domingo

O Que São Esquemas Iniciais Desadaptativos? Uma Compreensão à Luz da Terapia do Esquema

 

Ao longo da minha prática clínica, observo que muitas pessoas chegam à psicoterapia acreditando que seus sentimentos, comportamentos ou dificuldades relacionais representam características permanentes da personalidade. Frequentemente, descrevem-se como “ansiosas”, “inseguras”, “difíceis de amar”, “fracassadas” ou “incapazes”. No entanto, quando aprofundamos a compreensão da história de vida, percebemos que essas experiências costumam estar relacionadas a padrões emocionais mais profundos, denominados Esquemas Iniciais Desadaptativos.


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, os esquemas são definidos como padrões amplos e duradouros compostos por memórias, emoções, cognições, sensações corporais e comportamentos que se desenvolvem ao longo da infância e adolescência e continuam influenciando a forma como a pessoa interpreta a si mesma, os outros e o mundo ao longo da vida (Young, Klosko, & Weishaar, 2008).


Esses esquemas não surgem de forma aleatória. Eles resultam da interação entre fatores temperamentais, características individuais e, principalmente, das experiências vividas nos contextos de apego e desenvolvimento. Quando necessidades emocionais básicas não são adequadamente atendidas, o indivíduo passa a construir interpretações sobre si mesmo e sobre os relacionamentos que podem permanecer ativas por muitos anos.


Do ponto de vista da Terapia do Esquema, todos os seres humanos possuem necessidades emocionais básicas universais. Entre elas estão a necessidade de vínculo seguro, afeto, proteção, aceitação, pertencimento, autonomia, competência, identidade, liberdade para expressar emoções e necessidades, limites realistas, autocontrole, espontaneidade e lazer (Young et al., 2008).


Quando essas necessidades são consistentemente atendidas, tendemos a desenvolver uma percepção mais integrada e segura de nós mesmos e das relações interpessoais. Entretanto, quando há negligência emocional, rejeição, instabilidade, críticas excessivas, superproteção, invalidação emocional ou ausência de limites adequados, podem surgir esquemas que passam a funcionar como filtros através dos quais interpretamos as experiências futuras.


É importante compreender que os esquemas não são apenas pensamentos negativos. Eles constituem estruturas emocionais profundas. Por essa razão, muitas vezes são vivenciados como verdades absolutas e não como interpretações da realidade. Uma pessoa com esquema de abandono, por exemplo, não apenas pensa que será abandonada; ela sente essa possibilidade como algo extremamente real. Da mesma forma, alguém com esquema de defectividade não apenas acredita ter defeitos; experimenta uma sensação persistente de inadequação e não merecimento.


Outro aspecto relevante é que os esquemas tendem a se perpetuar ao longo do tempo. Isso ocorre porque o indivíduo, frequentemente de maneira inconsciente, passa a interpretar os acontecimentos de forma coerente com suas crenças centrais. Assim, experiências que confirmam o esquema recebem maior atenção, enquanto evidências contrárias podem ser minimizadas ou ignoradas. Esse processo contribui para a manutenção do sofrimento emocional e dos padrões relacionais disfuncionais.


A Terapia do Esquema organiza os esquemas em cinco grandes domínios emocionais. O domínio da Desconexão e Rejeição está relacionado às experiências de falta de afeto, segurança, aceitação e pertencimento. O domínio da Autonomia e Desempenho Prejudicados refere-se às dificuldades relacionadas à independência, competência e senso de identidade. O domínio dos Limites Prejudicados envolve dificuldades associadas ao autocontrole e ao respeito aos limites interpessoais. O domínio do Direcionamento para o Outro relaciona-se à tendência de priorizar excessivamente as necessidades alheias em detrimento das próprias. Por fim, o domínio da Supervigilância e Inibição caracteriza-se por excesso de controle emocional, perfeccionismo, autocrítica e preocupação constante com erros e ameaças (Benedini et al., 2023; Young et al., 2008).


Embora os esquemas possam acompanhar uma pessoa por muitos anos, eles não representam uma sentença definitiva. Um dos princípios fundamentais da Terapia do Esquema é justamente a possibilidade de transformação. À medida que a pessoa desenvolve consciência sobre seus padrões emocionais, compreende suas origens e aprende novas formas de responder às próprias necessidades emocionais, torna-se possível construir experiências mais saudáveis e fortalecer o chamado Modo Adulto Saudável.


Compreender os esquemas representa muito mais do que identificar sintomas. Significa compreender a história emocional que está por trás deles. Quando reconhecemos a origem de determinados padrões de sofrimento, deixamos de interpretar nossas dificuldades como defeitos pessoais e passamos a entendê-las como respostas aprendidas diante de necessidades emocionais que, em algum momento da vida, não foram suficientemente atendidas.


A partir desse olhar, a mudança deixa de ser um processo baseado em culpa ou autocensura e passa a ser construída por meio de consciência, validação emocional, autocuidado e desenvolvimento de novos recursos internos. É nesse contexto que a psicoterapia possibilita não apenas a redução do sofrimento, mas também o fortalecimento da identidade, dos relacionamentos e da saúde emocional.


Referências


Benedini, J. B., Napoli, V. A., Prado, V., & Canuto, T. (2023). Agenda em terapia do esquema: meu guia de autoconhecimento. Novo Hamburgo, RS: Sinopsys Editora.


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre, RS: Artmed.

Reconectando-se com Sua História: A Arte de Recomeçar, Voltando para Casa e Encontrando o Caminho de Volta

 


Reconectando-se com Sua História: A Arte de Recomeçar, Voltando para Casa e Encontrando o Caminho de Volta


Ao longo da vida, todos nós desenvolvemos formas de nos adaptar às experiências que vivemos. Algumas dessas adaptações foram fundamentais para nossa sobrevivência emocional, especialmente durante a infância, quando dependíamos do cuidado, da proteção e da validação das pessoas ao nosso redor. No entanto, nem todas as necessidades emocionais básicas foram plenamente atendidas. Muitas vezes, aprendemos a silenciar sentimentos, esconder vulnerabilidades, agradar para sermos aceitos ou assumir responsabilidades que não pertenciam a nós.


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young (2008), compreende-se que experiências repetidas de frustração das necessidades emocionais básicas podem contribuir para a formação dos chamados Esquemas Iniciais Desadaptativos. Esses esquemas são padrões profundos de pensamento, emoção, memória e comportamento que influenciam a forma como percebemos a nós mesmos, os outros e o mundo.


Por trás de muitos desses esquemas existe uma criança que precisou encontrar maneiras de lidar com a dor emocional. Uma criança que, em algum momento, pode ter sentido medo, rejeição, abandono, inadequação, solidão ou falta de pertencimento. Embora o tempo passe, essas experiências nem sempre ficam no passado. Muitas vezes, continuam presentes nas escolhas que fazemos, nos relacionamentos que construímos e na forma como interpretamos os acontecimentos da vida.


Por essa razão, o processo terapêutico não consiste apenas em compreender racionalmente o que aconteceu. Ele envolve um reencontro com partes importantes da própria história. É um convite para olhar com mais gentileza para a criança interior que ainda habita dentro de cada um de nós.


Reconectar-se com a própria história não significa permanecer preso ao passado. Pelo contrário. Significa compreender de onde vieram determinados padrões emocionais para que eles não continuem conduzindo o presente de forma automática. Quando uma pessoa começa a identificar seus esquemas, ela passa a perceber que muitas de suas reações atuais podem ter sido construídas como tentativas de proteção diante de dores antigas.


Entre os esquemas frequentemente observados na prática clínica estão a Privação Emocional, quando a pessoa sente que suas necessidades afetivas não serão atendidas; a Defectividade, marcada pela sensação de ser inadequado ou insuficiente; a Subjugação, caracterizada pela tendência de colocar as necessidades dos outros acima das próprias; e o Autossacrifício, quando o cuidado excessivo com os demais ocorre em detrimento do autocuidado.


A boa notícia é que os esquemas não são sentenças permanentes. Eles podem ser compreendidos, flexibilizados e transformados. Esse processo exige coragem, pois frequentemente envolve entrar em contato com emoções antigas, memórias dolorosas e crenças profundamente enraizadas. No entanto, também abre espaço para novas possibilidades de viver.


Ao longo desse caminho, a autocompaixão torna-se uma habilidade fundamental. Aprender a acolher as próprias vulnerabilidades, reduzir a autocrítica excessiva e validar emoções são passos importantes para a construção de uma relação mais saudável consigo mesmo. Em vez de continuar reproduzindo antigas formas de julgamento e exigência, a pessoa começa a desenvolver uma postura interna mais acolhedora e protetora.


Esse processo também favorece a construção de novas escolhas. Dizer “não” quando necessário, expressar necessidades emocionais, estabelecer limites saudáveis e reconhecer os próprios desejos são movimentos que fortalecem a autonomia e a autenticidade. Aos poucos, a pessoa deixa de viver exclusivamente em função da aprovação externa e passa a construir uma vida mais alinhada com seus valores.


Outro aspecto importante desse reencontro é a possibilidade de ressignificação. Ressignificar não significa negar o que aconteceu, mas atribuir novos significados às experiências vividas. É compreender que os acontecimentos do passado contribuíram para a formação da identidade, mas não precisam determinar o futuro. A história permanece a mesma; o que muda é a forma como ela é compreendida.


Na Terapia do Esquema, o objetivo final não é eliminar completamente a dor humana, mas fortalecer aquilo que Young denominou de Modo Adulto Saudável. Esse modo representa a capacidade de cuidar das próprias necessidades emocionais de maneira equilibrada, estabelecer relações mais seguras, lidar com desafios de forma adaptativa e construir uma vida com mais propósito e significado.


Por isso, reconectar-se com a própria história é, em muitos aspectos, voltar para casa. É retornar a partes de si que foram esquecidas, silenciadas ou negligenciadas ao longo do caminho. É reconhecer feridas sem permitir que elas definam quem somos. É descobrir que existe dentro de nós não apenas a criança que sofreu, mas também o adulto capaz de acolhê-la.


Talvez o maior aprendizado dessa jornada seja compreender que transformação não acontece quando nos tornamos perfeitos. Ela acontece quando desenvolvemos coragem para olhar para dentro, acolher nossa humanidade e seguir em frente com mais consciência, responsabilidade e compaixão.


Afinal, não podemos mudar o início da nossa história. Mas podemos participar ativamente da construção dos próximos capítulos.


Referência


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Porto Alegre: Artmed.

sexta-feira

Do Sintoma à História: Um Olhar Integrado pela Neurociência, Teoria do Apego e Terapia do Esquema.



Ao longo da minha trajetória profissional na educação, psicopedagogia, psicologia clínica, neuropsicologia e psicologia hospitalar, fui percebendo que compreender apenas o sintoma raramente era suficiente para compreender a pessoa. Em diferentes contextos clínicos, observava crianças, adolescentes e adultos apresentando ansiedade, tristeza, irritabilidade, dificuldades de aprendizagem, comportamentos desafiadores, sofrimento emocional ou dificuldades nos relacionamentos. Entretanto, quanto mais aprofundava a escuta clínica, mais percebia que por trás de cada sintoma existia uma história, uma trajetória de vida, um conjunto de experiências relacionais e emocionais que precisavam ser compreendidos.


Essa busca por um olhar mais amplo encontrei respaldo científico em diferentes áreas do conhecimento, especialmente na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia do Esquema. Essas abordagens, embora possuam origens distintas, convergem em um ponto fundamental: o desenvolvimento humano acontece dentro das relações, e os vínculos afetivos exercem papel decisivo na construção da saúde emocional ao longo da vida (Bowlby, 1981, 2015; Abreu, 2019; Mendes, 2021).


John Bowlby (1981) revolucionou a compreensão do desenvolvimento infantil ao propor que a necessidade de vínculo não é secundária nem derivada apenas da satisfação de necessidades fisiológicas. Para o autor, os seres humanos nascem biologicamente preparados para buscar proximidade, proteção e segurança junto às figuras cuidadoras. Posteriormente, suas pesquisas sobre os laços afetivos aprofundaram a compreensão acerca dos impactos da separação, da perda e das rupturas relacionais no desenvolvimento emocional (Bowlby, 2015).


A partir das contribuições de Bowlby e Mary Ainsworth, a Teoria do Apego passou a demonstrar que as experiências relacionais precoces influenciam significativamente a forma como a criança desenvolve suas estratégias de regulação emocional, sua percepção de segurança e suas expectativas em relação aos relacionamentos futuros (Abreu, 2019). Esses modelos internos de funcionamento tendem a acompanhar o indivíduo ao longo do desenvolvimento, influenciando relacionamentos familiares, amizades, vínculos amorosos e a própria relação consigo mesmo.


Dentro dessa perspectiva, compreendo que os sintomas raramente surgem de forma isolada. Muitas vezes, eles representam tentativas de adaptação diante de necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas. É exatamente nesse ponto que a Terapia do Esquema oferece uma importante ampliação do olhar clínico. Ao considerar as necessidades emocionais fundamentais da infância,como segurança, conexão, autonomia, validação emocional, espontaneidade e limites saudáveis, a Terapia do Esquema permite compreender como experiências precoces podem contribuir para a construção de padrões emocionais e comportamentais que permanecem ativos ao longo da vida.


Essa compreensão também encontra apoio na obra de Patrícia Nolêto (2021), que destaca a importância de compreendermos as necessidades emocionais da criança sob a perspectiva da Teoria do Esquema. Em uma passagem particularmente sensível, a autora afirma:


“Informação e conhecimento não nos faz ter o controle de tudo e não nos garante que nunca mais vamos errar. Mas conhecer nos dá mais chances de acertar e nos ajuda a construir novos caminhos” (Nolêto, 2021, p. 19).


Essa reflexão possui profunda relevância para pais, cuidadores e profissionais. Compreender o desenvolvimento emocional não significa alcançar uma parentalidade perfeita ou eliminar completamente os desafios do desenvolvimento humano. Significa, sobretudo, desenvolver maior consciência sobre as necessidades emocionais da criança e sobre as formas pelas quais podemos construir relações mais seguras, sensíveis e protetivas.


As Neurociências reforçam ainda mais essa compreensão ao demonstrar que as experiências relacionais influenciam diretamente o desenvolvimento cerebral. Sue Gerhardt (2017) descreve como as interações afetivas precoces participam ativamente da construção das estruturas neurais responsáveis pela regulação emocional, pelo manejo do estresse e pela capacidade de estabelecer vínculos seguros. Sob essa perspectiva, o cérebro não se desenvolve isoladamente; ele se desenvolve dentro das relações.


Essa visão modifica profundamente a forma como compreendemos o sofrimento emocional. Muitas vezes, comportamentos considerados inadequados, desafiadores ou problemáticos podem ser entendidos como adaptações desenvolvidas diante de contextos de insegurança, imprevisibilidade ou sofrimento. A criança não reage apenas ao que acontece objetivamente ao seu redor, mas também à forma como seu sistema nervoso interpreta essas experiências.


Na prática clínica, essa compreensão é fundamental. Antes de perguntar apenas “qual é o sintoma?”, procuro compreender “qual é a história por trás desse sintoma?”. Antes de focar exclusivamente no comportamento observável, busco compreender os vínculos, as experiências emocionais, o contexto familiar, o funcionamento do sistema nervoso e as necessidades emocionais envolvidas.


Autores contemporâneos como Cristiano Nabuco de Abreu (2019), Marco Aurélio Mendes (2021) e Susan Johnson (2025) ampliaram significativamente essa compreensão ao demonstrarem que o apego permanece influenciando a vida emocional muito além da infância. Os vínculos afetivos continuam sendo organizadores centrais da experiência humana ao longo de todo o ciclo vital. A forma como buscamos proximidade, reagimos à rejeição, lidamos com conflitos, expressamos emoções e construímos intimidade está profundamente relacionada às experiências de apego vividas ao longo da vida.


Susan Johnson (2025), ao aplicar os princípios da Teoria do Apego à prática clínica por meio da Terapia Focada nas Emoções, destaca que a segurança emocional constitui uma das necessidades humanas mais fundamentais. Quando as relações oferecem previsibilidade, acolhimento e responsividade emocional, tornam-se importantes fontes de regulação emocional e desenvolvimento psicológico.


Essa perspectiva também fundamenta a importância da orientação parental. Muitas vezes, os pais chegam ao consultório procurando estratégias para modificar comportamentos específicos dos filhos. Entretanto, frequentemente o trabalho clínico exige um olhar mais amplo, voltado para a qualidade das interações familiares, para a comunicação emocional e para a construção de um ambiente relacional mais seguro. Não se trata apenas de corrigir comportamentos, mas de fortalecer vínculos.


É justamente nesse ponto que a integração entre Neurociência, Teoria do Apego e Terapia do Esquema se torna tão valiosa. Enquanto a Neurociência ajuda a compreender como experiências relacionais influenciam o desenvolvimento cerebral e a regulação emocional, a Teoria do Apego permite compreender a construção dos vínculos e dos modelos internos de relacionamento. A Terapia do Esquema, por sua vez, oferece ferramentas para identificar necessidades emocionais não atendidas, padrões de funcionamento e possibilidades de reparação emocional.


Assim, o sintoma deixa de ser visto apenas como um problema a ser eliminado e passa a ser compreendido como uma linguagem que comunica necessidades, histórias, experiências e tentativas de adaptação. Mais do que tratar sintomas, esse modelo de intervenção busca compreender a pessoa em sua integralidade, reconhecendo sua história, seus vínculos, seus recursos internos e suas potencialidades.


Acredito que compreender a história emocional de uma pessoa é fundamental para compreender seus sintomas, suas dificuldades, seus recursos internos e suas potencialidades. É por isso que minha atuação clínica procura integrar conhecimento científico, experiência clínica e cuidado humanizado, promovendo não apenas a redução do sofrimento, mas também a construção de segurança emocional, pertencimento, desenvolvimento saudável e novas possibilidades de vida.




Referências


Abreu, C. N. de. (2019). Teoria do apego: Fundamentos, pesquisas e implicações clínicas. Artesã Editora.


Bowlby, J. (1981). Cuidados maternos e saúde mental (M. Fry, Org.; V. L. B. de Souza & I. Rizzini, Trads.). Martins Fontes.


Bowlby, J. (2015). Formação e rompimento dos laços afetivos (A. Cabral, Trad.; 5. ed.). Martins Fontes.


Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: Como o afeto molda o cérebro do bebê (2. ed.). Artmed.


Johnson, S. M. (2025). Teoria do apego na prática: Terapia focada nas emoções com indivíduos, casais e famílias (D. Vieira, Trad.). Artmed.


Mendes, M. A. (2021). A clínica do apego: Fundamentos para uma psicoterapia afetiva, relacional e experiencial. Sinopsys Editora.


Nolêto, P. (2021). Filhos em construção: As necessidades da criança pela teoria do esquema. Literare Books International.


Anexos:



PUBLICAÇÃO:

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-998

quarta-feira

O que é Apego Seguro?

 


Teoria do Apego: por que os vínculos importam tanto para a saúde emocional?

A Teoria do Apego surgiu a partir dos estudos do psiquiatra e psicanalista britânico John Bowlby, especialmente no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial. Ao observar crianças separadas de seus cuidadores, Bowlby percebeu que o sofrimento emocional decorrente dessas rupturas não poderia ser explicado apenas pela falta de alimento, higiene ou cuidados físicos. Suas pesquisas demonstraram que o ser humano nasce biologicamente preparado para buscar proximidade, proteção e segurança em figuras cuidadoras. Em 1951, a pedido da Organização Mundial da Saúde (OMS), Bowlby apresentou o relatório Maternal Care and Mental Health (Cuidados Maternos e Saúde Mental), no qual destacou a importância dos vínculos afetivos precoces para o desenvolvimento saudável da criança. Embora utilizasse a expressão “cuidados maternos”, refletindo o contexto histórico da época, atualmente compreendemos que a função protetiva pode ser exercida por qualquer cuidador responsivo e emocionalmente disponível.

Posteriormente, a psicóloga Mary Ainsworth ampliou esse conhecimento por meio de suas pesquisas observacionais e do procedimento conhecido como Situação Estranha. A partir desses estudos, foram identificados diferentes padrões de apego: o apego seguro, o apego inseguro evitativo e o apego inseguro ansioso (ou ambivalente). Décadas depois, Mary Main e Judith Solomon descreveram o apego desorganizado, caracterizado pela ausência de uma estratégia consistente de busca de segurança diante da figura de apego. Essas contribuições permitiram compreender que as experiências relacionais precoces influenciam profundamente a forma como a criança desenvolve sua percepção de si mesma, dos outros e do mundo.

Um dos grandes legados da Teoria do Apego foi demonstrar que o desenvolvimento infantil não depende apenas da sobrevivência física, mas também da qualidade das experiências emocionais vividas. Bowlby observou que crianças que recebiam acolhimento, proteção, proximidade e respostas consistentes às suas necessidades apresentavam melhores condições de saúde física e emocional. Em contrapartida, a privação afetiva, a ausência de responsividade e as rupturas prolongadas dos vínculos podiam gerar sofrimento significativo, mesmo quando os cuidados básicos estavam assegurados.

Essa compreensão dialoga diretamente com os conhecimentos atuais das Neurociências, da Psicologia do Desenvolvimento e da Terapia do Esquema. Nem todo sofrimento emocional está associado a experiências explícitas de violência. Muitas vezes, as marcas mais profundas surgem justamente daquilo que faltou: o acolhimento que não chegou, a validação emocional que não aconteceu, o olhar atento que não encontrou a criança em sua necessidade. Como destaca Gabor Maté, o trauma não está apenas relacionado ao que aconteceu, mas também ao que deveria ter acontecido e não aconteceu. A negligência emocional, a indiferença persistente e a ausência de conexão afetiva podem impactar profundamente o desenvolvimento humano.

Por isso, atualmente, fala-se cada vez mais em parentalidade positiva, promoção da saúde emocional e atendimento das necessidades emocionais básicas da infância. O apego seguro é reconhecido como um importante fator de proteção para o desenvolvimento humano, favorecendo regulação emocional, autoestima, relacionamentos saudáveis e maior capacidade de enfrentamento das adversidades. Investir em vínculos seguros, no direito de brincar, de ser cuidado e de se desenvolver em ambientes emocionalmente responsivos não é apenas uma questão de afeto: é uma estratégia fundamentada pela ciência para a promoção da saúde física, emocional e social ao longo de toda a vida.

Referências

Abreu, C. N. (2019). Teoria do apego: Fundamentos, pesquisas e implicações clínicas. Belo Horizonte, MG: Artesã Editora.

Bowlby, J. (1981). Cuidados maternos e saúde mental (V. L. B. Souza, Trad.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1951).

Bowlby, J. (2015). Formação e rompimento dos laços afetivos (Á. Cabral, Trad., 5. ed.). São Paulo, SP: Martins Fontes. (Obra original publicada em 1979).

Gerhardt, S. (2017). Por que o amor é importante: Como o afeto molda o cérebro do bebê (M. Ritomy Ide, Trad., 2. ed.). Porto Alegre, RS: Artmed.

Maté, G., & Maté, D. (2023). O mito do normal: Trauma, doença e cura em uma cultura tóxica (F. Abreu, Trad.). Rio de Janeiro, RJ: Sextante.

Mendes, M. A. (2021). A clínica do apego: Fundamentos para uma psicoterapia afetiva, relacional e experiencial. Novo Hamburgo, RS: Sinopsys Editora.

Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar (C. Zanon, Trad.). São Paulo, SP: nVersos Editora.

sábado

Neurociência Aplicada às Vendas Farmacêuticas: Compreendendo o Comportamento Humano para Potencializar Resultados. Psicóloga Kátia Baptista Guerra / CRP 02/22746

Neurociência Aplicada às Vendas Farmacêuticas: Compreendendo o Comportamento Humano para Potencializar Resultados

Kátia Regina Neves Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga | Pedagoga
Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, Terapia do Esquema e Neurociências



                                             Introdução

Vivemos uma era em que o conhecimento técnico já não é suficiente para garantir resultados sustentáveis nas organizações. O avanço das neurociências tem demonstrado que decisões de compra, fidelização de clientes, liderança, negociação e desempenho profissional estão profundamente relacionados ao funcionamento cerebral, às emoções e às experiências humanas.

Foi a partir dessa compreensão que surgiu a oportunidade de integrar minha experiência na Psicologia, Neurociência, Educação e Saúde à mentoria empresarial conduzida por Eduardo Neves Baptista, voltada para o desenvolvimento estratégico de farmácias e organizações do setor farmacêutico.

Essa parceria tem como objetivo levar às empresas uma compreensão mais profunda sobre como o cérebro humano influencia decisões, relacionamentos, comportamento de consumo e processos de vendas, transformando conhecimento científico em estratégias práticas para o crescimento organizacional.

O Que a Neurociência Revela Sobre as Decisões de Compra?

Durante muito tempo acreditou-se que as pessoas compravam exclusivamente por critérios racionais. Atualmente, estudos da neurociência demonstram que a maior parte das decisões ocorre inicialmente em sistemas cerebrais ligados à emoção, à memória e à sensação de segurança.

Autores como Daniel Siegel, Bruce Perry, Gabor Maté e Sue Gerhardt demonstram que o cérebro humano é fortemente influenciado por experiências emocionais, relações de confiança e percepções de segurança.

Quando um cliente entra em uma farmácia, ele não está buscando apenas um produto.

      • Segurança;
      • Confiança;
      • Acolhimento;
      • Solução para um problema;
      • Sensação de cuidado.

Em outras palavras, antes de comprar um medicamento, um suplemento ou um produto de saúde, o cérebro está avaliando o ambiente, as pessoas e a qualidade da interação.

A Neurociência da Confiança

A confiança é um dos elementos mais importantes para qualquer negócio.

Sob a perspectiva neurobiológica, confiança significa redução de ameaça.

Quando o cérebro percebe segurança:

      • Reduz a ativação do sistema de alerta;
      • Aumenta a receptividade às informações;
      • Facilita a tomada de decisão;
      • Amplia a capacidade de vínculo.

Em ambientes farmacêuticos isso é ainda mais relevante, pois muitos clientes chegam fragilizados física ou emocionalmente. A maneira como são recebidos pode influenciar diretamente sua experiência e fidelização.

O Cérebro Não Compra Produtos: Compra Significados

A neurociência contemporânea demonstra que os seres humanos atribuem significado emocional às experiências.

Uma farmácia pode vender medicamentos. Mas também pode vender:

      • Cuidado;
      • Proteção;
      • Bem-estar;
      • Confiança;
      • Qualidade de vida.

Quando equipes compreendem essa lógica, deixam de focar exclusivamente no produto e passam a compreender as necessidades humanas que existem por trás de cada compra.

A Teoria do Apego e o Relacionamento com Clientes

Embora tradicionalmente aplicada ao desenvolvimento infantil, a Teoria do Apego oferece importantes contribuições para o universo corporativo.

Os estudos iniciados por John Bowlby demonstram que seres humanos tendem a buscar figuras que transmitam previsibilidade, segurança e suporte.

Nas relações comerciais ocorre fenômeno semelhante.

Clientes retornam aos lugares onde:

      • Sentem-se respeitados;
      • São ouvidos;
      • Encontram previsibilidade;
      • Recebem orientação confiável.

Assim como crianças necessitam de uma base segura para explorar o mundo, consumidores buscam empresas que funcionem como referências confiáveis em suas jornadas de saúde e cuidado.

Neurociência, Liderança e Cultura Organizacional

Não existe experiência positiva do cliente sem uma equipe emocionalmente saudável.

Os estudos de Bruce Perry demonstram que pessoas submetidas a ambientes de ameaça constante tendem a operar em estados defensivos, reduzindo criatividade, flexibilidade cognitiva e capacidade de resolução de problemas.

Por outro lado, ambientes organizacionais que promovem segurança psicológica favorecem:

      • Engajamento;
      • Cooperação;
      • Inovação;
      • Aprendizagem;
      • Desempenho sustentável.

Liderar pessoas não significa apenas administrar tarefas. Significa compreender como o cérebro humano responde ao reconhecimento, pertencimento e valorização.

A Neurobiologia da Comunicação

A comunicação eficaz não acontece apenas pelas palavras.

O cérebro interpreta continuamente:

      • Tom de voz;
      • Expressão facial;
      • Linguagem corporal;
      • Postura;
      • Coerência emocional.

As contribuições da Teoria Polivagal, desenvolvida por Stephen Porges, mostram que sinais de acolhimento e conexão influenciam diretamente o estado fisiológico das pessoas.

Equipes treinadas para estabelecer conexões genuínas produzem interações mais eficazes e memoráveis.

A Ciência do Pertencimento nas Organizações

Uma das descobertas mais importantes das neurociências modernas é que o cérebro humano foi construído para a conexão.

Pertencimento não é apenas um conceito emocional. É uma necessidade biológica.

Quando colaboradores sentem-se pertencentes:

      • Aumenta o comprometimento;
      • Reduz o turnover;
      • Melhora a satisfação profissional;
      • Amplia a colaboração entre equipes.

Empresas que compreendem essa dinâmica constroem culturas organizacionais mais fortes e resilientes.

A Parceria com a Mentoria de Eduardo Neves Baptista

A parceria com a mentoria de Eduardo Neves Baptista, fundador da plataforma Central de Cotações e especialista em compras estratégicas B2B, representa a união entre gestão estratégica e ciência do comportamento humano.

Enquanto a mentoria oferece ferramentas para crescimento empresarial, controle do CMV, aumento da lucratividade, gestão de compras, posicionamento estratégico e desenvolvimento organizacional, a neurociência contribui para compreender o fator mais importante de qualquer negócio: as pessoas.

O propósito dessa colaboração é traduzir conhecimentos científicos robustos para a realidade das farmácias e empresas, promovendo equipes mais conscientes, líderes mais preparados e relações comerciais mais humanas e eficazes.

Considerações Finais

O futuro das organizações não dependerá apenas da tecnologia, dos indicadores financeiros ou dos sistemas de gestão.

Dependerá, sobretudo, da capacidade de compreender o ser humano.

A neurociência tem mostrado que vender, liderar, negociar e cuidar são atividades profundamente conectadas ao funcionamento cerebral e às necessidades emocionais das pessoas.

Quando empresas aprendem a integrar ciência, comportamento humano e estratégia, deixam de oferecer apenas produtos ou serviços.

Passam a construir experiências, relacionamentos e confiança.

E é justamente nessa convergência entre neurociência, psicologia e gestão que se encontra uma das maiores oportunidades de transformação para o setor farmacêutico contemporâneo.


Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens

 Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar 

CRP 02/22746




No dia 31 de março de 2025, fui convidada pelo Diário de Pernambuco para contribuir com a reportagem “Adolescentes virtuais: os perigos da navegação sem limites na internet”, publicada após a repercussão da série Adolescência, da Netflix.

 A matéria abordou os desafios enfrentados pelas famílias diante da crescente influência das redes sociais sobre a saúde mental, o comportamento e o desenvolvimento emocional dos adolescentes.

A reportagem pode ser acessada em:

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2025/03/adolescentes-virtuais-o-perigo-da-navegacao-sem-limites-na-internet.html

Falar sobre esse tema não representa apenas uma opinião profissional, mas a continuidade de uma trajetória construída ao longo de mais de vinte anos de trabalho com crianças, adolescentes e famílias. Minha atuação iniciou-se na área educacional, como professora e coordenadora escolar infantil, e posteriormente ampliou-se para a Psicologia Clínica e Hospitalar, com foco na infância, adolescência, trauma, apego e desenvolvimento emocional.

Atualmente, além da atuação clínica, desenvolvo pesquisas sobre intervenção precoce no apego inseguro e prevenção de psicopatologias na infância. Sou autora de trabalhos científicos voltados à saúde mental infantojuvenil, incluindo publicações na revista Residência Pediátrica sobre a intervenção psicológica em contextos hospitalares e a relação entre experiências emocionais precoces, apego inseguro e manifestações psicossomáticas em crianças e adolescentes.

Essa experiência clínica, hospitalar e acadêmica tem mostrado que a discussão sobre o uso das redes sociais não pode ser reduzida apenas ao número de horas diante das telas. A questão mais profunda envolve compreender quais necessidades emocionais os adolescentes estão tentando atender quando permanecem conectados durante grande parte do dia.

A adolescência é uma fase de intensas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, o jovem procura construir sua identidade, desenvolver autonomia e encontrar seu lugar no mundo. O desejo de pertencimento torna-se uma necessidade central. Quando essa necessidade não encontra espaço suficiente em vínculos familiares, escolares e comunitários saudáveis, muitos adolescentes passam a buscar reconhecimento e validação principalmente nos ambientes virtuais.

As plataformas digitais oferecem recompensas rápidas e constantes. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como reforçadores imediatos que estimulam circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer. Em um cérebro que ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos, planejamento e tomada de decisão, esses estímulos podem exercer forte influência sobre comportamentos, emoções e escolhas.

Na prática clínica, tenho observado adolescentes que chegam ao atendimento apresentando sofrimento relacionado à comparação excessiva, dificuldades de autoimagem, ansiedade, medo de rejeição, cyberbullying, isolamento social e dependência emocional da aprovação virtual. Frequentemente, o sofrimento não está apenas no conteúdo acessado, mas na ausência de espaços seguros para falar sobre suas emoções, dúvidas e conflitos.

Essas observações encontram respaldo em diferentes áreas do conhecimento. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, demonstra que a qualidade dos vínculos estabelecidos na infância influencia diretamente a forma como crianças e adolescentes desenvolvem autoestima, confiança e capacidade de regulação emocional. Autores contemporâneos como Daniel Siegel, Sue Gerhardt, Bruce Perry, Bessel van der Kolk e Stephen Porges reforçam que a presença emocional dos cuidadores exerce papel fundamental na organização do sistema nervoso e na construção da resiliência psicológica.


Por essa razão, acredito que a principal proteção não está apenas nos filtros tecnológicos ou no monitoramento digital. A proteção mais consistente continua sendo a qualidade das relações humanas. Adolescentes que se sentem vistos, ouvidos, acolhidos e compreendidos dentro de casa tendem a desenvolver maior senso crítico, melhor capacidade de autorregulação e menor vulnerabilidade diante de influências nocivas.

A escola também ocupa posição estratégica nesse processo. O fortalecimento das habilidades socioemocionais, a prevenção ao bullying, a mediação de conflitos e a promoção de ambientes seguros são medidas fundamentais para proteger a saúde mental dos estudantes e fortalecer fatores de proteção ao longo do desenvolvimento.

Ao longo da minha atuação como psicóloga clínica e hospitalar, tenho defendido que a prevenção em saúde mental começa muito antes do aparecimento dos sintomas. Ela começa nos vínculos. Começa na escuta. Começa na presença emocional dos adultos responsáveis pelo cuidado.

Mais do que controlar telas, precisamos compreender o que os adolescentes procuram nelas. Mais do que fiscalizar comportamentos, precisamos construir relações de confiança. Mais do que limitar acessos, precisamos oferecer pertencimento, segurança emocional e conexão humana.

A internet continuará fazendo parte da vida das novas gerações. O desafio não é afastar os jovens desse universo, mas ajudá-los a navegar por ele com responsabilidade, equilíbrio e senso crítico. 

Quanto mais fortalecermos os vínculos familiares, escolares e comunitários, menores serão as chances de que crianças e adolescentes busquem no mundo virtual aquilo que deveria ser encontrado primeiro nas relações que sustentam seu desenvolvimento: acolhimento, proteção, amor e pertencimento.







segunda-feira

Construir um olhar integrado entre sintoma e história emocional- convite HC UFPE


 

Psicóloga Na Abordagem da Terapia do Esquema e TCC Brasil/ Recife


 

Intervenção no Apego Inseguro - Psicóloga Na abordagem da Terapia do Esquema e TCC

Link:

Apego Inseguro- Publicação Hospitalar  




Intervenção Psicológica no Apego Inseguro: contribuições clínicas, neurobiológicas e hospitalares


Minha atuação clínica e científica tem sido construída a partir da compreensão de que o apego inseguro é um dos principais organizadores do sofrimento psíquico e somático na infância, especialmente em contextos de adoecimento físico, hospitalização e dor idiopática. Ao longo dos últimos anos, venho desenvolvendo e sistematizando intervenções psicológicas que articulam Teoria do Apego, neurobiologia do desenvolvimento, psicologia hospitalar e metáforas terapêuticas, com resultados clínicos consistentes e publicações científicas.


Essa trajetória inclui trabalhos publicados em revista científica da área de Residência Pediátrica, nos quais demonstro, a partir de casos clínicos, como a intervenção precoce no apego inseguro contribui para a redução de sintomas de dor crônica idiopática em pediatria, diminuição da hipervigilância corporal, melhora da regulação emocional e redução da dependência de recursos exclusivamente medicamentosos. Esses achados reforçam que a dor, especialmente quando não explicada por alterações orgânicas, frequentemente se organiza como uma expressão neurobiológica de insegurança relacional, ativação crônica do eixo do estresse e falhas nos processos de regulação.


Em 2025, apresentei dois trabalhos no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em Maceió, aprofundando essa compreensão e apresentando modelos interventivos autorais desenvolvidos na prática clínica hospitalar. Nesses trabalhos, articulei minhas metáforas terapêuticas, o Arquipélago de Si, a Metáfora da Represa, a Metáfora da Panela de Pressão e a Metáfora do Vulcão, como instrumentos clínicos que possibilitam acessar, simbolizar e reorganizar experiências emocionais precoces que não foram integradas verbalmente.


Essas metáforas não são recursos meramente ilustrativos, mas ferramentas clínicas fundamentadas na neurobiologia do apego e do trauma. Elas dialogam diretamente com os pressupostos de Bruce Perry, especialmente com o modelo da Árvore da Regulação, que compreende o desenvolvimento do cérebro de forma hierárquica e dependente da experiência relacional. A intervenção, portanto, precisa respeitar a organização neurobiológica da criança, iniciando pelos sistemas mais primitivos de segurança, ritmo e previsibilidade, antes de acessar conteúdos cognitivos e narrativos.


Da mesma forma, meus trabalhos se apoiam nos estudos de Daniel Siegel, especialmente no modelo do cérebro na palma da mão e no conceito de cérebro integrado, que evidencia que saúde mental não é ausência de sintomas, mas a capacidade de integrar emoção, corpo, cognição e vínculo. Crianças com histórico de apego inseguro, hospitalizações precoces ou experiências de imprevisibilidade tendem a apresentar um funcionamento cerebral fragmentado, o que se expressa tanto em sintomas emocionais quanto físicos.

A base relacional desse trabalho está ancorada na Teoria do Apego, idealizada por John Bowlby, que demonstrou que o apego seguro é um sistema biológico fundamental para a sobrevivência e para a saúde ao longo da vida. Complementarmente, os estudos de Sue Gerhardt sobre a neurobiologia do apego reforçam que a qualidade das interações precoces molda o desenvolvimento do cérebro, do sistema de estresse e da capacidade de autorregulação. Assim, experiências repetidas de insegurança, ausência emocional ou inconsistência não apenas afetam o psiquismo, mas deixam marcas neurobiológicas duradouras.


Diante disso, minha proposta de intervenção no apego inseguro, especialmente em contexto hospitalar, não se limita ao atendimento da criança, mas envolve leitura clínica do sintoma, compreensão da história relacional, mediação com a família e construção de experiências reparadoras de vínculo. As metáforas terapêuticas que desenvolvi permitem traduzir conceitos complexos em experiências acessíveis, tanto para crianças quanto para pais e equipes multiprofissionais, favorecendo adesão, compreensão e transformação clínica.


Os resultados observados ao longo dessa trajetória reforçam que intervir no apego inseguro é também intervir na prevenção de psicopatologias, na redução de sintomas físicos e na promoção de saúde integral. Trata-se de um trabalho que articula ciência, clínica e sensibilidade relacional, sustentado por evidências, mas também pela escuta profunda da história emocional inscrita no corpo da criança.


Psicóloga Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar; Neuropsicóloga

CRP 02/22746

quarta-feira

Lila e o Arquipélago de Si

 Lila e a Viagem pelo Arquipélago de Si




Uma história sobre sentir, entender e cuidar.


Lila sempre sentiu as coisas de um jeito diferente. Às vezes era um aperto no peito. 


Em outros  dias, uma sensação estranha na barriga. Havia momentos em que o corpo

parecia cansado, mesmo sem ter feito nada demais.


Quando alguém perguntava o que estava acontecendo, Lila pensava por alguns

segundos e respondia que estava tudo bem. Mas, por dentro, não estava.


Ela sentia muito, mas não sabia explicar.

Em um desses dias, Lila conheceu a Psicóloga Tita. Tita não chegou fazendo perguntas difíceis. 


Ela sentou perto, no mesmo nível, e ficou ali. Depois de um tempo, disse com voz tranquila: Às vezes, quando a gente não entende o que sente, é porque a história é grande demais para caber numa palavra só.


Lila ficou em silêncio. E aquele silêncio já foi um começo.


Tita apontou para o mar e explicou que, dentro de cada pessoa, existe um Arquipélago.


Um conjunto de ilhas que guardam partes importantes da nossa história.


Ao lado delas, havia um barquinho simples. Não era grande, nem rápido. Mas parecia

seguro.


Tita convidou Lila a entrar. Disse que não havia pressa, nem certo ou errado. Apenas

curiosidade.


A primeira ilha era colorida e delicada. Tita explicou que aquela era a Ilha do

Temperamento. Era o jeito com que Lila nasceu sentindo o mundo.


Ali, tudo parecia mais intenso. O vento, as cores, os sons.


Lila perguntou se aquilo era um problema. Tita respondeu que não. Era apenas um

ponto de partida.


Na ilha seguinte, havia pequenas casas. Algumas estavam cheias. Outras vazias.

Tita explicou que aquela era a Ilha das Necessidades Emocionais. Toda criança precisa de segurança, presença, previsibilidade e validação.


Lila parou diante de uma casa vazia. Ela não lembrava de algo muito específico. Mas

lembrava da sensação de esperar. De se adaptar. De não querer incomodar.


Tita explicou que, quando algo importante falta, o corpo percebe antes da mente.

Depois, chegaram à Ilha dos Estilos Parentais. Havia adultos ocupados, cansados, tentando dar conta de tudo.


Tita explicou que ali não havia culpa. Havia histórias. 


As crianças não interpretam

intenção. Elas interpretam presença.Na Ilha dos Ambientes, tudo mudava. Casas, escolas, caminhos. Algumas mudanças

pareciam pequenas. Mas, juntas, ensinavam o corpo a ficar atento.


Por fim, chegaram à Ilha dos Sinais. O mar estava agitado. Ali apareciam a ansiedade, o medo de separação, a vontade de agradar.


Tita explicou que os sinais não eram defeitos. Eram formas de proteção.

Lila chorou. Não de tristeza. Mas de alívio.

Na volta, o mar estava mais calmo. Não porque tudo tinha sido resolvido, mas porque agora fazia sentido.


Lila aprendeu que sentir não afasta. Sentir aproxima.


E que não precisamos atravessar o mar sozinho!❤️



Trabalho Clínico detalhado apresentado no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar 2025 em

Maceió-AL- Brasil.🇧🇷 




Lila e a Viagem pelo Arquipélago de Si



Uma história sobre sentir, entender e cuidar




O começo



Lila sempre sentiu as coisas de um jeito diferente.

Às vezes era uma sensação no peito.

Outras vezes, um aperto na barriga.

Havia dias em que o corpo parecia cansado, mesmo sem ter feito nada.


Ela sentia… mas não sabia explicar.


Quando alguém perguntava:

- “O que foi?”

Lila pensava… e respondia:

- “Nada.”


Mas não era nada.

Era muita coisa ao mesmo tempo.






O encontro



Num desses dias confusos, Lila encontrou a Psicóloga Tita.

Tita não chegou perguntando.

Ela chegou sentando perto.

No mesmo nível.

Com calma.


- “Às vezes,” disse Tita, “quando a gente não entende o que sente, é porque a história é grande demais para caber numa palavra só.”


Lila ficou em silêncio.

E isso já foi o começo.






O convite



Tita apontou para o mar.


- “Dentro de cada pessoa existe um Arquipélago,” explicou.

- “Um conjunto de ilhas que guardam partes importantes da nossa história.”


Ao lado delas, havia um barquinho simples.

Não era grande.

Nem rápido.

Mas parecia firme.


- “A gente pode visitar essas ilhas juntas,” disse Tita.

- “Sem pressa. Sem julgamento.”


Lila respirou fundo.

E entrou no barco.






A Ilha do Temperamento



A primeira ilha era colorida.

Cheia de flores delicadas, sons suaves e caminhos sensíveis.


-“Essa é a Ilha do Temperamento,” explicou Tita.

- “É o jeito com que você nasceu sentindo o mundo.”


Lila percebeu que ali tudo era mais intenso:

o vento, as cores, os sons.


- “Então eu sou assim?”

- “Sim,” respondeu Tita.

- “E isso não é um defeito. É um ponto de partida.”


Lila nunca tinha pensado nisso daquele jeito.






A Ilha das Necessidades Emocionais



Na ilha seguinte, havia casas.

Algumas iluminadas.

Outras vazias.


- “Aqui ficam as necessidades emocionais,” explicou Tita.

- “Toda criança precisa de segurança, presença, validação, previsibilidade.”


Lila parou diante de uma casa vazia.


Ela não lembrava de algo ruim específico.

Mas lembrava da sensação.


A sensação de esperar.

De se adaptar.

De não querer dar trabalho.


- “Quando uma necessidade não é atendida,” disse Tita com cuidado,

- “o corpo sente, mesmo quando a mente não sabe explicar.”






A Ilha dos Estilos Parentais



Essa ilha tinha adultos ocupados.

Alguns falavam ao telefone.

Outros pareciam cansados.


- “Aqui não existem vilões,” explicou Tita.

- “Existem histórias.”


Lila observava em silêncio.


- “As crianças não interpretam intenção,” continuou Tita.

- “Elas interpretam presença.”


Lila sentiu um nó na garganta.

Não era raiva.

Era compreensão misturada com tristeza.






A Ilha dos Ambientes



Nessa ilha, tudo mudava rápido:

escolas, casas, caminhos, pessoas.


-“Ambientes ensinam o corpo a se proteger,” explicou Tita.

- “Mesmo quando ninguém quer machucar.”


Lila lembrou de mudanças, despedidas, palavras que ficaram marcadas.


Nada parecia grande demais…

mas tudo junto era pesado.






A Ilha dos Sinais (Sintomas)



A última ilha tinha ondas agitadas.

O vento era forte.


- “Aqui chegam os sinais,” disse Tita.

- “Ansiedade, medo de separação, vontade de agradar, dores no corpo.”


Lila se reconheceu ali.


- “Isso não é quem você é,” disse Tita.

- “É como você aprendeu a se proteger.”


Lila chorou.

Não de desespero.

De alívio.






O retorno



Na volta, o mar estava mais calmo.

Não porque tudo tinha sido resolvido.

Mas porque agora fazia sentido.


- “Quando a história é compreendida,” disse Tita,

- “o corpo não precisa gritar tão alto.”


O barco encostou na praia.


Lila desceu diferente.

Mais inteira.






O que Lila aprendeu



Lila aprendeu que: 


1-sentir não é fraqueza;

2-sintomas são mensagens;

3-vínculo cura mais do que controle;

4-ninguém atravessa o mar sozinho.



E que cuidar do apego é construir, aos poucos, um lugar seguro dentro de si.


É com muito prazer que apresento uma das metáforas apresentadas no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar em 2025.💝









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