sexta-feira

Necessidades Emocionais Básicas





Pais, o que seu filho pode estar tentando dizer com esse comportamento?


Seu filho pede desculpas por tudo? Tem muito medo de errar? Explode diante de um “não”? Ou se fecha justamente quando você tenta conversar?


Essas situações podem deixar os pais preocupados e, muitas vezes, sem saber como agir.


Talvez você já tenha pensado: “Eu ofereço tanto cuidado… o que ainda está acontecendo?”.


Este texto é para vocês, pais e cuidadores, que desejam compreender melhor as necessidades emocionais dos filhos e encontrar maneiras de ajudá-los no cotidiano.


Não precisamos ter todas as respostas imediatamente. Podemos começar com uma pergunta:


“Além do comportamento que estou vendo, o que preciso compreender sobre meu filho?”


O que são necessidades emocionais básicas?


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, as necessidades emocionais básicas ocupam um lugar central na compreensão do funcionamento psicológico.


Na formulação de Young et al. (2008), elas envolvem cinco grupos: vínculos seguros; autonomia, competência e identidade; liberdade para expressar emoções e necessidades válidas; espontaneidade e lazer; e limites realistas e autocontrole.


Em uma linguagem próxima das famílias, podemos pensar em cinco mensagens:


“Tenho com quem contar.”


“Posso aprender e descobrir quem sou.”


“Posso expressar o que sinto.”


“Tenho espaço para brincar e aproveitar a vida.”


“Recebo orientação para conviver com limites.”


Essa organização é apresentada na literatura da Terapia do Esquema e discutida em sua adaptação ao atendimento infantil. 


Atender essas necessidades envolve experiências concretas: como escutamos, orientamos, demonstramos afeto, incentivamos tentativas e respondemos aos momentos difíceis.


Como isso aparece na sua casa?


Imagine que seu filho chegue triste porque não foi incluído em uma brincadeira.


Você pode sentir vontade de dizer: “Não liga para isso”. A intenção é ajudá-lo a sofrer menos. Mas talvez ele precise primeiro contar o que aconteceu e sentir que sua tristeza foi compreendida.


Uma resposta possível seria:


“Isso parece ter doído. Quer me contar como foi?”


Depois, vocês podem pensar juntos em formas de lidar com a situação.


Agora imagine que ele esteja com dificuldade em uma tarefa. Fazer tudo por ele pode resolver o problema daquele momento, mas também retirar uma oportunidade de aprender. Exigir que faça sozinho, sem compreender a dificuldade, pode aumentar sua insegurança.


Uma alternativa seria:


“Vamos começar juntos. Depois, você tenta essa parte e eu fico por perto.”


Esses exemplos ilustram como acolhimento e desenvolvimento de habilidades podem caminhar juntos.


O que Harvard apresenta sobre pais e cuidadores responsivos?


O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, reúne conhecimentos científicos sobre a importância das interações responsivas na primeira infância.


Uma ideia central é a interação chamada serve and return: uma troca de ida e volta entre a criança e o adulto. A criança olha, aponta, vocaliza ou chora; o cuidador percebe e responde com atenção, palavras, contato ou acolhimento.


Segundo essa síntese, essas trocas contribuem para o desenvolvimento de conexões neurais e de habilidades de comunicação e convivência social (Center on the Developing Child at Harvard University, s.d.).


Ser responsivo envolve perceber os sinais da criança e procurar uma resposta adequada. No cotidiano, isso pode significar interromper uma atividade para escutar, acompanhar uma descoberta ou reconhecer um desconforto.


A fonte de Harvard trata principalmente de crianças pequenas. Seu conteúdo dialoga com a importância das relações de cuidado, mas não constitui uma comprovação específica da Terapia do Esquema.


Acolher significa deixar fazer tudo?


Não. O cuidado emocional também inclui orientação.


Se seu filho agride alguém porque ficou frustrado, você pode reconhecer o sentimento e impedir a agressão:


“Eu entendo que você ficou com raiva. Não vou deixar você bater. Vamos encontrar outra maneira de mostrar isso.”


A emoção recebe espaço; o comportamento recebe um limite.


Os exemplos deste texto são possibilidades de comunicação, que precisam ser ajustadas à idade, ao contexto e às características de cada criança.


O que o modelo alemão da Terapia do Esquema acrescenta?


Em sua dissertação de mestrado, Bizinoto (2015) apresenta o modelo alemão de Terapia do Esquema para crianças e adolescentes, desenvolvido por Christof Loose e colaboradores a partir da adaptação do modelo de Young.


O trabalho descreve fundamentos e propostas de avaliação, psicoeducação, técnicas vivenciais e orientação aos pais. Também aponta a necessidade de adaptações para o contexto brasileiro. Trata-se de uma contribuição para compreender e organizar a intervenção, que não deve ser apresentada como prova definitiva de eficácia. 


Para as famílias, essa perspectiva abre uma possibilidade importante: participar da compreensão das dificuldades e da construção de novas respostas.


Uma pergunta útil é:


“O que acontece comigo quando meu filho reage dessa maneira?”


Às vezes, a reação dele desperta em nós medo, vergonha, cansaço ou sensação de impotência. Perceber isso pode ajudar a responder com mais clareza.


Você pode se perguntar: “Estou conseguindo escutar?”, “Minha expectativa está adequada à idade dele?” ou “Preciso me reorganizar antes de continuar essa conversa?”.


Os sintomas revelam qual necessidade está faltando?


Não automaticamente.


Medo, irritabilidade, isolamento, dependência ou dificuldades escolares podem ter diferentes explicações. É necessário considerar desenvolvimento, temperamento, sono, saúde, aprendizagem, relações e acontecimentos recentes.


Uma criança que evita a escola pode estar enfrentando dificuldades acadêmicas, conflitos, bullying ou outros problemas. Uma criança que pede ajuda constantemente pode precisar de confiança, de ensino mais acessível ou de avaliação de suas habilidades.


O olhar para as necessidades emocionais amplia a investigação. Não substitui a avaliação individual.


Na minha atuação em Psicologia Clínica e Hospitalar, Neuropsicologia e Pedagogia, integrada à TCC e à Terapia do Esquema, procuro compreender o que a criança sente, como enfrenta as situações e quais recursos precisa desenvolver.


Por onde começar?


Escolha uma situação recente e observe:


-O que aconteceu antes da reação?

-O que seu filho falou ou demonstrou?

-Como você respondeu?

-O que aconteceu depois?

-Que apoio, orientação ou ajuste poderia ajudá-lo?


Em um momento tranquilo, pergunte:


“Qual foi a parte mais difícil para você?”


Escute a resposta antes de tentar completá-la. Ela pode trazer informações que o comportamento, sozinho, não mostrou.


Vocês também precisam de apoio para cuidar. A síntese de Harvard reconhece que estresse financeiro, problemas de saúde e falta de suporte podem dificultar a disponibilidade dos cuidadores, destacando a importância de apoiá-los (Center on the Developing Child at Harvard University, s.d.).


Qual dessas necessidades merece mais atenção na sua família hoje?


Talvez seja o espaço para conversar. Talvez sejam oportunidades de autonomia, momentos de brincadeira ou combinados mais claros.


Quando os sintomas persistem, provocam sofrimento ou prejudicam a rotina, o acompanhamento profissional ajuda a compreender o contexto e construir estratégias específicas.


Seu filho não precisa que você adivinhe tudo. Precisa encontrar oportunidades para ser compreendido e receber ajuda para lidar com o que sente.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar-Neuropsicóloga-Pedagoga

@psikatiaguerra


Referências 


Bizinoto, J. F. S. (2015). O modelo alemão da terapia do esquema: Conceituação, técnicas e aplicação clínica na psicoterapia infantil [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Uberlândia]. Repositório Institucional da Universidade Federal de Uberlândia. https://doi.org/10.14393/ufu.di.2015.249⁠


Center on the Developing Child at Harvard University. (s.d.). Serve and return. https://developingchild.harvard.edu/key-concept/serve-and-return/⁠


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

Nenhum comentário:

Perfil

Necessidades Emocionais Básicas

Pais, o que seu filho pode estar tentando dizer com esse comportamento? Seu filho pede desculpas por tudo? Tem muito medo de errar? Explode ...