A importância da orientação parental na clínica infantojuvenil: um olhar integrado ao sintoma
Na psicologia clínica infantojuvenil, compreender uma criança ou um adolescente significa ir além daquilo que aparece na forma de sintomas. Ansiedade, irritabilidade, dificuldades escolares, desregulação emocional e problemas comportamentais são sinais importantes, mas raramente representam o ponto de partida do sofrimento. Por trás deles, existe uma história, relações e necessidades emocionais que precisam ser consideradas.
Em Aproxime-se dos seus filhos, Gordon Neufeld e Gabor Maté (2026) destacam que a necessidade mais importante da criança é estar emocionalmente vinculada aos seus cuidadores. Os autores mostram que o desenvolvimento saudável depende da qualidade desses vínculos e que os pais precisam ser uma base segura e uma referência emocional mais significativa do que as influências do grupo de pares. Essa ideia não se refere ao controle, mas à importância da conexão, da presença e do pertencimento.
Ao longo de sua obra, Gabor Maté tem chamado atenção para a necessidade de compreender o contexto antes de se buscar apenas um diagnóstico. Em vez de perguntar apenas “o que a criança tem?”, torna-se fundamental perguntar “o que aconteceu?”, “em que ambiente ela está inserida?” e “quais necessidades emocionais podem não estar sendo atendidas?”. Para Maté, muitos sintomas representam adaptações a experiências vividas e não podem ser entendidos isoladamente de sua história (Maté & Neufeld, 2026).
Nesse sentido, a orientação parental ocupa um papel central na clínica psicológica. Ela não busca culpados, mas promove compreensão. Pais e cuidadores educam a partir das experiências que receberam ao longo da vida, e muitas vezes padrões aprendidos na infância, estilos parentais, crenças familiares e dificuldades emocionais influenciam a maneira como respondem às necessidades dos filhos.
Além disso, o desenvolvimento infantil é influenciado por múltiplos contextos. Família, escola, amizades, cultura e experiências de vida fazem parte da construção emocional da criança. Por isso, o sintoma precisa ser compreendido de maneira contextualizada.
Foi a partir dessa compreensão que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em setembro de 2025, em Maceió, Alagoas. Assim como um arquipélago é formado por várias ilhas, cada pessoa também é constituída por diferentes dimensões interligadas.
Nessa metáfora, o olhar clínico passeia pelas ilhas do temperamento, das necessidades emocionais básicas, dos estilos parentais, dos ambientes vividos, dos relacionamentos e do desenvolvimento, para então compreender a ilha dos sintomas. O sofrimento emocional deixa de ser visto como algo isolado e passa a ser entendido dentro de uma história de vida.
Esse olhar integrado encontra respaldo nas contribuições da Teoria do Apego, da Psicologia do Desenvolvimento, da Neurociência e da Terapia do Esquema. O objetivo não é apenas reduzir sintomas, mas favorecer vínculos seguros, promover regulação emocional e atender necessidades emocionais que, muitas vezes, ficaram desassistidas.
Como afirmam Neufeld e Maté (2026), o desenvolvimento saudável não acontece apenas por meio de técnicas educativas, mas principalmente através dos relacionamentos. Por isso, na clínica infantojuvenil, cuidar da criança também significa cuidar das relações que a sustentam.
Referência
Neufeld, G., & Maté, G. (2026). Aproxime-se dos seus filhos: Por que os pais precisam ser mais importantes que os amigos (C. Simmer, Trad.). Sextante. (Trabalho original publicado em 2004).
Agendamento:
https://psikatiaguerra.com.br/
Publicação no Apego Inseguro:
https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-998

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