianta tentar conversar com um cérebro que ainda está tentando sobreviver. Antes de ensinar, precisamos regular. Antes de corrigir, precisamos acolher. Antes de pedir que a criança explique o que sente, precisamos ajudá-la a sentir que está segura.


Esse princípio também se aplica aos adolescentes e aos adultos. Independentemente da idade, quando o sistema nervoso está em intenso estado de alerta, o primeiro passo da intervenção é favorecer segurança, presença e regulação fisiológica. Somente depois o cérebro recupera sua capacidade de refletir, organizar emoções, aprender e construir novas formas de responder às experiências.


Essa é a razão pela qual, em minha prática clínica, costumo dizer que a intervenção acontece de baixo para cima: primeiro regulamos o corpo; depois integramos as emoções; e, por fim, trabalhamos os pensamentos, os significados e as mudanças comportamentais. Quando seguimos essa sequência, respeitamos o funcionamento do sistema nervoso e criamos condições para que a psicoterapia seja mais segura, acolhedora e efetiva.




segunda-feira

DEVOLUTIVA AOS PAIS

 




Na devolutiva aos responsáveis, compreendo a criança como alguém em desenvolvimento, navegando por diferentes “ilhas internas” que ajudam a explicar seu modo de ser, estar, sentir, reagir e se relacionar. Essa metáfora, denominada Arquipélago de Si, foi construída como uma forma de integrar conhecimentos da neurociência, da teoria do apego, da Terapia do Esquema, dos estudos sobre temperamento, estilos parentais e desenvolvimento emocional infantil.


Nesse modelo, o sintoma não é observado de forma isolada. Ele não é visto apenas como um comportamento inadequado, uma dificuldade escolar, uma crise emocional ou uma resposta desafiadora. O sintoma é compreendido como uma forma de comunicação da criança. Por isso, antes de perguntar apenas “como eliminar esse comportamento?”, é necessário compreender: o que esse sintoma está tentando mostrar, para que ele aparece e como os adultos podem ajudar a criança a construir novas formas de funcionamento.


A primeira ilha observada é a ilha do temperamento. Nela, buscamos compreender características mais estáveis da criança, como sua sensibilidade emocional, sua forma de reagir ao estresse, seu nível de organização, sua abertura para novidades, sua amabilidade e sua necessidade de previsibilidade. Uma criança com maior sensibilidade emocional pode precisar de mais acolhimento, tom de voz mais cuidadoso, antecipação das mudanças e validação afetiva. Já uma criança mais prática, objetiva e com maior capacidade de autorregulação pode responder melhor a orientações diretas, combinados claros e metas concretas. Assim, a orientação aos pais não deve ser igual para todas as crianças, pois cada criança navega com um tipo de barco e precisa de suprimentos emocionais diferentes.


A segunda ilha corresponde às necessidades emocionais básicas. Toda criança precisa se sentir segura, amada, vista, protegida, validada e orientada. Também precisa aprender limites, autonomia, espontaneidade e expressão emocional. Quando essas necessidades estão sendo atendidas de maneira equilibrada, a criança tende a permanecer mais regulada. Quando essas necessidades ficam fragilizadas, ela pode passar a expressar sofrimento por meio de ansiedade, irritabilidade, oposição, retraimento, insegurança, explosões emocionais, dificuldades escolares ou comportamentos repetitivos. Nesse sentido, o sintoma pode estar sinalizando uma necessidade emocional que precisa ser melhor compreendida e suprida.


A terceira ilha é a dos estilos parentais. Aqui observamos como os responsáveis orientam, acolhem, corrigem, estabelecem limites e respondem emocionalmente à criança. A parentalidade não é avaliada com julgamento, mas com cuidado clínico. Muitas vezes, os pais repetem padrões que viveram em sua própria infância. Outras vezes, tentam oferecer à criança tudo aquilo que não receberam, mas, nesse movimento, podem se sobrecarregar, ceder demais, proteger em excesso ou perder a direção do barco. Por isso, a devolutiva também olha para os esquemas positivos dos pais, suas forças, seus recursos, seus esforços e sua história.


A quarta ilha envolve os ambientes vividos pela criança: família, escola, rotina, vínculos, experiências de separação, mudanças, perdas, conflitos, cobranças, uso de telas, sono, alimentação e relações sociais. A criança não funciona fora do ambiente. Ela responde ao que vive, ao que percebe e ao que sente. Por isso, compreender o sintoma exige observar onde ele aparece, com quem aparece, em quais momentos aumenta e em quais situações diminui.


Somente depois dessa navegação chegamos à ilha dos sintomas. Nesse momento, o sintoma passa a ser compreendido dentro de uma história. Ele deixa de ser visto como algo solto e passa a ter sentido dentro do funcionamento da criança. A pergunta central não é apenas “qual é o problema?”, mas “qual é o caminho que levou essa criança a funcionar dessa forma?”. Esse olhar integrado permite construir uma intervenção mais precisa, respeitosa e eficaz.


Na devolutiva aos pais, é importante explicar que a criança está em construção. Ela ainda está aprendendo a nomear emoções, tolerar frustrações, organizar pensamentos, esperar, pedir ajuda, lidar com limites e retornar ao seu estado de equilíbrio. O papel dos adultos é funcionar como bússola, porto seguro e orientação de rota. Isso significa acolher sem permitir tudo, corrigir sem ferir, orientar sem humilhar, estabelecer limites sem retirar o afeto.


Também é necessário compreender o aspecto transgeracional. Muitas respostas parentais não começam na relação atual com o filho, mas na história emocional dos próprios pais. Aquilo que foi vivido, faltou, machucou ou foi excessivo pode reaparecer na forma de educar. Em alguns momentos, os pais repetem padrões familiares antigos. Em outros, tentam fazer o oposto, mas acabam se atropelando no desejo de proteger, compensar ou evitar sofrimento. Trazer essa consciência não serve para culpar, mas para ampliar a compreensão e abrir novas possibilidades de cuidado.


Assim, a devolutiva tem como objetivo ajudar os responsáveis a entenderem o funcionamento da criança de maneira simples e integrada. O foco é mostrar o que está acontecendo, para que determinada intervenção será feita e como a família pode continuar esse processo no cotidiano. O caminho terapêutico não busca apenas reduzir sintomas, mas fortalecer recursos internos, ampliar segurança emocional, ajustar práticas parentais e favorecer um desenvolvimento mais saudável.


Portanto, olhar para o filho pelo Arquipélago de Si é olhar para além do comportamento aparente. É compreender seu temperamento, suas necessidades, seus vínculos, seus ambientes, sua história e seus sintomas como partes de um mesmo mapa. Quando os pais conseguem navegar por esse mapa com mais clareza, deixam de agir apenas no susto ou na urgência e passam a conduzir a criança com mais segurança, presença, firmeza e afeto.









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