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Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens

 Adolescentes Virtuais: Os Perigos da Navegação Sem Limites na Internet e o Papel da Família na Proteção Emocional dos Jovens


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar 

CRP 02/22746




No dia 31 de março de 2025, fui convidada pelo Diário de Pernambuco para contribuir com a reportagem “Adolescentes virtuais: os perigos da navegação sem limites na internet”, publicada após a repercussão da série Adolescência, da Netflix.

 A matéria abordou os desafios enfrentados pelas famílias diante da crescente influência das redes sociais sobre a saúde mental, o comportamento e o desenvolvimento emocional dos adolescentes.

A reportagem pode ser acessada em:

https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/vidaurbana/2025/03/adolescentes-virtuais-o-perigo-da-navegacao-sem-limites-na-internet.html

Falar sobre esse tema não representa apenas uma opinião profissional, mas a continuidade de uma trajetória construída ao longo de mais de vinte anos de trabalho com crianças, adolescentes e famílias. Minha atuação iniciou-se na área educacional, como professora e coordenadora escolar infantil, e posteriormente ampliou-se para a Psicologia Clínica e Hospitalar, com foco na infância, adolescência, trauma, apego e desenvolvimento emocional.

Atualmente, além da atuação clínica, desenvolvo pesquisas sobre intervenção precoce no apego inseguro e prevenção de psicopatologias na infância. Sou autora de trabalhos científicos voltados à saúde mental infantojuvenil, incluindo publicações na revista Residência Pediátrica sobre a intervenção psicológica em contextos hospitalares e a relação entre experiências emocionais precoces, apego inseguro e manifestações psicossomáticas em crianças e adolescentes.

Essa experiência clínica, hospitalar e acadêmica tem mostrado que a discussão sobre o uso das redes sociais não pode ser reduzida apenas ao número de horas diante das telas. A questão mais profunda envolve compreender quais necessidades emocionais os adolescentes estão tentando atender quando permanecem conectados durante grande parte do dia.

A adolescência é uma fase de intensas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais. Nesse período, o jovem procura construir sua identidade, desenvolver autonomia e encontrar seu lugar no mundo. O desejo de pertencimento torna-se uma necessidade central. Quando essa necessidade não encontra espaço suficiente em vínculos familiares, escolares e comunitários saudáveis, muitos adolescentes passam a buscar reconhecimento e validação principalmente nos ambientes virtuais.

As plataformas digitais oferecem recompensas rápidas e constantes. Curtidas, comentários e compartilhamentos funcionam como reforçadores imediatos que estimulam circuitos cerebrais relacionados à recompensa e ao prazer. Em um cérebro que ainda está em desenvolvimento, especialmente nas áreas responsáveis pelo controle de impulsos, planejamento e tomada de decisão, esses estímulos podem exercer forte influência sobre comportamentos, emoções e escolhas.

Na prática clínica, tenho observado adolescentes que chegam ao atendimento apresentando sofrimento relacionado à comparação excessiva, dificuldades de autoimagem, ansiedade, medo de rejeição, cyberbullying, isolamento social e dependência emocional da aprovação virtual. Frequentemente, o sofrimento não está apenas no conteúdo acessado, mas na ausência de espaços seguros para falar sobre suas emoções, dúvidas e conflitos.

Essas observações encontram respaldo em diferentes áreas do conhecimento. A Teoria do Apego, desenvolvida por John Bowlby e aprofundada por Mary Ainsworth, demonstra que a qualidade dos vínculos estabelecidos na infância influencia diretamente a forma como crianças e adolescentes desenvolvem autoestima, confiança e capacidade de regulação emocional. Autores contemporâneos como Daniel Siegel, Sue Gerhardt, Bruce Perry, Bessel van der Kolk e Stephen Porges reforçam que a presença emocional dos cuidadores exerce papel fundamental na organização do sistema nervoso e na construção da resiliência psicológica.


Por essa razão, acredito que a principal proteção não está apenas nos filtros tecnológicos ou no monitoramento digital. A proteção mais consistente continua sendo a qualidade das relações humanas. Adolescentes que se sentem vistos, ouvidos, acolhidos e compreendidos dentro de casa tendem a desenvolver maior senso crítico, melhor capacidade de autorregulação e menor vulnerabilidade diante de influências nocivas.

A escola também ocupa posição estratégica nesse processo. O fortalecimento das habilidades socioemocionais, a prevenção ao bullying, a mediação de conflitos e a promoção de ambientes seguros são medidas fundamentais para proteger a saúde mental dos estudantes e fortalecer fatores de proteção ao longo do desenvolvimento.

Ao longo da minha atuação como psicóloga clínica e hospitalar, tenho defendido que a prevenção em saúde mental começa muito antes do aparecimento dos sintomas. Ela começa nos vínculos. Começa na escuta. Começa na presença emocional dos adultos responsáveis pelo cuidado.

Mais do que controlar telas, precisamos compreender o que os adolescentes procuram nelas. Mais do que fiscalizar comportamentos, precisamos construir relações de confiança. Mais do que limitar acessos, precisamos oferecer pertencimento, segurança emocional e conexão humana.

A internet continuará fazendo parte da vida das novas gerações. O desafio não é afastar os jovens desse universo, mas ajudá-los a navegar por ele com responsabilidade, equilíbrio e senso crítico. 

Quanto mais fortalecermos os vínculos familiares, escolares e comunitários, menores serão as chances de que crianças e adolescentes busquem no mundo virtual aquilo que deveria ser encontrado primeiro nas relações que sustentam seu desenvolvimento: acolhimento, proteção, amor e pertencimento.







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