A separação dos pais é uma decisão dos adultos. A criança não tem culpa pelo que aconteceu e continua precisando sentir que é amada, protegida e importante para ambos. Embora a reorganização da família seja uma realidade vivida por muitas pessoas, é importante lembrar que as mudanças trazidas pela separação são percebidas intensamente pelas crianças, principalmente na primeira infância.
Nessa fase do desenvolvimento, elas ainda não possuem recursos emocionais e cognitivos suficientes para compreender completamente o que está acontecendo. Muitas vezes, não conseguem colocar em palavras aquilo que sentem e acabam expressando suas emoções através do comportamento, do brincar, do sono, da alimentação, da irritabilidade ou da necessidade maior de proximidade com os adultos.
Por isso, a criança não precisa conhecer detalhes dos conflitos do casal. Ela precisa de segurança, previsibilidade, rotina, cuidado emocional e da presença de adultos capazes de acolher seus sentimentos sem colocá-la no meio das dificuldades da relação conjugal.
Algumas atitudes podem ajudar significativamente nesse período de adaptação. Manter uma rotina estável sempre que possível, permitir que a criança fale da saudade, validar sentimentos como tristeza, medo, confusão ou raiva e explicar as mudanças com uma linguagem simples e adequada à idade são medidas que favorecem a segurança emocional.
Também é importante evitar falar mal do outro genitor na frente da criança ou colocá-la em uma posição de escolher lados. A criança precisa sentir que continua sendo filha e que não é responsável pelos conflitos dos adultos. Além disso, oferecer colo, escuta, presença e avisar com antecedência sobre visitas, mudanças e combinações contribui para reduzir a ansiedade e fortalecer o sentimento de previsibilidade.
Em alguns momentos, os comportamentos considerados difíceis podem ser, na verdade, pedidos de ajuda emocional. Regressões, irritabilidade, choro frequente, insegurança, dificuldades para dormir ou maior necessidade de proximidade podem representar tentativas da criança de comunicar aquilo que ainda não consegue verbalizar.
Na clínica psicológica, esses sentimentos podem ser trabalhados por meio do brincar, das histórias, dos desenhos, dos bonecos, das emoções e dos recursos simbólicos. O brincar é a linguagem natural da infância, e através dele a criança consegue expressar e organizar experiências que ainda não consegue elaborar apenas pela fala.
O objetivo do acompanhamento psicológico não é fazer a criança deixar de sentir saudade ou tristeza, mas ajudá-la a compreender que esses sentimentos são legítimos e fazem parte da experiência humana. A criança pode amar os dois pais, sentir falta de um deles, experimentar tristeza, raiva ou confusão e, ainda assim, continuar se desenvolvendo com segurança emocional.
A separação dos pais não precisa destruir a sensação de segurança da criança. O que mais protege seu desenvolvimento é a forma como os adultos conduzem esse processo. Quando existe respeito, responsabilidade afetiva, comunicação adequada e cuidado emocional, é possível construir novas formas de convivência e permitir que a criança continue sendo, acima de tudo, criança.
Kátia Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga
CRP 02/22746
Instagram: @psikatiaguerra
Link: Publicação sobre a importância do Apego Seguro














