sábado

País, seus filhos causam preocupações atualmente?

 





Antes do comportamento: uma viagem pelo Arquipélago de Si


Sejam bem-vindos a este canal.


Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga e pedagoga, formada pela Universidade Federal de Pernambuco na década de 1990. Trabalho com crianças e adolescentes desde 1991. Minha trajetória reúne educação, saúde e cuidado psicológico, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema, além de formação em neurociência e trauma na infância. O estudo do apego também orienta meu olhar sobre o desenvolvimento e as relações.


Ao longo dessa caminhada, tenho escutado muitas perguntas de pais e cuidadores: “Por que meu filho reage assim?”, “Por que algo tão pequeno se transforma em uma situação tão difícil?”, “Estou oferecendo demais ou de menos?”, “Como acolher sem deixar de colocar limites?”.


Essas perguntas costumam chegar acompanhadas de cansaço, preocupação e, muitas vezes, culpa. Há famílias que já tentaram conversar, explicar, castigar, recompensar e mudar a rotina. Mesmo assim, continuam sem compreender o que acontece.


Este espaço nasce para ajudar vocês a ampliar esse olhar. Meu convite é que possamos observar o comportamento e conhecer a criança que o apresenta: como ela reage, o que consegue compreender, quais habilidades ainda está desenvolvendo, o que vive em seus ambientes e como encontra apoio nas relações.


Em algumas situações, a orientação aos cuidadores e mudanças no cotidiano podem contribuir bastante. Em outras, será necessário avaliar a criança e construir um acompanhamento específico. Conhecer melhor a situação é o que nos ajuda a escolher o caminho.


Quando a preocupação começa pelo que aparece


Geralmente, os pais procuram ajuda a partir daquilo que conseguem ver: o choro, a irritabilidade, a dificuldade de dormir, o medo de se separar, a recusa em participar, as discussões ou o afastamento.


Essas manifestações merecem atenção. Mas um mesmo comportamento pode acontecer por motivos diferentes.


Duas crianças podem recusar uma atividade: uma porque teme errar; outra porque não compreendeu a tarefa. Outra ainda pode estar cansada, sentir dificuldade sensorial ou ter vivido uma experiência desagradável naquele contexto. A aparência do comportamento pode ser semelhante, enquanto as necessidades de cuidado são distintas.


Por isso, quando digo que “o sintoma pode ser uma linguagem”, utilizo uma metáfora: ele pode oferecer pistas sobre o que acontece com a criança. Isso não significa que toda manifestação esconda uma mensagem emocional, nem que possamos traduzir um comportamento automaticamente.


Precisamos considerar desenvolvimento, saúde, sono, aprendizagem, características do neurodesenvolvimento, experiências de vida e relações. O significado é investigado, não presumido.


É como uma série. Quando começamos pela última temporada, vemos conflitos e reações sem conhecer os acontecimentos que ajudam a compreendê-los. Na vida da criança, o comportamento de hoje também tem um contexto.


Essa metáfora nos convida a conhecer os capítulos anteriores e observar o episódio atual. Não precisamos reconstruir toda a história para começar a ajudar; podemos cuidar do sofrimento presente enquanto compreendemos melhor o que o desencadeia e o mantém.


O Arquipélago de Si: cinco ilhas conectadas


O Arquipélago de Si é a metáfora que utilizo para organizar esse olhar. Ele reúne cinco ilhas: temperamento, necessidades emocionais básicas, estilos parentais, ambientes e sintomas.


As ilhas estão conectadas. Uma mudança na rotina pode aumentar o cansaço; o cansaço pode tornar mais difícil lidar com a frustração; uma resposta adulta mais previsível pode ajudar a criança a atravessar esse momento.


A metáfora funciona como um recurso de psicoeducação e organização de perguntas. Ela não constitui, por si só, um instrumento diagnóstico ou um protocolo empiricamente validado.


A ilha do temperamento: como essa criança costuma reagir?


Algumas crianças se aproximam rapidamente de novidades. Outras observam antes de participar. Algumas expressam emoções com intensidade; outras demonstram pouco, embora possam estar sentindo muito.


O temperamento envolve diferenças individuais na maneira de reagir e regular atenção, emoções e atividade. Conhecê-lo ajuda a ajustar expectativas e formas de cuidado. A Academia Americana de Pediatria destaca a importância de considerar essas diferenças na relação entre pais e filhos. 


Aqui, a pergunta é: “Como posso ajudar esta criança, considerando a maneira como ela funciona?”


Uma criança que precisa de tempo para se adaptar pode se beneficiar de preparação e aproximação gradual. Uma criança muito ativa pode precisar de oportunidades de movimento e instruções curtas. Uma criança que se frustra intensamente pode precisar de mais apoio para aprender a esperar e tentar novamente.


Temperamento não é destino. Também não justifica qualquer comportamento. Ele ajuda a escolher a forma de ensinar.


Na prática, observamos: como a criança reage às mudanças? Quanto tempo leva para se recuperar de uma frustração? Em quais situações consegue lidar melhor? O que facilita sua participação?


A ilha das necessidades emocionais básicas: o que precisa ser cuidado?


Na Terapia do Esquema, as necessidades emocionais básicas ajudam a compreender o desenvolvimento de padrões de interpretação, emoção e relacionamento. Na formulação clássica de Young, Klosko e Weishaar (2008), elas abrangem:


-Vínculos seguros, com proteção, estabilidade, cuidado e aceitação.

- Autonomia, competência e senso de identidade.

- Liberdade para expressar necessidades e emoções.

- Espontaneidade e brincar.

- Limites realistas e autocontrole.


Essas necessidades coexistem. A criança precisa de acolhimento e de oportunidades para desenvolver autonomia. Precisa brincar, expressar emoções e aprender que suas ações têm consequências.


Atender às necessidades emocionais não significa realizar todos os desejos. O desejo pode ser continuar brincando por mais uma hora; a necessidade pode envolver descanso, previsibilidade e ajuda para encerrar uma atividade prazerosa.


É possível dizer: “Eu sei que você queria continuar. É difícil parar quando está divertido. Agora vamos guardar, e eu vou ajudar você a começar”.


Nesse exemplo, o adulto reconhece a experiência da criança e sustenta o limite.


Relações com respostas atentas aos sinais infantis contribuem para o desenvolvimento. Isso envolve perceber as iniciativas da criança e responder de maneira apropriada, em trocas que se constroem no cotidiano. 


A pergunta desta ilha é: “Que necessidade pode estar envolvida nesta situação e como posso cuidar dela de maneira adequada?”


A ilha dos estilos parentais: como respondemos ao que acontece?


Quando o filho chora, se recusa ou desafia uma regra, o adulto também sente. Pode surgir irritação, medo, impotência, vergonha ou a sensação de estar sendo desrespeitado.


Essas reações influenciam a resposta que damos. Por isso, observar a criança também envolve reconhecer o que acontece conosco.


Os estilos parentais ajudam a pensar em padrões de acolhimento, comunicação, exigência e limites. Contudo, uma situação isolada não define uma família. É possível responder com firmeza em um momento e, em outro, ceder por exaustão. A compreensão exige observar a frequência e o contexto dessas respostas.


A maneira como os pais interpretam o comportamento também é influenciada por seu próprio temperamento, humor e pressões cotidianas. 


Aqui entra uma pergunta delicada: “O que o comportamento do meu filho desperta em mim?”


Talvez seu choro encontre uma história em que você ouviu que sentir era fraqueza. Talvez sua dificuldade para obedecer desperte medo de perder o controle. Talvez sua frustração faça você querer resolver tudo rapidamente, porque se lembra de ter enfrentado dificuldades sem apoio.


Revisitar a criança que fomos pode ajudar a reconhecer essas influências. Algumas vezes repetimos formas de cuidado conhecidas; outras vezes tentamos oferecer o oposto daquilo que recebemos. Mesmo com boa intenção, podemos ter dificuldade para perceber o que o filho precisa hoje.


Por exemplo, alguém que viveu muitas restrições pode sentir dificuldade para estabelecer limites. Alguém que foi muito criticado pode tentar impedir qualquer experiência de erro ou frustração.


São possibilidades a serem examinadas, não conclusões automáticas.


A história dos pais merece cuidado. O objetivo dessa reflexão é ampliar a liberdade para responder ao presente, sem transformar a infância dos adultos em uma explicação única para o sofrimento dos filhos.


A ilha dos ambientes: onde essa criança vive?


A criança participa de diferentes ambientes: casa, escola, família ampliada, comunidade e espaços digitais. Em cada um deles, encontra expectativas, relações, estímulos e desafios.


Como está seu sono? Há tempo para brincar? A rotina permite descanso? Ela compreende o que é esperado? Está enfrentando conflitos, exclusão ou dificuldades de aprendizagem? Houve mudanças familiares importantes?


O desenvolvimento ocorre na interação entre características individuais, relações e condições ambientais. Por isso, é necessário observar também os recursos e as pressões que cercam a criança e seus cuidadores. 


Uma família sobrecarregada pode precisar de apoio concreto para conseguir oferecer mais previsibilidade. Uma criança com dificuldade escolar pode precisar de adaptações, e não apenas de incentivos para “se esforçar mais”.


A pergunta desta ilha é: “O que, neste ambiente, aumenta a dificuldade e o que pode facilitar o cuidado?”


A ilha dos sintomas: o que aparece e como interfere na vida?


Chegamos à ilha que costuma motivar a busca por ajuda. Aqui observamos medos, irritabilidade, retraimento, dificuldades de sono, conflitos e outras manifestações.


Precisamos investigar quando começaram, com que frequência aparecem, quanto duram, em quais situações ocorrem e como interferem na vida da criança.


Também buscamos exceções: quando ela consegue lidar melhor? Com quem se sente mais à vontade? O que acontece de diferente nesses momentos?


Nesta metáfora, “sintomas” designa manifestações que preocupam ou produzem sofrimento. Eles não são sinônimos de esquemas da Terapia do Esquema. Esquemas são padrões mais amplos de significados e experiências, cuja investigação exige cuidado clínico.


A pergunta desta ilha é: “O que precisa de ajuda agora e quais informações podem orientar essa ajuda?”


Como as ilhas se encontram em uma situação cotidiana


Imagine uma criança que começa a chorar intensamente quando precisa sair de casa para a escola.


Na ilha do temperamento, podemos investigar como ela lida com transições. Na ilha das necessidades, observamos segurança, previsibilidade e autonomia. Na ilha dos estilos parentais, examinamos como os adultos respondem ao choro. Na ilha dos ambientes, buscamos informações sobre sono, rotina, aprendizagem e relações escolares. Na ilha dos sintomas, avaliamos intensidade, duração e prejuízo.


Nenhuma dessas perguntas, sozinha, explica a situação.


A partir dessa compreensão, podemos organizar despedidas mais previsíveis, investigar dificuldades escolares, apoiar os cuidadores e avaliar a necessidade de acompanhamento. A intervenção ganha direção porque considera a criança e o contexto em que o comportamento acontece.


Perguntas que os pais costumam trazer


As respostas abaixo são pontos de partida para observação e conversa. Precisam ser ajustadas à idade e à situação de cada criança.


“Meu filho explode quando escuta um ‘não’. O que faço?”


Observe como o limite é apresentado, o que aconteceu antes e se há cansaço ou dificuldade com transições. Durante a reação intensa, priorize segurança e use poucas palavras: “Você ficou muito bravo. Eu vou ajudar. Bater não pode”. Quando estiver mais tranquilo, ensine uma alternativa para expressar a frustração.


“Minha filha pede desculpas por tudo, até quando não fez nada errado.”


Vale observar medo de errar, busca de aprovação e experiências de crítica. Diferencie erro de identidade: “Isso aconteceu sem querer. Vamos resolver juntos”. Se o padrão for persistente ou causar sofrimento, merece ser compreendido com mais profundidade.


“Meu filho não quer ficar longe de mim.”


Considere idade, mudanças recentes e experiências de separação. Uma despedida previsível e oportunidades graduais de permanecer com pessoas de confiança podem ajudar. O cuidado deve favorecer segurança e autonomia, respeitando o nível de dificuldade da criança.


“Ela só obedece quando eu grito.”


Observe o ciclo entre vocês. O pedido é claro? A criança compreendeu? O adulto repete muitas vezes antes de agir? Experimente aproximar-se, dar uma orientação por vez e acompanhar o combinado com consistência. Também é importante cuidar da sobrecarga que leva o adulto a perder a paciência.


“Meu filho fica quieto na escola, mas desaba quando chega em casa.”


Investigue o esforço exigido durante o dia, as relações escolares, fome, cansaço e estímulos. Um período de descanso e reconexão pode ser útil. Esse padrão, sozinho, não comprova segurança do apego nem descarta dificuldades na escola.


“Meu adolescente se fecha e não quer conversar.”


A busca por privacidade faz parte do desenvolvimento, mas mudanças marcantes merecem atenção. Crie momentos de convivência com menos cobrança: “Percebi você mais distante. Estou disponível para ouvir”. Observe também sono, amizades, interesse pelas atividades e funcionamento escolar.


“Ofereço tudo e, mesmo assim, parece que nada é suficiente.”


Vale diferenciar recursos materiais, desejos e necessidades emocionais. Como estão os momentos de atenção compartilhada? Há espaço para o filho ser ouvido, participar e enfrentar desafios possíveis? Presença e limites consistentes também fazem parte do cuidado.


“Tenho medo de repetir com meu filho o que fizeram comigo.”


Reconhecer esse medo já permite começar a observar suas respostas. Pergunte: “Quando reajo assim, o que estou sentindo e tentando evitar?”. Se essas experiências provocam sofrimento intenso ou interferem repetidamente na relação, buscar cuidado para você pode ajudar.


“Como sei se precisamos de orientação parental ou de atendimento para a criança?”


Essa decisão depende de avaliação. Orientação parental pode contribuir quando mudanças nas respostas adultas e na rotina são relevantes. Se há sofrimento persistente, prejuízo importante ou dúvidas sobre saúde e desenvolvimento, a criança pode precisar de avaliação e acompanhamento. Muitas vezes, os dois cuidados caminham juntos.


Um pequeno exercício para começar


Escolha uma situação recente e procure descrevê-la sem rótulos. Em vez de “meu filho é impossível”, registre o que ele fez, onde estava e o que aconteceu.


Depois, observe:


- O que aconteceu antes?

-Como estavam seu descanso e sua rotina?

- O que essa situação exigia dele?

-Como os adultos responderam?

- O que aconteceu depois?

- Em uma situação parecida, quando ele conseguiu lidar melhor?


Essas perguntas ajudam a transformar uma preocupação ampla em informações que podem orientar o cuidado.


Um convite para olhar com mais compreensão


Você não precisa ter todas as respostas para começar a compreender seu filho. Precisa de espaço para observar, apoio para refletir e disponibilidade para ajustar o que for necessário.


A criança também está aprendendo: a reconhecer emoções, pedir ajuda, esperar, lidar com frustrações e participar das relações. Os adultos podem oferecer condições para esse aprendizado, ao mesmo tempo que cuidam de suas próprias dificuldades.


No Arquipélago de Si, o convite é conhecer as conexões entre as ilhas. O comportamento recebe atenção junto com a história, as habilidades, as relações e as condições de vida.


Talvez a pergunta que abra esse caminho seja:


“O que meu filho ainda precisa aprender e de que apoio precisa para conseguir?”


Neste canal, vamos conversar sobre essas questões com cuidado, exemplos do cotidiano e respeito às diferentes famílias.


Qual dessas ilhas você gostaria de conhecer primeiro?


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga | Pedagoga

CRP 02/22746

@psikatiaguerra


Referências


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Normal child behavior. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/family-life/family-dynamics/communication-discipline/Pages/Normal-Child-Behavior.aspx


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Understanding your child’s temperament: Why it’s important. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/gradeschool/Pages/How-to-Understand-Your-Childs-Temperament.aspx


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). An expanded story of early childhood development. https://developingchild.harvard.edu/key-concepts/what-surrounds-us-shapes-us/


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). Serve and return. https://developingchild.harvard.edu/key-concept/serve-and-return/


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

sexta-feira

A Reparentalização Limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

 


A reparentalização limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

A Terapia do Esquema oferece uma compreensão do sofrimento psicológico que articula experiências de desenvolvimento, necessidades emocionais, padrões de interpretação e estratégias de enfrentamento. Nessa perspectiva, as dificuldades apresentadas pelo paciente são examinadas em relação à maneira como ele aprendeu a perceber a si mesmo, a interpretar as relações e a responder às situações emocionalmente significativas. Young et al. (2008) propõem uma abordagem que integra intervenções cognitivas, comportamentais, experienciais e relacionais, permitindo trabalhar tanto a compreensão dos padrões quanto sua transformação na vida cotidiana.

Entre os componentes dessa abordagem, a reparentalização limitada ocupa um lugar central por utilizar a relação terapêutica como espaço de atendimento parcial às necessidades emocionais insuficientemente satisfeitas ao longo do desenvolvimento. O terapeuta oferece acolhimento, validação, proteção, orientação e limites, respeitando o enquadre profissional e os objetivos do tratamento. Sua atuação procura favorecer experiências relacionais que contribuam para modificar padrões desadaptativos e fortalecer recursos internos do paciente (Young et al., 2008).

Nesta análise, compreendo a reparentalização limitada como uma forma de cuidado que articula sensibilidade e responsabilidade. Sua importância está na possibilidade de o paciente experimentar uma relação em que suas emoções sejam reconhecidas, suas necessidades possam ser expressas e suas dificuldades sejam abordadas sem humilhação. Esse cuidado precisa estar associado ao desenvolvimento da autonomia, para que aquilo que é inicialmente experimentado na relação terapêutica possa ser incorporado à maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.

Os esquemas iniciais desadaptativos constituem padrões amplos e persistentes que envolvem memórias, emoções, cognições e sensações corporais relacionadas à percepção de si e das relações. Segundo Young et al. (2008), sua formação está associada à interação entre o temperamento e as experiências de desenvolvimento, especialmente quando necessidades emocionais fundamentais não são adequadamente atendidas. Esses padrões podem continuar influenciando a vida adulta, mesmo quando as circunstâncias que contribuíram para sua formação já se modificaram.

Essa compreensão exige uma investigação cuidadosa. A presença de um esquema não permite concluir automaticamente que determinada experiência ocorreu na infância. Na minha interpretação, a conceitualização de caso deve organizar hipóteses, preservando a possibilidade de revisão. A história relatada, os problemas atuais, as condições de vida e os recursos do paciente precisam ser considerados em conjunto, evitando explicações que reduzam toda a complexidade do sofrimento a uma única relação ou acontecimento.

As necessidades emocionais básicas ocupam uma posição estruturante nesse processo. Young et al. (2008) destacam necessidades de vínculo seguro, autonomia e competência, liberdade de expressão de necessidades e emoções, espontaneidade e lazer, além de limites realistas e autocontrole. A reparentalização limitada deve ser orientada pelas necessidades mais relevantes para cada pessoa, reconhecendo que acolher também pode envolver incentivar escolhas, estabelecer limites e ajudar a enfrentar situações difíceis.

A partir dessa perspectiva, considero que o cuidado terapêutico precisa ser ajustado ao paciente. Uma pessoa marcada por experiências de crítica pode necessitar de uma relação em que o erro seja abordado com respeito e possibilidade de reparação. Outra, que aprendeu a silenciar suas necessidades, pode precisar de incentivo para expressar discordâncias. Quando predominam insegurança e dependência, a intervenção pode combinar proteção emocional com oportunidades graduais de decisão. O sentido do cuidado depende de sua função na conceitualização clínica.

A compreensão das estratégias de enfrentamento também é fundamental. Young et al. (2008) descrevem respostas de resignação, evitação e hipercompensação diante da ativação dos esquemas. Embora possam reduzir o sofrimento em determinadas situações, essas respostas podem contribuir para a manutenção dos padrões desadaptativos. A pessoa que evita proximidade para não ser rejeitada, por exemplo, pode encontrar alívio imediato, mas também limitar experiências de apoio e pertencimento.

Na minha leitura clínica, reconhecer a função protetora dessas estratégias favorece uma intervenção mais respeitosa. Antes de buscar sua modificação, é necessário compreender o que elas tentam evitar e quais consequências produzem. Esse reconhecimento permite conversar sobre o sofrimento sem transformar a proteção aprendida em motivo de censura. Ao mesmo tempo, abre espaço para examinar se a estratégia continua sendo necessária ou se existem alternativas mais adequadas às condições atuais.

O trabalho com os modos esquemáticos aprofunda essa investigação. Os modos correspondem a estados emocionais e respostas de enfrentamento que se tornam predominantes em determinado momento. Na proposta de Young et al. (2008), a intervenção procura atender à vulnerabilidade, reduzir a influência de modos disfuncionais e fortalecer o modo Adulto Saudável. A reparentalização limitada participa desse processo ao oferecer respostas que o paciente ainda apresenta dificuldade de produzir por conta própria.

Compreendo o fortalecimento do Adulto Saudável como o desenvolvimento da capacidade de acolher emoções, avaliar situações, estabelecer limites e agir com responsabilidade. Isso inclui reconhecer a dor sem se abandonar a ela, questionar mensagens internas punitivas e buscar apoio quando necessário. A autonomia emocional pode, assim, ser entendida como a capacidade de cuidar de si e participar de relações de reciprocidade, preservando o direito de precisar de outras pessoas.

A confrontação empática contribui para esse desenvolvimento. Young et al. (2008) articulam a compreensão das origens dos padrões com o questionamento de suas consequências atuais. O terapeuta reconhece a experiência emocional do paciente e o ajuda a perceber como determinadas respostas podem manter seu sofrimento. Essa postura permite que acolhimento e mudança sejam trabalhados conjuntamente.

Considero que essa articulação evita dois riscos clínicos: validar de maneira indiscriminada respostas prejudiciais ou confrontá-las sem compreender a vulnerabilidade envolvida. A intervenção precisa reconhecer o sentimento e, simultaneamente, examinar interpretações e comportamentos. Sentir medo de rejeição, por exemplo, merece acolhimento; concluir que toda demora representa abandono exige investigação.

Um exemplo fictício ilustra essa possibilidade. Uma paciente interpreta a ausência de resposta a uma mensagem como evidência de desinteresse. Sente vergonha por precisar de atenção e se afasta da relação. Na sessão, a terapeuta pode ajudá-la a reconhecer a necessidade de consideração, compreender o afastamento como tentativa de proteção e examinar outras explicações para o acontecimento. Posteriormente, podem construir uma forma de comunicação mais clara, que permita expressar a necessidade sem transformar a incerteza em certeza de rejeição.

Nesse caso, a reparentalização limitada se manifesta na qualidade da resposta terapêutica e na maneira como essa resposta é elaborada. O acolhimento permite que a paciente entre em contato com a experiência; a investigação amplia sua compreensão; e a prática comportamental favorece novas possibilidades fora da sessão. O exemplo representa uma aplicação interpretativa dos fundamentos da abordagem, e não um procedimento obrigatório.

As técnicas cognitivas, experienciais e comportamentais ampliam esse trabalho. Young et al. (2008) apresentam recursos para examinar crenças, trabalhar experiências emocionais e romper padrões de comportamento. A ressignificação por imagens e os diálogos entre diferentes posições internas podem ajudar o paciente a reconhecer necessidades e desenvolver respostas alternativas. Sua utilização deve estar vinculada à conceitualização e à capacidade de participação da pessoa naquele momento.

Na minha interpretação, a profundidade de uma intervenção não deve ser medida pela intensidade emocional que ela provoca. O trabalho precisa permitir compreensão, elaboração e integração. É necessário respeitar o ritmo do paciente, explicar o propósito dos exercícios e reconhecer sua liberdade para discordar ou interromper. A experiência terapêutica deve favorecer participação e segurança.

O caráter limitado da reparentalização também precisa permanecer explícito. A relação acontece dentro de um contexto profissional, com condições de atendimento e disponibilidade definidas. Conforme a proposta de Young et al. (2008), o cuidado oferecido deve respeitar esses limites. A previsibilidade do enquadre constitui parte importante da experiência relacional, pois permite trabalhar necessidades e frustrações em condições que possam ser sustentadas.

Entendo que estabelecer limites com respeito pode representar uma intervenção reparadora. A terapeuta pode reconhecer o sofrimento associado a uma ausência ou mudança de horário, conversar sobre seus significados e planejar recursos para o intervalo. A manutenção do vínculo não exige eliminar toda frustração; exige abordá-la de modo compreensível e consistente.

Esse processo também demanda atenção às respostas emocionais da profissional. O desejo de proteger, aliviar rapidamente o sofrimento ou evitar conflitos pode interferir nas decisões clínicas. A reflexão e a supervisão ajudam a distinguir uma intervenção orientada pelas necessidades do paciente de uma resposta motivada principalmente pelo desconforto da terapeuta.

Por fim, considero que os resultados desse cuidado precisam ser acompanhados na vida cotidiana. A capacidade de expressar necessidades, reconhecer emoções, estabelecer limites e construir relações mais satisfatórias oferece indicadores relevantes de mudança. A experiência vivida na terapia ganha alcance quando o paciente passa a utilizar esses recursos em outros contextos.

A reparentalização limitada pode, portanto, ser compreendida como uma intervenção que combina vínculo, elaboração emocional e aprendizagem. Fundamentada na Terapia do Esquema, sua aplicação requer conceitualização individualizada, sensibilidade às necessidades e clareza sobre os limites profissionais. Nesta análise, seu propósito central é contribuir para que o paciente desenvolva uma relação consigo mesmo que permita acolher sua vulnerabilidade, exercer responsabilidade e construir escolhas mais autônomas.


Referência

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

Perfil

País, seus filhos causam preocupações atualmente?

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