segunda-feira

Alguns comportamentos não nascem apenas da falta de limite

 



Alguns comportamentos difíceis não nascem apenas da falta de limites, mas de…


Necessidades emocionais não compreendidas, dificuldades de regulação emocional e experiências que influenciam a maneira como a criança sente, interpreta e reage ao mundo.


Quando uma criança apresenta irritabilidade, oposição, crises de choro, insegurança ou dificuldade para lidar com frustrações, é comum que os adultos pensem imediatamente na necessidade de estabelecer limites.


Os limites são importantes, mas nem todo comportamento difícil se explica pela ausência deles.


O que a neurociência nos ajuda a compreender?


Bruce Perry e Oprah Winfrey (2022), na obra O que aconteceu com você?, discutem como as experiências de vida, especialmente aquelas vivenciadas durante o desenvolvimento, podem influenciar os sistemas cerebrais envolvidos nas respostas ao estresse, na percepção de segurança e na regulação emocional.


Quando uma criança está muito assustada, frustrada ou emocionalmente sobrecarregada, pode apresentar maior dificuldade para organizar seus pensamentos, controlar impulsos e responder às orientações dos adultos.


Isso acontece porque os processos de regulação emocional e de controle cognitivo ainda estão em desenvolvimento e podem ser afetados por estados intensos de estresse.


Uma criança emocionalmente desorganizada pode precisar de ajuda para se regular antes de conseguir compreender e utilizar uma orientação.


Isso não significa retirar os limites, mas considerar o estado emocional e a capacidade de regulação da criança no momento de estabelecê-los.


O que a Terapia do Esquema acrescenta?


Jeffrey Young, Janet Klosko e Marjorie Weishaar (2008) destacam a importância das necessidades emocionais básicas para o desenvolvimento de padrões saudáveis de funcionamento psicológico.


Entre essas necessidades estão:


-Segurança, vínculo e acolhimento.

-Autonomia e desenvolvimento da competência.

- Liberdade para expressar emoções e necessidades.

-Espontaneidade e brincadeira.

-Limites realistas e autocontrole.


Quando essas necessidades são repetidamente frustradas, em interação com o temperamento e as experiências de vida, podem se desenvolver padrões emocionais e comportamentais desadaptativos.


Por exemplo, uma criança que reage intensamente diante de pequenos erros pode estar experimentando medo de fracassar, insegurança ou dificuldades de tolerância à frustração.


Outra criança que evita situações novas pode apresentar ansiedade, baixa confiança em suas capacidades ou necessidade aumentada de previsibilidade.


Essas possibilidades precisam ser investigadas. O comportamento isolado não permite determinar sua causa.


Como os pais podem agir?


Antes de interpretar uma reação difícil apenas como desobediência, é importante observar:


1. O que aconteceu antes?

Identifique a situação que antecedeu o comportamento.


2. O que a criança pode estar sentindo?

Observe possíveis sinais de medo, frustração, tristeza, ansiedade ou sobrecarga.


3. Qual necessidade precisa de atenção?

A criança pode precisar de segurança, acolhimento, orientação, descanso ou ajuda para desenvolver autonomia.


4. Como responder?

Ofereça uma resposta calma, firme e adequada à idade, validando a emoção sem necessariamente permitir o comportamento inadequado.


5. O que pode ser ensinado?

Ajude a criança a reconhecer emoções, comunicar necessidades, enfrentar pequenas frustrações e construir novas estratégias.


Por exemplo, diante de uma crise de raiva, os pais podem acolher o sentimento e manter o limite:


“Eu entendo que você ficou muito frustrado. Estou aqui para ajudar, mas não podemos machucar ninguém. Vamos encontrar outra maneira de resolver isso.”


Acolhimento e limites não são opostos. Eles podem atuar juntos no desenvolvimento emocional.


O sintoma é apenas uma ilha


Na minha proposta de raciocínio clínico, utilizo a metáfora do Arquipélago de Si para representar as diferentes dimensões que participam do funcionamento emocional.


O sintoma é apenas uma das ilhas.


Para compreender o comportamento de uma criança, também precisamos investigar seu temperamento, suas necessidades emocionais, as relações de cuidado, os ambientes e as experiências de desenvolvimento.


A Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia do Esquema contribuem para integrar essas informações, compreender os padrões de funcionamento e planejar intervenções individualizadas.


O objetivo não é procurar culpados, mas compreender o que está acontecendo e identificar o que pode ajudar a criança.


Uma reflexão para pais e cuidadores


Da próxima vez que seu filho apresentar um comportamento difícil, experimente acrescentar uma pergunta à preocupação com os limites:


“Além de orientar esse comportamento, o que meu filho precisa aprender, desenvolver ou receber de ajuda neste momento?”


Nem toda dificuldade nasce da falta de limites. E compreender as necessidades emocionais não significa deixar de educar.


Significa oferecer segurança, orientação e oportunidades para o desenvolvimento da autonomia e da regulação emocional.


Quer conhecer um pouco mais?


Para compreender como a Neurociência do Desenvolvimento, a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia do Esquema podem contribuir para o acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes, entre em contato.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga

TCC | Terapia do Esquema

CRP 02/22746


WhatsApp: (81) 99108-0908

Instagram: @psikatiaguerra

Site: www.psikatiaguerra.com


Consultório: Empresarial One Way

Rua Guimarães Peixoto, 75, sala 1502

Casa Amarela, Recife – PE

CEP 52051-305


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Referências


Perry, B. D., & Winfrey, O. (2022). O que aconteceu com você? Conversas sobre trauma, resiliência e cura (E. Nazarian, Trad.). Sextante.


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

O SINTOMA DO SEU FILHO COMEÇOU HOJE?

 O SINTOMA DO SEU FILHO COMEÇOU HOJE?


Nem sempre o comportamento que preocupa os pais começou no momento em que apareceu.


Ansiedade, irritabilidade, insegurança, isolamento, medo de separação e dificuldades escolares podem estar relacionados a diferentes aspectos da história e do desenvolvimento da criança ou do adolescente.


Por isso, na psicologia, precisamos olhar além do sintoma.


Como fazemos isso?


1. Observamos o sintoma.

O que está acontecendo? Quando começou? Em quais situações aparece?


2. Conhecemos o temperamento.

Como a criança costuma reagir às emoções, mudanças e frustrações?


3. Investigamos as necessidades emocionais.

Como estão sendo atendidas suas necessidades de segurança, vínculo, autonomia, expressão emocional e limites?


4. Compreendemos as relações familiares.

Como os pais e cuidadores acolhem, orientam, protegem e estimulam a autonomia?


5. Consideramos os ambientes.

O que acontece na família, na escola, nas amizades e em outros contextos importantes?


6. Integramos todas as informações.

Buscamos compreender os pensamentos, as emoções, os comportamentos e os padrões que podem estar contribuindo para a dificuldade.


O Arquipélago de Si


Utilizo essa metáfora para mostrar que o sintoma é apenas uma ilha de um arquipélago muito maior.


É como assistir ao último episódio de uma série sem conhecer os anteriores. Para compreender o que acontece hoje, precisamos conhecer também a história.


Isso não significa procurar culpados ou atribuir todos os sintomas à infância ou aos pais. Significa investigar os diferentes fatores envolvidos para construir uma compreensão clínica mais completa.


Antes de perguntar apenas “Como faço meu filho parar com esse comportamento?”, experimente perguntar: “O que precisamos compreender sobre esse comportamento?”


O olhar integrado ajuda a orientar intervenções mais individualizadas, considerando as necessidades e a realidade de cada criança ou adolescente.


Quer conhecer um pouco mais?


Para compreender como a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia do Esquema podem contribuir para a avaliação e o acompanhamento psicológico, entre em contato.


Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga

TCC | Terapia do Esquema

CRP 02/22746


Agendamentos e informações:

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sexta-feira

Necessidades Emocionais Básicas





Pais, o que seu filho pode estar tentando dizer com esse comportamento?


Seu filho pede desculpas por tudo? Tem muito medo de errar? Explode diante de um “não”? Ou se fecha justamente quando você tenta conversar?


Essas situações podem deixar os pais preocupados e, muitas vezes, sem saber como agir.


Talvez você já tenha pensado: “Eu ofereço tanto cuidado… o que ainda está acontecendo?”.


Este texto é para vocês, pais e cuidadores, que desejam compreender melhor as necessidades emocionais dos filhos e encontrar maneiras de ajudá-los no cotidiano.


Não precisamos ter todas as respostas imediatamente. Podemos começar com uma pergunta:


“Além do comportamento que estou vendo, o que preciso compreender sobre meu filho?”


O que são necessidades emocionais básicas?


Na Terapia do Esquema, desenvolvida por Jeffrey Young, as necessidades emocionais básicas ocupam um lugar central na compreensão do funcionamento psicológico.


Na formulação de Young et al. (2008), elas envolvem cinco grupos: vínculos seguros; autonomia, competência e identidade; liberdade para expressar emoções e necessidades válidas; espontaneidade e lazer; e limites realistas e autocontrole.


Em uma linguagem próxima das famílias, podemos pensar em cinco mensagens:


“Tenho com quem contar.”


“Posso aprender e descobrir quem sou.”


“Posso expressar o que sinto.”


“Tenho espaço para brincar e aproveitar a vida.”


“Recebo orientação para conviver com limites.”


Essa organização é apresentada na literatura da Terapia do Esquema e discutida em sua adaptação ao atendimento infantil. 


Atender essas necessidades envolve experiências concretas: como escutamos, orientamos, demonstramos afeto, incentivamos tentativas e respondemos aos momentos difíceis.


Como isso aparece na sua casa?


Imagine que seu filho chegue triste porque não foi incluído em uma brincadeira.


Você pode sentir vontade de dizer: “Não liga para isso”. A intenção é ajudá-lo a sofrer menos. Mas talvez ele precise primeiro contar o que aconteceu e sentir que sua tristeza foi compreendida.


Uma resposta possível seria:


“Isso parece ter doído. Quer me contar como foi?”


Depois, vocês podem pensar juntos em formas de lidar com a situação.


Agora imagine que ele esteja com dificuldade em uma tarefa. Fazer tudo por ele pode resolver o problema daquele momento, mas também retirar uma oportunidade de aprender. Exigir que faça sozinho, sem compreender a dificuldade, pode aumentar sua insegurança.


Uma alternativa seria:


“Vamos começar juntos. Depois, você tenta essa parte e eu fico por perto.”


Esses exemplos ilustram como acolhimento e desenvolvimento de habilidades podem caminhar juntos.


O que Harvard apresenta sobre pais e cuidadores responsivos?


O Center on the Developing Child, da Universidade Harvard, reúne conhecimentos científicos sobre a importância das interações responsivas na primeira infância.


Uma ideia central é a interação chamada serve and return: uma troca de ida e volta entre a criança e o adulto. A criança olha, aponta, vocaliza ou chora; o cuidador percebe e responde com atenção, palavras, contato ou acolhimento.


Segundo essa síntese, essas trocas contribuem para o desenvolvimento de conexões neurais e de habilidades de comunicação e convivência social (Center on the Developing Child at Harvard University, s.d.).


Ser responsivo envolve perceber os sinais da criança e procurar uma resposta adequada. No cotidiano, isso pode significar interromper uma atividade para escutar, acompanhar uma descoberta ou reconhecer um desconforto.


A fonte de Harvard trata principalmente de crianças pequenas. Seu conteúdo dialoga com a importância das relações de cuidado, mas não constitui uma comprovação específica da Terapia do Esquema.


Acolher significa deixar fazer tudo?


Não. O cuidado emocional também inclui orientação.


Se seu filho agride alguém porque ficou frustrado, você pode reconhecer o sentimento e impedir a agressão:


“Eu entendo que você ficou com raiva. Não vou deixar você bater. Vamos encontrar outra maneira de mostrar isso.”


A emoção recebe espaço; o comportamento recebe um limite.


Os exemplos deste texto são possibilidades de comunicação, que precisam ser ajustadas à idade, ao contexto e às características de cada criança.


O que o modelo alemão da Terapia do Esquema acrescenta?


Em sua dissertação de mestrado, Bizinoto (2015) apresenta o modelo alemão de Terapia do Esquema para crianças e adolescentes, desenvolvido por Christof Loose e colaboradores a partir da adaptação do modelo de Young.


O trabalho descreve fundamentos e propostas de avaliação, psicoeducação, técnicas vivenciais e orientação aos pais. Também aponta a necessidade de adaptações para o contexto brasileiro. Trata-se de uma contribuição para compreender e organizar a intervenção, que não deve ser apresentada como prova definitiva de eficácia. 


Para as famílias, essa perspectiva abre uma possibilidade importante: participar da compreensão das dificuldades e da construção de novas respostas.


Uma pergunta útil é:


“O que acontece comigo quando meu filho reage dessa maneira?”


Às vezes, a reação dele desperta em nós medo, vergonha, cansaço ou sensação de impotência. Perceber isso pode ajudar a responder com mais clareza.


Você pode se perguntar: “Estou conseguindo escutar?”, “Minha expectativa está adequada à idade dele?” ou “Preciso me reorganizar antes de continuar essa conversa?”.


Os sintomas revelam qual necessidade está faltando?


Não automaticamente.


Medo, irritabilidade, isolamento, dependência ou dificuldades escolares podem ter diferentes explicações. É necessário considerar desenvolvimento, temperamento, sono, saúde, aprendizagem, relações e acontecimentos recentes.


Uma criança que evita a escola pode estar enfrentando dificuldades acadêmicas, conflitos, bullying ou outros problemas. Uma criança que pede ajuda constantemente pode precisar de confiança, de ensino mais acessível ou de avaliação de suas habilidades.


O olhar para as necessidades emocionais amplia a investigação. Não substitui a avaliação individual.


Na minha atuação em Psicologia Clínica e Hospitalar, Neuropsicologia e Pedagogia, integrada à TCC e à Terapia do Esquema, procuro compreender o que a criança sente, como enfrenta as situações e quais recursos precisa desenvolver.


Por onde começar?


Escolha uma situação recente e observe:


-O que aconteceu antes da reação?

-O que seu filho falou ou demonstrou?

-Como você respondeu?

-O que aconteceu depois?

-Que apoio, orientação ou ajuste poderia ajudá-lo?


Em um momento tranquilo, pergunte:


“Qual foi a parte mais difícil para você?”


Escute a resposta antes de tentar completá-la. Ela pode trazer informações que o comportamento, sozinho, não mostrou.


Vocês também precisam de apoio para cuidar. A síntese de Harvard reconhece que estresse financeiro, problemas de saúde e falta de suporte podem dificultar a disponibilidade dos cuidadores, destacando a importância de apoiá-los (Center on the Developing Child at Harvard University, s.d.).


Qual dessas necessidades merece mais atenção na sua família hoje?


Talvez seja o espaço para conversar. Talvez sejam oportunidades de autonomia, momentos de brincadeira ou combinados mais claros.


Quando os sintomas persistem, provocam sofrimento ou prejudicam a rotina, o acompanhamento profissional ajuda a compreender o contexto e construir estratégias específicas.


Seu filho não precisa que você adivinhe tudo. Precisa encontrar oportunidades para ser compreendido e receber ajuda para lidar com o que sente.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar-Neuropsicóloga-Pedagoga

@psikatiaguerra


Referências 


Bizinoto, J. F. S. (2015). O modelo alemão da terapia do esquema: Conceituação, técnicas e aplicação clínica na psicoterapia infantil [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Uberlândia]. Repositório Institucional da Universidade Federal de Uberlândia. https://doi.org/10.14393/ufu.di.2015.249⁠


Center on the Developing Child at Harvard University. (s.d.). Serve and return. https://developingchild.harvard.edu/key-concept/serve-and-return/⁠


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

quarta-feira

A Casa Interna do modelo Alemão da Terapia do Esquema





A casa interna: uma forma de compreender o que seu filho sente e precisa

Pais, quando uma criança apresenta um comportamento que preocupa, precisamos compreender também o que ela está sentindo, como interpreta a situação e quais necessidades precisam de atenção.

No consultório, utilizo a casa interna como recurso para facilitar essa conversa. Essa proposta está presente na Terapia do Esquema para crianças e adolescentes e organiza o trabalho com experiências, esquemas e modos (Loose et al., 2013). A casa representa o mundo emocional; seus andares não correspondem a partes do cérebro.

O térreo: as experiências

Na casa que utilizo, o térreo representa aquilo que a criança vive e sente: momentos de carinho, brincadeiras, mudanças, conflitos, perdas e conquistas.

Nesse espaço, procuro compreender a experiência pela perspectiva da criança. Uma situação que parece pequena para um adulto pode ser difícil para ela.

Podemos perguntar: “O que aconteceu?”, “Como você se sentiu?” e “O que teria ajudado naquele momento?”. Essas perguntas abrem espaço para conhecer sua experiência antes de orientar sua resposta.

O primeiro andar: os esquemas

O primeiro andar representa padrões de compreensão sobre si, as outras pessoas e o mundo. Na Terapia do Esquema, os esquemas iniciais desadaptativos envolvem lembranças, emoções, pensamentos e sensações corporais, podendo influenciar a maneira de interpretar novas situações (Young et al., 2008).

Para explicar aos pais, uso um exemplo: uma criança pode interpretar um erro como sinal de que não é capaz ou não merece reconhecimento. Essa interpretação precisa ser investigada, sem transformar uma fala isolada em diagnóstico.

O segundo andar: os modos

O segundo andar representa os modos: estados emocionais e formas de reagir que ficam ativos em determinados momentos (Loose et al., 2013).

Na linguagem do cotidiano, podemos conversar sobre o momento em que a criança se sente vulnerável, fica muito irritada ou tenta se afastar de uma situação difícil.

Por isso, prefiro dizer “Agora você está com muita raiva” a dizer “Você é uma criança raivosa”. A primeira frase reconhece um estado e permite conversar sobre ele.

A estrela: as cinco necessidades emocionais básicas

A estrela de cinco pontas ajuda a apresentar os cinco grupos de necessidades do modelo clássico da Terapia do Esquema:

1. Vínculo seguro: proteção, estabilidade, aceitação e acolhimento.
2. Autonomia, competência e identidade: oportunidades de tentar, aprender e desenvolver seu próprio jeito.
3. Liberdade para expressar emoções e necessidades: poder falar sobre o que sente e precisa.
4. Espontaneidade e brincadeira: espaço para explorar, criar e se divertir.
5. Limites realistas e autocontrole: aprender regras, respeitar o outro e lidar com frustrações.

Na prática, convido os pais a observar como essas necessidades aparecem na rotina: há espaço para escutar? Para incentivar uma tentativa? Para brincar? Os combinados são claros e possíveis para a idade?

Acolher e orientar na mesma situação

Imagine que seu filho perde um jogo e joga as peças no chão. Uma resposta possível seria:

“Eu percebi que você ficou muito frustrado porque queria ganhar. Estou aqui para ajudar, mas não vou deixar você jogar as peças. Vamos fazer uma pausa e depois conversar.”

Essa fala mostra como podemos reconhecer a emoção e manter um limite. Depois, podemos ajudar a criança a encontrar outra maneira de expressar sua frustração.

A participação dos pais na terapia

Bizinoto (2015) apresenta a importância da avaliação, da psicoeducação, dos recursos vivenciais e da orientação aos pais na adaptação da Terapia do Esquema ao público infantil.

No meu trabalho, a casa ajuda a iniciar conversas. O que aparece nas brincadeiras precisa ser compreendido junto com a história da criança e a avaliação clínica.

Meu objetivo é construir com vocês uma compreensão que se transforme em cuidado cotidiano: escutar com atenção, oferecer apoio, incentivar autonomia e estabelecer limites com respeito.

Referências

Bizinoto, J. F. S. (2015). O modelo alemão da terapia do esquema: Conceituação, técnicas e aplicação clínica na psicoterapia infantil [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Uberlândia]. Repositório Institucional da Universidade Federal de Uberlândia. https://doi.org/10.14393/ufu.di.2015.249

Loose, C., Graaf, P., & Zarbock, G. (Eds.). (2013). Schematherapie mit Kindern und Jugendlichen. Beltz.

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

sábado

País, seus filhos causam preocupações atualmente?

 





Antes do comportamento: uma viagem pelo Arquipélago de Si


Sejam bem-vindos a este canal.


Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga e pedagoga, formada pela Universidade Federal de Pernambuco na década de 1990. Trabalho com crianças e adolescentes desde 1991. Minha trajetória reúne educação, saúde e cuidado psicológico, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema, além de formação em neurociência e trauma na infância. O estudo do apego também orienta meu olhar sobre o desenvolvimento e as relações.


Ao longo dessa caminhada, tenho escutado muitas perguntas de pais e cuidadores: “Por que meu filho reage assim?”, “Por que algo tão pequeno se transforma em uma situação tão difícil?”, “Estou oferecendo demais ou de menos?”, “Como acolher sem deixar de colocar limites?”.


Essas perguntas costumam chegar acompanhadas de cansaço, preocupação e, muitas vezes, culpa. Há famílias que já tentaram conversar, explicar, castigar, recompensar e mudar a rotina. Mesmo assim, continuam sem compreender o que acontece.


Este espaço nasce para ajudar vocês a ampliar esse olhar. Meu convite é que possamos observar o comportamento e conhecer a criança que o apresenta: como ela reage, o que consegue compreender, quais habilidades ainda está desenvolvendo, o que vive em seus ambientes e como encontra apoio nas relações.


Em algumas situações, a orientação aos cuidadores e mudanças no cotidiano podem contribuir bastante. Em outras, será necessário avaliar a criança e construir um acompanhamento específico. Conhecer melhor a situação é o que nos ajuda a escolher o caminho.


Quando a preocupação começa pelo que aparece


Geralmente, os pais procuram ajuda a partir daquilo que conseguem ver: o choro, a irritabilidade, a dificuldade de dormir, o medo de se separar, a recusa em participar, as discussões ou o afastamento.


Essas manifestações merecem atenção. Mas um mesmo comportamento pode acontecer por motivos diferentes.


Duas crianças podem recusar uma atividade: uma porque teme errar; outra porque não compreendeu a tarefa. Outra ainda pode estar cansada, sentir dificuldade sensorial ou ter vivido uma experiência desagradável naquele contexto. A aparência do comportamento pode ser semelhante, enquanto as necessidades de cuidado são distintas.


Por isso, quando digo que “o sintoma pode ser uma linguagem”, utilizo uma metáfora: ele pode oferecer pistas sobre o que acontece com a criança. Isso não significa que toda manifestação esconda uma mensagem emocional, nem que possamos traduzir um comportamento automaticamente.


Precisamos considerar desenvolvimento, saúde, sono, aprendizagem, características do neurodesenvolvimento, experiências de vida e relações. O significado é investigado, não presumido.


É como uma série. Quando começamos pela última temporada, vemos conflitos e reações sem conhecer os acontecimentos que ajudam a compreendê-los. Na vida da criança, o comportamento de hoje também tem um contexto.


Essa metáfora nos convida a conhecer os capítulos anteriores e observar o episódio atual. Não precisamos reconstruir toda a história para começar a ajudar; podemos cuidar do sofrimento presente enquanto compreendemos melhor o que o desencadeia e o mantém.


O Arquipélago de Si: cinco ilhas conectadas


O Arquipélago de Si é a metáfora que utilizo para organizar esse olhar. Ele reúne cinco ilhas: temperamento, necessidades emocionais básicas, estilos parentais, ambientes e sintomas.


As ilhas estão conectadas. Uma mudança na rotina pode aumentar o cansaço; o cansaço pode tornar mais difícil lidar com a frustração; uma resposta adulta mais previsível pode ajudar a criança a atravessar esse momento.


A metáfora funciona como um recurso de psicoeducação e organização de perguntas. Ela não constitui, por si só, um instrumento diagnóstico ou um protocolo empiricamente validado.


A ilha do temperamento: como essa criança costuma reagir?


Algumas crianças se aproximam rapidamente de novidades. Outras observam antes de participar. Algumas expressam emoções com intensidade; outras demonstram pouco, embora possam estar sentindo muito.


O temperamento envolve diferenças individuais na maneira de reagir e regular atenção, emoções e atividade. Conhecê-lo ajuda a ajustar expectativas e formas de cuidado. A Academia Americana de Pediatria destaca a importância de considerar essas diferenças na relação entre pais e filhos. 


Aqui, a pergunta é: “Como posso ajudar esta criança, considerando a maneira como ela funciona?”


Uma criança que precisa de tempo para se adaptar pode se beneficiar de preparação e aproximação gradual. Uma criança muito ativa pode precisar de oportunidades de movimento e instruções curtas. Uma criança que se frustra intensamente pode precisar de mais apoio para aprender a esperar e tentar novamente.


Temperamento não é destino. Também não justifica qualquer comportamento. Ele ajuda a escolher a forma de ensinar.


Na prática, observamos: como a criança reage às mudanças? Quanto tempo leva para se recuperar de uma frustração? Em quais situações consegue lidar melhor? O que facilita sua participação?


A ilha das necessidades emocionais básicas: o que precisa ser cuidado?


Na Terapia do Esquema, as necessidades emocionais básicas ajudam a compreender o desenvolvimento de padrões de interpretação, emoção e relacionamento. Na formulação clássica de Young, Klosko e Weishaar (2008), elas abrangem:


-Vínculos seguros, com proteção, estabilidade, cuidado e aceitação.

- Autonomia, competência e senso de identidade.

- Liberdade para expressar necessidades e emoções.

- Espontaneidade e brincar.

- Limites realistas e autocontrole.


Essas necessidades coexistem. A criança precisa de acolhimento e de oportunidades para desenvolver autonomia. Precisa brincar, expressar emoções e aprender que suas ações têm consequências.


Atender às necessidades emocionais não significa realizar todos os desejos. O desejo pode ser continuar brincando por mais uma hora; a necessidade pode envolver descanso, previsibilidade e ajuda para encerrar uma atividade prazerosa.


É possível dizer: “Eu sei que você queria continuar. É difícil parar quando está divertido. Agora vamos guardar, e eu vou ajudar você a começar”.


Nesse exemplo, o adulto reconhece a experiência da criança e sustenta o limite.


Relações com respostas atentas aos sinais infantis contribuem para o desenvolvimento. Isso envolve perceber as iniciativas da criança e responder de maneira apropriada, em trocas que se constroem no cotidiano. 


A pergunta desta ilha é: “Que necessidade pode estar envolvida nesta situação e como posso cuidar dela de maneira adequada?”


A ilha dos estilos parentais: como respondemos ao que acontece?


Quando o filho chora, se recusa ou desafia uma regra, o adulto também sente. Pode surgir irritação, medo, impotência, vergonha ou a sensação de estar sendo desrespeitado.


Essas reações influenciam a resposta que damos. Por isso, observar a criança também envolve reconhecer o que acontece conosco.


Os estilos parentais ajudam a pensar em padrões de acolhimento, comunicação, exigência e limites. Contudo, uma situação isolada não define uma família. É possível responder com firmeza em um momento e, em outro, ceder por exaustão. A compreensão exige observar a frequência e o contexto dessas respostas.


A maneira como os pais interpretam o comportamento também é influenciada por seu próprio temperamento, humor e pressões cotidianas. 


Aqui entra uma pergunta delicada: “O que o comportamento do meu filho desperta em mim?”


Talvez seu choro encontre uma história em que você ouviu que sentir era fraqueza. Talvez sua dificuldade para obedecer desperte medo de perder o controle. Talvez sua frustração faça você querer resolver tudo rapidamente, porque se lembra de ter enfrentado dificuldades sem apoio.


Revisitar a criança que fomos pode ajudar a reconhecer essas influências. Algumas vezes repetimos formas de cuidado conhecidas; outras vezes tentamos oferecer o oposto daquilo que recebemos. Mesmo com boa intenção, podemos ter dificuldade para perceber o que o filho precisa hoje.


Por exemplo, alguém que viveu muitas restrições pode sentir dificuldade para estabelecer limites. Alguém que foi muito criticado pode tentar impedir qualquer experiência de erro ou frustração.


São possibilidades a serem examinadas, não conclusões automáticas.


A história dos pais merece cuidado. O objetivo dessa reflexão é ampliar a liberdade para responder ao presente, sem transformar a infância dos adultos em uma explicação única para o sofrimento dos filhos.


A ilha dos ambientes: onde essa criança vive?


A criança participa de diferentes ambientes: casa, escola, família ampliada, comunidade e espaços digitais. Em cada um deles, encontra expectativas, relações, estímulos e desafios.


Como está seu sono? Há tempo para brincar? A rotina permite descanso? Ela compreende o que é esperado? Está enfrentando conflitos, exclusão ou dificuldades de aprendizagem? Houve mudanças familiares importantes?


O desenvolvimento ocorre na interação entre características individuais, relações e condições ambientais. Por isso, é necessário observar também os recursos e as pressões que cercam a criança e seus cuidadores. 


Uma família sobrecarregada pode precisar de apoio concreto para conseguir oferecer mais previsibilidade. Uma criança com dificuldade escolar pode precisar de adaptações, e não apenas de incentivos para “se esforçar mais”.


A pergunta desta ilha é: “O que, neste ambiente, aumenta a dificuldade e o que pode facilitar o cuidado?”


A ilha dos sintomas: o que aparece e como interfere na vida?


Chegamos à ilha que costuma motivar a busca por ajuda. Aqui observamos medos, irritabilidade, retraimento, dificuldades de sono, conflitos e outras manifestações.


Precisamos investigar quando começaram, com que frequência aparecem, quanto duram, em quais situações ocorrem e como interferem na vida da criança.


Também buscamos exceções: quando ela consegue lidar melhor? Com quem se sente mais à vontade? O que acontece de diferente nesses momentos?


Nesta metáfora, “sintomas” designa manifestações que preocupam ou produzem sofrimento. Eles não são sinônimos de esquemas da Terapia do Esquema. Esquemas são padrões mais amplos de significados e experiências, cuja investigação exige cuidado clínico.


A pergunta desta ilha é: “O que precisa de ajuda agora e quais informações podem orientar essa ajuda?”


Como as ilhas se encontram em uma situação cotidiana


Imagine uma criança que começa a chorar intensamente quando precisa sair de casa para a escola.


Na ilha do temperamento, podemos investigar como ela lida com transições. Na ilha das necessidades, observamos segurança, previsibilidade e autonomia. Na ilha dos estilos parentais, examinamos como os adultos respondem ao choro. Na ilha dos ambientes, buscamos informações sobre sono, rotina, aprendizagem e relações escolares. Na ilha dos sintomas, avaliamos intensidade, duração e prejuízo.


Nenhuma dessas perguntas, sozinha, explica a situação.


A partir dessa compreensão, podemos organizar despedidas mais previsíveis, investigar dificuldades escolares, apoiar os cuidadores e avaliar a necessidade de acompanhamento. A intervenção ganha direção porque considera a criança e o contexto em que o comportamento acontece.


Perguntas que os pais costumam trazer


As respostas abaixo são pontos de partida para observação e conversa. Precisam ser ajustadas à idade e à situação de cada criança.


“Meu filho explode quando escuta um ‘não’. O que faço?”


Observe como o limite é apresentado, o que aconteceu antes e se há cansaço ou dificuldade com transições. Durante a reação intensa, priorize segurança e use poucas palavras: “Você ficou muito bravo. Eu vou ajudar. Bater não pode”. Quando estiver mais tranquilo, ensine uma alternativa para expressar a frustração.


“Minha filha pede desculpas por tudo, até quando não fez nada errado.”


Vale observar medo de errar, busca de aprovação e experiências de crítica. Diferencie erro de identidade: “Isso aconteceu sem querer. Vamos resolver juntos”. Se o padrão for persistente ou causar sofrimento, merece ser compreendido com mais profundidade.


“Meu filho não quer ficar longe de mim.”


Considere idade, mudanças recentes e experiências de separação. Uma despedida previsível e oportunidades graduais de permanecer com pessoas de confiança podem ajudar. O cuidado deve favorecer segurança e autonomia, respeitando o nível de dificuldade da criança.


“Ela só obedece quando eu grito.”


Observe o ciclo entre vocês. O pedido é claro? A criança compreendeu? O adulto repete muitas vezes antes de agir? Experimente aproximar-se, dar uma orientação por vez e acompanhar o combinado com consistência. Também é importante cuidar da sobrecarga que leva o adulto a perder a paciência.


“Meu filho fica quieto na escola, mas desaba quando chega em casa.”


Investigue o esforço exigido durante o dia, as relações escolares, fome, cansaço e estímulos. Um período de descanso e reconexão pode ser útil. Esse padrão, sozinho, não comprova segurança do apego nem descarta dificuldades na escola.


“Meu adolescente se fecha e não quer conversar.”


A busca por privacidade faz parte do desenvolvimento, mas mudanças marcantes merecem atenção. Crie momentos de convivência com menos cobrança: “Percebi você mais distante. Estou disponível para ouvir”. Observe também sono, amizades, interesse pelas atividades e funcionamento escolar.


“Ofereço tudo e, mesmo assim, parece que nada é suficiente.”


Vale diferenciar recursos materiais, desejos e necessidades emocionais. Como estão os momentos de atenção compartilhada? Há espaço para o filho ser ouvido, participar e enfrentar desafios possíveis? Presença e limites consistentes também fazem parte do cuidado.


“Tenho medo de repetir com meu filho o que fizeram comigo.”


Reconhecer esse medo já permite começar a observar suas respostas. Pergunte: “Quando reajo assim, o que estou sentindo e tentando evitar?”. Se essas experiências provocam sofrimento intenso ou interferem repetidamente na relação, buscar cuidado para você pode ajudar.


“Como sei se precisamos de orientação parental ou de atendimento para a criança?”


Essa decisão depende de avaliação. Orientação parental pode contribuir quando mudanças nas respostas adultas e na rotina são relevantes. Se há sofrimento persistente, prejuízo importante ou dúvidas sobre saúde e desenvolvimento, a criança pode precisar de avaliação e acompanhamento. Muitas vezes, os dois cuidados caminham juntos.


Um pequeno exercício para começar


Escolha uma situação recente e procure descrevê-la sem rótulos. Em vez de “meu filho é impossível”, registre o que ele fez, onde estava e o que aconteceu.


Depois, observe:


- O que aconteceu antes?

-Como estavam seu descanso e sua rotina?

- O que essa situação exigia dele?

-Como os adultos responderam?

- O que aconteceu depois?

- Em uma situação parecida, quando ele conseguiu lidar melhor?


Essas perguntas ajudam a transformar uma preocupação ampla em informações que podem orientar o cuidado.


Um convite para olhar com mais compreensão


Você não precisa ter todas as respostas para começar a compreender seu filho. Precisa de espaço para observar, apoio para refletir e disponibilidade para ajustar o que for necessário.


A criança também está aprendendo: a reconhecer emoções, pedir ajuda, esperar, lidar com frustrações e participar das relações. Os adultos podem oferecer condições para esse aprendizado, ao mesmo tempo que cuidam de suas próprias dificuldades.


No Arquipélago de Si, o convite é conhecer as conexões entre as ilhas. O comportamento recebe atenção junto com a história, as habilidades, as relações e as condições de vida.


Talvez a pergunta que abra esse caminho seja:


“O que meu filho ainda precisa aprender e de que apoio precisa para conseguir?”


Neste canal, vamos conversar sobre essas questões com cuidado, exemplos do cotidiano e respeito às diferentes famílias.


Qual dessas ilhas você gostaria de conhecer primeiro?


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga | Pedagoga

CRP 02/22746

@psikatiaguerra


Referências


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Normal child behavior. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/family-life/family-dynamics/communication-discipline/Pages/Normal-Child-Behavior.aspx


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Understanding your child’s temperament: Why it’s important. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/gradeschool/Pages/How-to-Understand-Your-Childs-Temperament.aspx


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). An expanded story of early childhood development. https://developingchild.harvard.edu/key-concepts/what-surrounds-us-shapes-us/


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). Serve and return. https://developingchild.harvard.edu/key-concept/serve-and-return/


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

sexta-feira

A Reparentalização Limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

 


A reparentalização limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

A Terapia do Esquema oferece uma compreensão do sofrimento psicológico que articula experiências de desenvolvimento, necessidades emocionais, padrões de interpretação e estratégias de enfrentamento. Nessa perspectiva, as dificuldades apresentadas pelo paciente são examinadas em relação à maneira como ele aprendeu a perceber a si mesmo, a interpretar as relações e a responder às situações emocionalmente significativas. Young et al. (2008) propõem uma abordagem que integra intervenções cognitivas, comportamentais, experienciais e relacionais, permitindo trabalhar tanto a compreensão dos padrões quanto sua transformação na vida cotidiana.

Entre os componentes dessa abordagem, a reparentalização limitada ocupa um lugar central por utilizar a relação terapêutica como espaço de atendimento parcial às necessidades emocionais insuficientemente satisfeitas ao longo do desenvolvimento. O terapeuta oferece acolhimento, validação, proteção, orientação e limites, respeitando o enquadre profissional e os objetivos do tratamento. Sua atuação procura favorecer experiências relacionais que contribuam para modificar padrões desadaptativos e fortalecer recursos internos do paciente (Young et al., 2008).

Nesta análise, compreendo a reparentalização limitada como uma forma de cuidado que articula sensibilidade e responsabilidade. Sua importância está na possibilidade de o paciente experimentar uma relação em que suas emoções sejam reconhecidas, suas necessidades possam ser expressas e suas dificuldades sejam abordadas sem humilhação. Esse cuidado precisa estar associado ao desenvolvimento da autonomia, para que aquilo que é inicialmente experimentado na relação terapêutica possa ser incorporado à maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.

Os esquemas iniciais desadaptativos constituem padrões amplos e persistentes que envolvem memórias, emoções, cognições e sensações corporais relacionadas à percepção de si e das relações. Segundo Young et al. (2008), sua formação está associada à interação entre o temperamento e as experiências de desenvolvimento, especialmente quando necessidades emocionais fundamentais não são adequadamente atendidas. Esses padrões podem continuar influenciando a vida adulta, mesmo quando as circunstâncias que contribuíram para sua formação já se modificaram.

Essa compreensão exige uma investigação cuidadosa. A presença de um esquema não permite concluir automaticamente que determinada experiência ocorreu na infância. Na minha interpretação, a conceitualização de caso deve organizar hipóteses, preservando a possibilidade de revisão. A história relatada, os problemas atuais, as condições de vida e os recursos do paciente precisam ser considerados em conjunto, evitando explicações que reduzam toda a complexidade do sofrimento a uma única relação ou acontecimento.

As necessidades emocionais básicas ocupam uma posição estruturante nesse processo. Young et al. (2008) destacam necessidades de vínculo seguro, autonomia e competência, liberdade de expressão de necessidades e emoções, espontaneidade e lazer, além de limites realistas e autocontrole. A reparentalização limitada deve ser orientada pelas necessidades mais relevantes para cada pessoa, reconhecendo que acolher também pode envolver incentivar escolhas, estabelecer limites e ajudar a enfrentar situações difíceis.

A partir dessa perspectiva, considero que o cuidado terapêutico precisa ser ajustado ao paciente. Uma pessoa marcada por experiências de crítica pode necessitar de uma relação em que o erro seja abordado com respeito e possibilidade de reparação. Outra, que aprendeu a silenciar suas necessidades, pode precisar de incentivo para expressar discordâncias. Quando predominam insegurança e dependência, a intervenção pode combinar proteção emocional com oportunidades graduais de decisão. O sentido do cuidado depende de sua função na conceitualização clínica.

A compreensão das estratégias de enfrentamento também é fundamental. Young et al. (2008) descrevem respostas de resignação, evitação e hipercompensação diante da ativação dos esquemas. Embora possam reduzir o sofrimento em determinadas situações, essas respostas podem contribuir para a manutenção dos padrões desadaptativos. A pessoa que evita proximidade para não ser rejeitada, por exemplo, pode encontrar alívio imediato, mas também limitar experiências de apoio e pertencimento.

Na minha leitura clínica, reconhecer a função protetora dessas estratégias favorece uma intervenção mais respeitosa. Antes de buscar sua modificação, é necessário compreender o que elas tentam evitar e quais consequências produzem. Esse reconhecimento permite conversar sobre o sofrimento sem transformar a proteção aprendida em motivo de censura. Ao mesmo tempo, abre espaço para examinar se a estratégia continua sendo necessária ou se existem alternativas mais adequadas às condições atuais.

O trabalho com os modos esquemáticos aprofunda essa investigação. Os modos correspondem a estados emocionais e respostas de enfrentamento que se tornam predominantes em determinado momento. Na proposta de Young et al. (2008), a intervenção procura atender à vulnerabilidade, reduzir a influência de modos disfuncionais e fortalecer o modo Adulto Saudável. A reparentalização limitada participa desse processo ao oferecer respostas que o paciente ainda apresenta dificuldade de produzir por conta própria.

Compreendo o fortalecimento do Adulto Saudável como o desenvolvimento da capacidade de acolher emoções, avaliar situações, estabelecer limites e agir com responsabilidade. Isso inclui reconhecer a dor sem se abandonar a ela, questionar mensagens internas punitivas e buscar apoio quando necessário. A autonomia emocional pode, assim, ser entendida como a capacidade de cuidar de si e participar de relações de reciprocidade, preservando o direito de precisar de outras pessoas.

A confrontação empática contribui para esse desenvolvimento. Young et al. (2008) articulam a compreensão das origens dos padrões com o questionamento de suas consequências atuais. O terapeuta reconhece a experiência emocional do paciente e o ajuda a perceber como determinadas respostas podem manter seu sofrimento. Essa postura permite que acolhimento e mudança sejam trabalhados conjuntamente.

Considero que essa articulação evita dois riscos clínicos: validar de maneira indiscriminada respostas prejudiciais ou confrontá-las sem compreender a vulnerabilidade envolvida. A intervenção precisa reconhecer o sentimento e, simultaneamente, examinar interpretações e comportamentos. Sentir medo de rejeição, por exemplo, merece acolhimento; concluir que toda demora representa abandono exige investigação.

Um exemplo fictício ilustra essa possibilidade. Uma paciente interpreta a ausência de resposta a uma mensagem como evidência de desinteresse. Sente vergonha por precisar de atenção e se afasta da relação. Na sessão, a terapeuta pode ajudá-la a reconhecer a necessidade de consideração, compreender o afastamento como tentativa de proteção e examinar outras explicações para o acontecimento. Posteriormente, podem construir uma forma de comunicação mais clara, que permita expressar a necessidade sem transformar a incerteza em certeza de rejeição.

Nesse caso, a reparentalização limitada se manifesta na qualidade da resposta terapêutica e na maneira como essa resposta é elaborada. O acolhimento permite que a paciente entre em contato com a experiência; a investigação amplia sua compreensão; e a prática comportamental favorece novas possibilidades fora da sessão. O exemplo representa uma aplicação interpretativa dos fundamentos da abordagem, e não um procedimento obrigatório.

As técnicas cognitivas, experienciais e comportamentais ampliam esse trabalho. Young et al. (2008) apresentam recursos para examinar crenças, trabalhar experiências emocionais e romper padrões de comportamento. A ressignificação por imagens e os diálogos entre diferentes posições internas podem ajudar o paciente a reconhecer necessidades e desenvolver respostas alternativas. Sua utilização deve estar vinculada à conceitualização e à capacidade de participação da pessoa naquele momento.

Na minha interpretação, a profundidade de uma intervenção não deve ser medida pela intensidade emocional que ela provoca. O trabalho precisa permitir compreensão, elaboração e integração. É necessário respeitar o ritmo do paciente, explicar o propósito dos exercícios e reconhecer sua liberdade para discordar ou interromper. A experiência terapêutica deve favorecer participação e segurança.

O caráter limitado da reparentalização também precisa permanecer explícito. A relação acontece dentro de um contexto profissional, com condições de atendimento e disponibilidade definidas. Conforme a proposta de Young et al. (2008), o cuidado oferecido deve respeitar esses limites. A previsibilidade do enquadre constitui parte importante da experiência relacional, pois permite trabalhar necessidades e frustrações em condições que possam ser sustentadas.

Entendo que estabelecer limites com respeito pode representar uma intervenção reparadora. A terapeuta pode reconhecer o sofrimento associado a uma ausência ou mudança de horário, conversar sobre seus significados e planejar recursos para o intervalo. A manutenção do vínculo não exige eliminar toda frustração; exige abordá-la de modo compreensível e consistente.

Esse processo também demanda atenção às respostas emocionais da profissional. O desejo de proteger, aliviar rapidamente o sofrimento ou evitar conflitos pode interferir nas decisões clínicas. A reflexão e a supervisão ajudam a distinguir uma intervenção orientada pelas necessidades do paciente de uma resposta motivada principalmente pelo desconforto da terapeuta.

Por fim, considero que os resultados desse cuidado precisam ser acompanhados na vida cotidiana. A capacidade de expressar necessidades, reconhecer emoções, estabelecer limites e construir relações mais satisfatórias oferece indicadores relevantes de mudança. A experiência vivida na terapia ganha alcance quando o paciente passa a utilizar esses recursos em outros contextos.

A reparentalização limitada pode, portanto, ser compreendida como uma intervenção que combina vínculo, elaboração emocional e aprendizagem. Fundamentada na Terapia do Esquema, sua aplicação requer conceitualização individualizada, sensibilidade às necessidades e clareza sobre os limites profissionais. Nesta análise, seu propósito central é contribuir para que o paciente desenvolva uma relação consigo mesmo que permita acolher sua vulnerabilidade, exercer responsabilidade e construir escolhas mais autônomas.


Referência

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

terça-feira

Apego seguro: segurança emocional não significa ausência de limites

 

Quando falamos em apego seguro, não estamos falando de uma infância sem frustrações, conflitos ou limites. Uma relação segura não exige cuidadores perfeitos. Ela é construída, principalmente, por experiências repetidas nas quais a criança encontra disponibilidade, proteção, acolhimento e respostas suficientemente previsíveis quando precisa do adulto.


Na prática, oferecer segurança também significa estabelecer limites claros e adequados à idade. A criança pode ouvir “não”, esperar, lidar com pequenas frustrações e aprender que nem todos os seus desejos serão atendidos. O que faz diferença é a maneira como o adulto permanece emocionalmente disponível durante esses momentos: é possível sustentar um limite e, ao mesmo tempo, reconhecer o sentimento da criança.


Ao longo do desenvolvimento, essas experiências ajudam a criança a construir confiança para explorar o mundo e retornar à sua base de segurança quando necessário. Aos poucos, aquilo que inicialmente acontece na relação com o cuidador também participa do desenvolvimento de recursos para reconhecer emoções, buscar ajuda e se reorganizar diante de situações difíceis.


Por isso, acolher não é permitir tudo. Segurança emocional envolve afeto, previsibilidade, proteção e limites. Quando o adulto consegue comunicar “eu compreendo o que você está sentindo, estou aqui com você, mas esse limite continua existindo”, ele oferece à criança uma experiência importante: emoções podem ser acolhidas sem que os limites desapareçam.


Apego seguro não é criar um mundo sem frustrações. É oferecer uma relação suficientemente segura para que a criança aprenda a atravessá-las.


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica 

 CRP 02/22746

Apego inseguro na infância: o que é e como pode se manifestar?

 Apego inseguro na infância: o que é e como pode se manifestar?


Quando falamos em apego, estamos falando de uma necessidade humana básica: buscar proximidade e segurança nas relações significativas. Desde os primeiros anos de vida, a criança aprende, por meio das experiências repetidas com seus cuidadores, se pode procurar o outro quando sente medo, desconforto, tristeza ou necessidade de proteção. Essas experiências participam da construção de suas expectativas sobre si mesma, sobre o outro e sobre as relações.


O apego inseguro não é um diagnóstico e não significa falta de amor. Ele se refere a padrões relacionais que podem se desenvolver quando a criança encontra dificuldades para experimentar segurança, disponibilidade ou previsibilidade nas relações de cuidado. Dependendo de sua história e de suas características individuais, ela pode intensificar a busca por proximidade, evitar demonstrar necessidades emocionais ou apresentar respostas mais contraditórias diante da aproximação e do afastamento.


Na vida cotidiana, isso nem sempre aparece de maneira óbvia. Algumas crianças podem demonstrar maior dificuldade diante de separações; outras parecem excessivamente independentes e evitam pedir ajuda. Também podem surgir dificuldades para confiar, expressar necessidades ou se reorganizar emocionalmente diante de determinadas situações. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, permite definir um padrão de apego. É necessário compreender a criança dentro de sua história, de suas relações e de seu contexto de desenvolvimento.


A boa notícia é que desenvolvimento não significa destino. Relações responsivas, experiências de segurança, corregulação, fortalecimento dos cuidadores e intervenções psicológicas adequadas podem oferecer novas experiências relacionais ao longo do desenvolvimento. Por isso, quando uma criança apresenta um comportamento difícil, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas “como faço esse comportamento parar?”, mas também: “o que essa criança pode estar precisando comunicar?”


Compreender o apego é justamente ampliar o olhar: ir além do comportamento para compreender a necessidade emocional que pode existir por trás dele.


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica 

CRP 02/22746

quarta-feira

Intervenção em momentos de ansiedade no consultório

 Por que, na minha prática clínica, eu primeiro acalmo o corpo e só depois trabalho os pensamentos?





Uma das perguntas que os pais mais fazem durante o processo terapêutico é: “Por que, quando meu filho está em uma crise de ansiedade, você não começa conversando ou explicando imediatamente o que está acontecendo?”


A resposta está na forma como nosso cérebro e nosso sistema nervoso funcionam.


Quando uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto entra em uma crise de ansiedade, em um ataque de pânico ou em um momento de intensa desregulação emocional, o corpo interpreta aquela situação como se existisse um perigo real. O organismo entra em estado de alerta e ativa um conjunto de respostas automáticas de sobrevivência. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos, as mãos podem suar, o estômago “embrulha”, surgem tremores, sensação de falta de ar, vontade de fugir, de chorar ou até mesmo de se isolar.


Nesse momento, o cérebro está concentrado em proteger a pessoa. Por isso, áreas responsáveis pelo raciocínio, pela reflexão, pelo planejamento e pela aprendizagem ficam temporariamente menos disponíveis. É justamente por esse motivo que, durante uma crise, longas explicações, sermões ou tentativas de convencer a criança de que “não há motivo para ficar assim” costumam produzir pouco efeito.


Na minha prática clínica, utilizo esse conhecimento para orientar a intervenção. Antes de qualquer estratégia cognitiva, meu primeiro objetivo é ajudar o sistema nervoso a perceber que ele está seguro.


Isso significa que eu começo regulando o corpo.


Primeiro, ajudo a criança, o adolescente ou o adulto a diminuir o estado de alerta. Utilizo estratégias de ancoragem, orientação para o ambiente, consciência corporal, percepção dos pés apoiados no chão, respiração confortável, movimentos suaves e recursos que favorecem a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, ofereço uma presença calma, uma voz tranquila e um ambiente previsível, porque o sistema nervoso também se regula por meio da relação com o outro.


Somente quando observo que o organismo começa a sair desse estado de hiperativação é que iniciamos a segunda etapa do trabalho.


É nesse momento que explico o que é a ansiedade, por que o corpo reagiu daquela maneira e quais sinais ele estava tentando comunicar. A criança aprende a reconhecer o que acontece com seu coração, sua respiração, seus músculos e seus pensamentos. Ela começa a perceber que aqueles sintomas, embora sejam muito desconfortáveis, representam uma resposta de proteção do organismo e não um sinal de que algo grave necessariamente está acontecendo.


Depois dessa compreensão, torna-se possível trabalhar os pensamentos, as emoções, os comportamentos e as situações que desencadearam aquela resposta. A partir daí, utilizo recursos da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e de outras abordagens baseadas em evidências para desenvolver novas formas de enfrentamento, fortalecer habilidades de regulação emocional e construir respostas mais saudáveis diante das dificuldades da vida.


Em outras palavras, o processo terapêutico segue uma sequência lógica.


Primeiro, o corpo precisa sentir segurança.


Depois, a mente consegue compreender.


Só então conseguimos ensinar novas estratégias de pensamento, comportamento e resolução de problemas.


Essa forma de intervenção respeita o funcionamento natural do cérebro e do sistema nervoso. Em vez de exigir que a criança pense de maneira racional quando seu organismo ainda acredita estar em perigo, nós ajudamos primeiro o corpo a desacelerar. Quando isso acontece, a aprendizagem, o diálogo e a reflexão tornam-se muito mais eficazes.


É por isso que costumo dizer aos pais que não adianta tentar conversar com um cérebro que ainda está tentando sobreviver. Antes de ensinar, precisamos regular. Antes de corrigir, precisamos acolher. Antes de pedir que a criança explique o que sente, precisamos ajudá-la a sentir que está segura.


Esse princípio também se aplica aos adolescentes e aos adultos. Independentemente da idade, quando o sistema nervoso está em intenso estado de alerta, o primeiro passo da intervenção é favorecer segurança, presença e regulação fisiológica. Somente depois o cérebro recupera sua capacidade de refletir, organizar emoções, aprender e construir novas formas de responder às experiências.


Essa é a razão pela qual, em minha prática clínica, costumo dizer que a intervenção acontece de baixo para cima: primeiro regulamos o corpo; depois integramos as emoções; e, por fim, trabalhamos os pensamentos, os significados e as mudanças comportamentais. Quando seguimos essa sequência, respeitamos o funcionamento do sistema nervoso e criamos condições para que a psicoterapia seja mais segura, acolhedora e efetiva.




segunda-feira

DEVOLUTIVA AOS PAIS

 




Na devolutiva aos responsáveis, compreendo a criança como alguém em desenvolvimento, navegando por diferentes “ilhas internas” que ajudam a explicar seu modo de ser, estar, sentir, reagir e se relacionar. Essa metáfora, denominada Arquipélago de Si, foi construída como uma forma de integrar conhecimentos da neurociência, da teoria do apego, da Terapia do Esquema, dos estudos sobre temperamento, estilos parentais e desenvolvimento emocional infantil.


Nesse modelo, o sintoma não é observado de forma isolada. Ele não é visto apenas como um comportamento inadequado, uma dificuldade escolar, uma crise emocional ou uma resposta desafiadora. O sintoma é compreendido como uma forma de comunicação da criança. Por isso, antes de perguntar apenas “como eliminar esse comportamento?”, é necessário compreender: o que esse sintoma está tentando mostrar, para que ele aparece e como os adultos podem ajudar a criança a construir novas formas de funcionamento.


A primeira ilha observada é a ilha do temperamento. Nela, buscamos compreender características mais estáveis da criança, como sua sensibilidade emocional, sua forma de reagir ao estresse, seu nível de organização, sua abertura para novidades, sua amabilidade e sua necessidade de previsibilidade. Uma criança com maior sensibilidade emocional pode precisar de mais acolhimento, tom de voz mais cuidadoso, antecipação das mudanças e validação afetiva. Já uma criança mais prática, objetiva e com maior capacidade de autorregulação pode responder melhor a orientações diretas, combinados claros e metas concretas. Assim, a orientação aos pais não deve ser igual para todas as crianças, pois cada criança navega com um tipo de barco e precisa de suprimentos emocionais diferentes.


A segunda ilha corresponde às necessidades emocionais básicas. Toda criança precisa se sentir segura, amada, vista, protegida, validada e orientada. Também precisa aprender limites, autonomia, espontaneidade e expressão emocional. Quando essas necessidades estão sendo atendidas de maneira equilibrada, a criança tende a permanecer mais regulada. Quando essas necessidades ficam fragilizadas, ela pode passar a expressar sofrimento por meio de ansiedade, irritabilidade, oposição, retraimento, insegurança, explosões emocionais, dificuldades escolares ou comportamentos repetitivos. Nesse sentido, o sintoma pode estar sinalizando uma necessidade emocional que precisa ser melhor compreendida e suprida.


A terceira ilha é a dos estilos parentais. Aqui observamos como os responsáveis orientam, acolhem, corrigem, estabelecem limites e respondem emocionalmente à criança. A parentalidade não é avaliada com julgamento, mas com cuidado clínico. Muitas vezes, os pais repetem padrões que viveram em sua própria infância. Outras vezes, tentam oferecer à criança tudo aquilo que não receberam, mas, nesse movimento, podem se sobrecarregar, ceder demais, proteger em excesso ou perder a direção do barco. Por isso, a devolutiva também olha para os esquemas positivos dos pais, suas forças, seus recursos, seus esforços e sua história.


A quarta ilha envolve os ambientes vividos pela criança: família, escola, rotina, vínculos, experiências de separação, mudanças, perdas, conflitos, cobranças, uso de telas, sono, alimentação e relações sociais. A criança não funciona fora do ambiente. Ela responde ao que vive, ao que percebe e ao que sente. Por isso, compreender o sintoma exige observar onde ele aparece, com quem aparece, em quais momentos aumenta e em quais situações diminui.


Somente depois dessa navegação chegamos à ilha dos sintomas. Nesse momento, o sintoma passa a ser compreendido dentro de uma história. Ele deixa de ser visto como algo solto e passa a ter sentido dentro do funcionamento da criança. A pergunta central não é apenas “qual é o problema?”, mas “qual é o caminho que levou essa criança a funcionar dessa forma?”. Esse olhar integrado permite construir uma intervenção mais precisa, respeitosa e eficaz.


Na devolutiva aos pais, é importante explicar que a criança está em construção. Ela ainda está aprendendo a nomear emoções, tolerar frustrações, organizar pensamentos, esperar, pedir ajuda, lidar com limites e retornar ao seu estado de equilíbrio. O papel dos adultos é funcionar como bússola, porto seguro e orientação de rota. Isso significa acolher sem permitir tudo, corrigir sem ferir, orientar sem humilhar, estabelecer limites sem retirar o afeto.


Também é necessário compreender o aspecto transgeracional. Muitas respostas parentais não começam na relação atual com o filho, mas na história emocional dos próprios pais. Aquilo que foi vivido, faltou, machucou ou foi excessivo pode reaparecer na forma de educar. Em alguns momentos, os pais repetem padrões familiares antigos. Em outros, tentam fazer o oposto, mas acabam se atropelando no desejo de proteger, compensar ou evitar sofrimento. Trazer essa consciência não serve para culpar, mas para ampliar a compreensão e abrir novas possibilidades de cuidado.


Assim, a devolutiva tem como objetivo ajudar os responsáveis a entenderem o funcionamento da criança de maneira simples e integrada. O foco é mostrar o que está acontecendo, para que determinada intervenção será feita e como a família pode continuar esse processo no cotidiano. O caminho terapêutico não busca apenas reduzir sintomas, mas fortalecer recursos internos, ampliar segurança emocional, ajustar práticas parentais e favorecer um desenvolvimento mais saudável.


Portanto, olhar para o filho pelo Arquipélago de Si é olhar para além do comportamento aparente. É compreender seu temperamento, suas necessidades, seus vínculos, seus ambientes, sua história e seus sintomas como partes de um mesmo mapa. Quando os pais conseguem navegar por esse mapa com mais clareza, deixam de agir apenas no susto ou na urgência e passam a conduzir a criança com mais segurança, presença, firmeza e afeto.









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Alguns comportamentos não nascem apenas da falta de limite

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