O uso do jogo Bichos Zangados na Psicologia Infantil e Juvenil: contribuições da TCC, da Terapia do Esquema e da Neurociência
A infância é um período fundamental para o desenvolvimento das habilidades de autorregulação emocional, controle inibitório e aprendizagem social. Crianças que apresentam impulsividade, baixa tolerância à frustração, irritabilidade intensa e dificuldades para reconhecer e expressar emoções podem apresentar prejuízos no ambiente familiar, escolar e nas relações interpessoais. Nesse contexto, o brincar constitui uma importante ferramenta terapêutica, pois representa a linguagem natural da criança e favorece a expressão de sentimentos, pensamentos e comportamentos que ainda não conseguem ser plenamente verbalizados.
O jogo Bichos Zangados é um jogo comercial que pode ser utilizado como recurso lúdico-terapêutico em contextos clínicos, escolares e familiares. Quando mediado pelo profissional, favorece o desenvolvimento da consciência emocional, do autocontrole, do freio inibitório e da resolução de problemas, transformando a experiência do brincar em uma oportunidade de aprendizagem socioemocional.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), os comportamentos impulsivos e as reações intensas de raiva são compreendidos a partir da interação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Muitas crianças apresentam respostas automáticas diante da frustração, reagindo antes de conseguirem refletir sobre as consequências de seus atos. Nesse sentido, a utilização de jogos permite trabalhar, de maneira concreta e experiencial, a identificação das emoções, a tolerância à espera, a resolução de problemas e a construção de estratégias mais adaptativas para lidar com situações difíceis (Young et al., 2008).
Sob a perspectiva da Terapia do Esquema para crianças e adolescentes, comportamentos explosivos e impulsivos podem refletir a ativação dos modos Criança Zangada e Criança Impulsiva. Essas respostas frequentemente representam tentativas de lidar com necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas, como segurança, acolhimento, validação emocional e limites adequados. O trabalho terapêutico busca proporcionar experiências emocionais corretivas por meio da validação, do estabelecimento de limites saudáveis e do fortalecimento gradual do Modo Adulto Saudável, adaptado à realidade do desenvolvimento infantil (Reis, 2019).
A neurociência do desenvolvimento oferece importantes contribuições para a compreensão dessas dificuldades. Daniel Siegel (2015) destaca que as funções executivas, como controle inibitório, planejamento, flexibilidade cognitiva e regulação emocional, dependem do amadurecimento do córtex pré-frontal. Embora esse processo se inicie na infância, o desenvolvimento cerebral ocorre de maneira gradual e prolongada, estendendo-se até o início da vida adulta. Atualmente, estudos em neurodesenvolvimento apontam que a maturação funcional completa dessas regiões pode ocorrer por volta dos 25 anos. Isso significa que crianças e adolescentes ainda não possuem plenamente desenvolvida a capacidade de regular emoções e impulsos de maneira independente.
Dessa forma, a criança não nasce sabendo se acalmar, esperar, tolerar frustrações ou demonstrar empatia. Essas habilidades são aprendidas nas relações. Bruce Perry e Oprah Winfrey (2022) enfatizam que o cérebro é moldado pelas experiências repetidas e pelas relações de cuidado. Antes de desenvolver a autorregulação, a criança necessita da co-regulação proporcionada pelos adultos significativos. Pais, cuidadores, professores e terapeutas funcionam como reguladores externos, emprestando sua calma, sua capacidade de reflexão e sua empatia para que, progressivamente, essas habilidades sejam internalizadas.
Daniel Siegel (2015) descreve esse processo como “integração cerebral”, ressaltando que a repetição de experiências seguras e responsivas fortalece os circuitos neurais envolvidos na regulação emocional. Em outras palavras, a criança aprende empatia sendo tratada com empatia, aprende calma sendo acalmada e aprende autocontrole através das experiências repetidas de co-regulação. Não se trata apenas de ensinar regras ou impor limites, mas de oferecer experiências emocionais que promovam a maturação das redes neurais relacionadas às funções executivas.
Nesse contexto, recursos lúdicos como o jogo Bichos Zangados permitem criar experiências seguras e estruturadas para que a criança possa reconhecer emoções, tolerar a frustração, pensar antes de agir e experimentar novas formas de lidar com sentimentos intensos. Durante a brincadeira, o psicólogo atua como um facilitador desse processo, validando emoções, modelando respostas mais adaptativas e favorecendo o desenvolvimento do autocontrole e das habilidades sociais.
Assim, mais do que um simples passatempo, os jogos comerciais utilizados com finalidade terapêutica tornam-se instrumentos importantes para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional. Sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e da Neurociência do Desenvolvimento, o brincar constitui um espaço privilegiado para que a criança construa gradualmente as capacidades que, no futuro, permitirão uma maior autonomia emocional e social.
Referências
Perry, B. D., & Winfrey, O. (2022). O que aconteceu com você? Conversas sobre trauma, resiliência e cura. Sextante.
Reis, A. H. (Org.). (2019). Terapia do esquema com crianças e adolescentes: Do modelo teórico à prática clínica. Episteme.
Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. nVersos.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed.

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