sábado

País, seus filhos causam preocupações atualmente?

 





Antes do comportamento: uma viagem pelo Arquipélago de Si


Sejam bem-vindos a este canal.


Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga e pedagoga, formada pela Universidade Federal de Pernambuco na década de 1990. Trabalho com crianças e adolescentes desde 1991. Minha trajetória reúne educação, saúde e cuidado psicológico, com atuação em Terapia Cognitivo-Comportamental e Terapia do Esquema, além de formação em neurociência e trauma na infância. O estudo do apego também orienta meu olhar sobre o desenvolvimento e as relações.


Ao longo dessa caminhada, tenho escutado muitas perguntas de pais e cuidadores: “Por que meu filho reage assim?”, “Por que algo tão pequeno se transforma em uma situação tão difícil?”, “Estou oferecendo demais ou de menos?”, “Como acolher sem deixar de colocar limites?”.


Essas perguntas costumam chegar acompanhadas de cansaço, preocupação e, muitas vezes, culpa. Há famílias que já tentaram conversar, explicar, castigar, recompensar e mudar a rotina. Mesmo assim, continuam sem compreender o que acontece.


Este espaço nasce para ajudar vocês a ampliar esse olhar. Meu convite é que possamos observar o comportamento e conhecer a criança que o apresenta: como ela reage, o que consegue compreender, quais habilidades ainda está desenvolvendo, o que vive em seus ambientes e como encontra apoio nas relações.


Em algumas situações, a orientação aos cuidadores e mudanças no cotidiano podem contribuir bastante. Em outras, será necessário avaliar a criança e construir um acompanhamento específico. Conhecer melhor a situação é o que nos ajuda a escolher o caminho.


Quando a preocupação começa pelo que aparece


Geralmente, os pais procuram ajuda a partir daquilo que conseguem ver: o choro, a irritabilidade, a dificuldade de dormir, o medo de se separar, a recusa em participar, as discussões ou o afastamento.


Essas manifestações merecem atenção. Mas um mesmo comportamento pode acontecer por motivos diferentes.


Duas crianças podem recusar uma atividade: uma porque teme errar; outra porque não compreendeu a tarefa. Outra ainda pode estar cansada, sentir dificuldade sensorial ou ter vivido uma experiência desagradável naquele contexto. A aparência do comportamento pode ser semelhante, enquanto as necessidades de cuidado são distintas.


Por isso, quando digo que “o sintoma pode ser uma linguagem”, utilizo uma metáfora: ele pode oferecer pistas sobre o que acontece com a criança. Isso não significa que toda manifestação esconda uma mensagem emocional, nem que possamos traduzir um comportamento automaticamente.


Precisamos considerar desenvolvimento, saúde, sono, aprendizagem, características do neurodesenvolvimento, experiências de vida e relações. O significado é investigado, não presumido.


É como uma série. Quando começamos pela última temporada, vemos conflitos e reações sem conhecer os acontecimentos que ajudam a compreendê-los. Na vida da criança, o comportamento de hoje também tem um contexto.


Essa metáfora nos convida a conhecer os capítulos anteriores e observar o episódio atual. Não precisamos reconstruir toda a história para começar a ajudar; podemos cuidar do sofrimento presente enquanto compreendemos melhor o que o desencadeia e o mantém.


O Arquipélago de Si: cinco ilhas conectadas


O Arquipélago de Si é a metáfora que utilizo para organizar esse olhar. Ele reúne cinco ilhas: temperamento, necessidades emocionais básicas, estilos parentais, ambientes e sintomas.


As ilhas estão conectadas. Uma mudança na rotina pode aumentar o cansaço; o cansaço pode tornar mais difícil lidar com a frustração; uma resposta adulta mais previsível pode ajudar a criança a atravessar esse momento.


A metáfora funciona como um recurso de psicoeducação e organização de perguntas. Ela não constitui, por si só, um instrumento diagnóstico ou um protocolo empiricamente validado.


A ilha do temperamento: como essa criança costuma reagir?


Algumas crianças se aproximam rapidamente de novidades. Outras observam antes de participar. Algumas expressam emoções com intensidade; outras demonstram pouco, embora possam estar sentindo muito.


O temperamento envolve diferenças individuais na maneira de reagir e regular atenção, emoções e atividade. Conhecê-lo ajuda a ajustar expectativas e formas de cuidado. A Academia Americana de Pediatria destaca a importância de considerar essas diferenças na relação entre pais e filhos. 


Aqui, a pergunta é: “Como posso ajudar esta criança, considerando a maneira como ela funciona?”


Uma criança que precisa de tempo para se adaptar pode se beneficiar de preparação e aproximação gradual. Uma criança muito ativa pode precisar de oportunidades de movimento e instruções curtas. Uma criança que se frustra intensamente pode precisar de mais apoio para aprender a esperar e tentar novamente.


Temperamento não é destino. Também não justifica qualquer comportamento. Ele ajuda a escolher a forma de ensinar.


Na prática, observamos: como a criança reage às mudanças? Quanto tempo leva para se recuperar de uma frustração? Em quais situações consegue lidar melhor? O que facilita sua participação?


A ilha das necessidades emocionais básicas: o que precisa ser cuidado?


Na Terapia do Esquema, as necessidades emocionais básicas ajudam a compreender o desenvolvimento de padrões de interpretação, emoção e relacionamento. Na formulação clássica de Young, Klosko e Weishaar (2008), elas abrangem:


-Vínculos seguros, com proteção, estabilidade, cuidado e aceitação.

- Autonomia, competência e senso de identidade.

- Liberdade para expressar necessidades e emoções.

- Espontaneidade e brincar.

- Limites realistas e autocontrole.


Essas necessidades coexistem. A criança precisa de acolhimento e de oportunidades para desenvolver autonomia. Precisa brincar, expressar emoções e aprender que suas ações têm consequências.


Atender às necessidades emocionais não significa realizar todos os desejos. O desejo pode ser continuar brincando por mais uma hora; a necessidade pode envolver descanso, previsibilidade e ajuda para encerrar uma atividade prazerosa.


É possível dizer: “Eu sei que você queria continuar. É difícil parar quando está divertido. Agora vamos guardar, e eu vou ajudar você a começar”.


Nesse exemplo, o adulto reconhece a experiência da criança e sustenta o limite.


Relações com respostas atentas aos sinais infantis contribuem para o desenvolvimento. Isso envolve perceber as iniciativas da criança e responder de maneira apropriada, em trocas que se constroem no cotidiano. 


A pergunta desta ilha é: “Que necessidade pode estar envolvida nesta situação e como posso cuidar dela de maneira adequada?”


A ilha dos estilos parentais: como respondemos ao que acontece?


Quando o filho chora, se recusa ou desafia uma regra, o adulto também sente. Pode surgir irritação, medo, impotência, vergonha ou a sensação de estar sendo desrespeitado.


Essas reações influenciam a resposta que damos. Por isso, observar a criança também envolve reconhecer o que acontece conosco.


Os estilos parentais ajudam a pensar em padrões de acolhimento, comunicação, exigência e limites. Contudo, uma situação isolada não define uma família. É possível responder com firmeza em um momento e, em outro, ceder por exaustão. A compreensão exige observar a frequência e o contexto dessas respostas.


A maneira como os pais interpretam o comportamento também é influenciada por seu próprio temperamento, humor e pressões cotidianas. 


Aqui entra uma pergunta delicada: “O que o comportamento do meu filho desperta em mim?”


Talvez seu choro encontre uma história em que você ouviu que sentir era fraqueza. Talvez sua dificuldade para obedecer desperte medo de perder o controle. Talvez sua frustração faça você querer resolver tudo rapidamente, porque se lembra de ter enfrentado dificuldades sem apoio.


Revisitar a criança que fomos pode ajudar a reconhecer essas influências. Algumas vezes repetimos formas de cuidado conhecidas; outras vezes tentamos oferecer o oposto daquilo que recebemos. Mesmo com boa intenção, podemos ter dificuldade para perceber o que o filho precisa hoje.


Por exemplo, alguém que viveu muitas restrições pode sentir dificuldade para estabelecer limites. Alguém que foi muito criticado pode tentar impedir qualquer experiência de erro ou frustração.


São possibilidades a serem examinadas, não conclusões automáticas.


A história dos pais merece cuidado. O objetivo dessa reflexão é ampliar a liberdade para responder ao presente, sem transformar a infância dos adultos em uma explicação única para o sofrimento dos filhos.


A ilha dos ambientes: onde essa criança vive?


A criança participa de diferentes ambientes: casa, escola, família ampliada, comunidade e espaços digitais. Em cada um deles, encontra expectativas, relações, estímulos e desafios.


Como está seu sono? Há tempo para brincar? A rotina permite descanso? Ela compreende o que é esperado? Está enfrentando conflitos, exclusão ou dificuldades de aprendizagem? Houve mudanças familiares importantes?


O desenvolvimento ocorre na interação entre características individuais, relações e condições ambientais. Por isso, é necessário observar também os recursos e as pressões que cercam a criança e seus cuidadores. 


Uma família sobrecarregada pode precisar de apoio concreto para conseguir oferecer mais previsibilidade. Uma criança com dificuldade escolar pode precisar de adaptações, e não apenas de incentivos para “se esforçar mais”.


A pergunta desta ilha é: “O que, neste ambiente, aumenta a dificuldade e o que pode facilitar o cuidado?”


A ilha dos sintomas: o que aparece e como interfere na vida?


Chegamos à ilha que costuma motivar a busca por ajuda. Aqui observamos medos, irritabilidade, retraimento, dificuldades de sono, conflitos e outras manifestações.


Precisamos investigar quando começaram, com que frequência aparecem, quanto duram, em quais situações ocorrem e como interferem na vida da criança.


Também buscamos exceções: quando ela consegue lidar melhor? Com quem se sente mais à vontade? O que acontece de diferente nesses momentos?


Nesta metáfora, “sintomas” designa manifestações que preocupam ou produzem sofrimento. Eles não são sinônimos de esquemas da Terapia do Esquema. Esquemas são padrões mais amplos de significados e experiências, cuja investigação exige cuidado clínico.


A pergunta desta ilha é: “O que precisa de ajuda agora e quais informações podem orientar essa ajuda?”


Como as ilhas se encontram em uma situação cotidiana


Imagine uma criança que começa a chorar intensamente quando precisa sair de casa para a escola.


Na ilha do temperamento, podemos investigar como ela lida com transições. Na ilha das necessidades, observamos segurança, previsibilidade e autonomia. Na ilha dos estilos parentais, examinamos como os adultos respondem ao choro. Na ilha dos ambientes, buscamos informações sobre sono, rotina, aprendizagem e relações escolares. Na ilha dos sintomas, avaliamos intensidade, duração e prejuízo.


Nenhuma dessas perguntas, sozinha, explica a situação.


A partir dessa compreensão, podemos organizar despedidas mais previsíveis, investigar dificuldades escolares, apoiar os cuidadores e avaliar a necessidade de acompanhamento. A intervenção ganha direção porque considera a criança e o contexto em que o comportamento acontece.


Perguntas que os pais costumam trazer


As respostas abaixo são pontos de partida para observação e conversa. Precisam ser ajustadas à idade e à situação de cada criança.


“Meu filho explode quando escuta um ‘não’. O que faço?”


Observe como o limite é apresentado, o que aconteceu antes e se há cansaço ou dificuldade com transições. Durante a reação intensa, priorize segurança e use poucas palavras: “Você ficou muito bravo. Eu vou ajudar. Bater não pode”. Quando estiver mais tranquilo, ensine uma alternativa para expressar a frustração.


“Minha filha pede desculpas por tudo, até quando não fez nada errado.”


Vale observar medo de errar, busca de aprovação e experiências de crítica. Diferencie erro de identidade: “Isso aconteceu sem querer. Vamos resolver juntos”. Se o padrão for persistente ou causar sofrimento, merece ser compreendido com mais profundidade.


“Meu filho não quer ficar longe de mim.”


Considere idade, mudanças recentes e experiências de separação. Uma despedida previsível e oportunidades graduais de permanecer com pessoas de confiança podem ajudar. O cuidado deve favorecer segurança e autonomia, respeitando o nível de dificuldade da criança.


“Ela só obedece quando eu grito.”


Observe o ciclo entre vocês. O pedido é claro? A criança compreendeu? O adulto repete muitas vezes antes de agir? Experimente aproximar-se, dar uma orientação por vez e acompanhar o combinado com consistência. Também é importante cuidar da sobrecarga que leva o adulto a perder a paciência.


“Meu filho fica quieto na escola, mas desaba quando chega em casa.”


Investigue o esforço exigido durante o dia, as relações escolares, fome, cansaço e estímulos. Um período de descanso e reconexão pode ser útil. Esse padrão, sozinho, não comprova segurança do apego nem descarta dificuldades na escola.


“Meu adolescente se fecha e não quer conversar.”


A busca por privacidade faz parte do desenvolvimento, mas mudanças marcantes merecem atenção. Crie momentos de convivência com menos cobrança: “Percebi você mais distante. Estou disponível para ouvir”. Observe também sono, amizades, interesse pelas atividades e funcionamento escolar.


“Ofereço tudo e, mesmo assim, parece que nada é suficiente.”


Vale diferenciar recursos materiais, desejos e necessidades emocionais. Como estão os momentos de atenção compartilhada? Há espaço para o filho ser ouvido, participar e enfrentar desafios possíveis? Presença e limites consistentes também fazem parte do cuidado.


“Tenho medo de repetir com meu filho o que fizeram comigo.”


Reconhecer esse medo já permite começar a observar suas respostas. Pergunte: “Quando reajo assim, o que estou sentindo e tentando evitar?”. Se essas experiências provocam sofrimento intenso ou interferem repetidamente na relação, buscar cuidado para você pode ajudar.


“Como sei se precisamos de orientação parental ou de atendimento para a criança?”


Essa decisão depende de avaliação. Orientação parental pode contribuir quando mudanças nas respostas adultas e na rotina são relevantes. Se há sofrimento persistente, prejuízo importante ou dúvidas sobre saúde e desenvolvimento, a criança pode precisar de avaliação e acompanhamento. Muitas vezes, os dois cuidados caminham juntos.


Um pequeno exercício para começar


Escolha uma situação recente e procure descrevê-la sem rótulos. Em vez de “meu filho é impossível”, registre o que ele fez, onde estava e o que aconteceu.


Depois, observe:


- O que aconteceu antes?

-Como estavam seu descanso e sua rotina?

- O que essa situação exigia dele?

-Como os adultos responderam?

- O que aconteceu depois?

- Em uma situação parecida, quando ele conseguiu lidar melhor?


Essas perguntas ajudam a transformar uma preocupação ampla em informações que podem orientar o cuidado.


Um convite para olhar com mais compreensão


Você não precisa ter todas as respostas para começar a compreender seu filho. Precisa de espaço para observar, apoio para refletir e disponibilidade para ajustar o que for necessário.


A criança também está aprendendo: a reconhecer emoções, pedir ajuda, esperar, lidar com frustrações e participar das relações. Os adultos podem oferecer condições para esse aprendizado, ao mesmo tempo que cuidam de suas próprias dificuldades.


No Arquipélago de Si, o convite é conhecer as conexões entre as ilhas. O comportamento recebe atenção junto com a história, as habilidades, as relações e as condições de vida.


Talvez a pergunta que abra esse caminho seja:


“O que meu filho ainda precisa aprender e de que apoio precisa para conseguir?”


Neste canal, vamos conversar sobre essas questões com cuidado, exemplos do cotidiano e respeito às diferentes famílias.


Qual dessas ilhas você gostaria de conhecer primeiro?


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga | Pedagoga

CRP 02/22746

@psikatiaguerra


Referências


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Normal child behavior. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/family-life/family-dynamics/communication-discipline/Pages/Normal-Child-Behavior.aspx


American Academy of Pediatrics. (n.d.). Understanding your child’s temperament: Why it’s important. HealthyChildren.org. https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/gradeschool/Pages/How-to-Understand-Your-Childs-Temperament.aspx


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). An expanded story of early childhood development. https://developingchild.harvard.edu/key-concepts/what-surrounds-us-shapes-us/


Center on the Developing Child at Harvard University. (n.d.). Serve and return. https://developingchild.harvard.edu/key-concept/serve-and-return/


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

sexta-feira

A Reparentalização Limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

 


A reparentalização limitada na Terapia do Esquema: o cuidado terapêutico e a construção da autonomia emocional

A Terapia do Esquema oferece uma compreensão do sofrimento psicológico que articula experiências de desenvolvimento, necessidades emocionais, padrões de interpretação e estratégias de enfrentamento. Nessa perspectiva, as dificuldades apresentadas pelo paciente são examinadas em relação à maneira como ele aprendeu a perceber a si mesmo, a interpretar as relações e a responder às situações emocionalmente significativas. Young et al. (2008) propõem uma abordagem que integra intervenções cognitivas, comportamentais, experienciais e relacionais, permitindo trabalhar tanto a compreensão dos padrões quanto sua transformação na vida cotidiana.

Entre os componentes dessa abordagem, a reparentalização limitada ocupa um lugar central por utilizar a relação terapêutica como espaço de atendimento parcial às necessidades emocionais insuficientemente satisfeitas ao longo do desenvolvimento. O terapeuta oferece acolhimento, validação, proteção, orientação e limites, respeitando o enquadre profissional e os objetivos do tratamento. Sua atuação procura favorecer experiências relacionais que contribuam para modificar padrões desadaptativos e fortalecer recursos internos do paciente (Young et al., 2008).

Nesta análise, compreendo a reparentalização limitada como uma forma de cuidado que articula sensibilidade e responsabilidade. Sua importância está na possibilidade de o paciente experimentar uma relação em que suas emoções sejam reconhecidas, suas necessidades possam ser expressas e suas dificuldades sejam abordadas sem humilhação. Esse cuidado precisa estar associado ao desenvolvimento da autonomia, para que aquilo que é inicialmente experimentado na relação terapêutica possa ser incorporado à maneira como a pessoa se relaciona consigo mesma e com os outros.

Os esquemas iniciais desadaptativos constituem padrões amplos e persistentes que envolvem memórias, emoções, cognições e sensações corporais relacionadas à percepção de si e das relações. Segundo Young et al. (2008), sua formação está associada à interação entre o temperamento e as experiências de desenvolvimento, especialmente quando necessidades emocionais fundamentais não são adequadamente atendidas. Esses padrões podem continuar influenciando a vida adulta, mesmo quando as circunstâncias que contribuíram para sua formação já se modificaram.

Essa compreensão exige uma investigação cuidadosa. A presença de um esquema não permite concluir automaticamente que determinada experiência ocorreu na infância. Na minha interpretação, a conceitualização de caso deve organizar hipóteses, preservando a possibilidade de revisão. A história relatada, os problemas atuais, as condições de vida e os recursos do paciente precisam ser considerados em conjunto, evitando explicações que reduzam toda a complexidade do sofrimento a uma única relação ou acontecimento.

As necessidades emocionais básicas ocupam uma posição estruturante nesse processo. Young et al. (2008) destacam necessidades de vínculo seguro, autonomia e competência, liberdade de expressão de necessidades e emoções, espontaneidade e lazer, além de limites realistas e autocontrole. A reparentalização limitada deve ser orientada pelas necessidades mais relevantes para cada pessoa, reconhecendo que acolher também pode envolver incentivar escolhas, estabelecer limites e ajudar a enfrentar situações difíceis.

A partir dessa perspectiva, considero que o cuidado terapêutico precisa ser ajustado ao paciente. Uma pessoa marcada por experiências de crítica pode necessitar de uma relação em que o erro seja abordado com respeito e possibilidade de reparação. Outra, que aprendeu a silenciar suas necessidades, pode precisar de incentivo para expressar discordâncias. Quando predominam insegurança e dependência, a intervenção pode combinar proteção emocional com oportunidades graduais de decisão. O sentido do cuidado depende de sua função na conceitualização clínica.

A compreensão das estratégias de enfrentamento também é fundamental. Young et al. (2008) descrevem respostas de resignação, evitação e hipercompensação diante da ativação dos esquemas. Embora possam reduzir o sofrimento em determinadas situações, essas respostas podem contribuir para a manutenção dos padrões desadaptativos. A pessoa que evita proximidade para não ser rejeitada, por exemplo, pode encontrar alívio imediato, mas também limitar experiências de apoio e pertencimento.

Na minha leitura clínica, reconhecer a função protetora dessas estratégias favorece uma intervenção mais respeitosa. Antes de buscar sua modificação, é necessário compreender o que elas tentam evitar e quais consequências produzem. Esse reconhecimento permite conversar sobre o sofrimento sem transformar a proteção aprendida em motivo de censura. Ao mesmo tempo, abre espaço para examinar se a estratégia continua sendo necessária ou se existem alternativas mais adequadas às condições atuais.

O trabalho com os modos esquemáticos aprofunda essa investigação. Os modos correspondem a estados emocionais e respostas de enfrentamento que se tornam predominantes em determinado momento. Na proposta de Young et al. (2008), a intervenção procura atender à vulnerabilidade, reduzir a influência de modos disfuncionais e fortalecer o modo Adulto Saudável. A reparentalização limitada participa desse processo ao oferecer respostas que o paciente ainda apresenta dificuldade de produzir por conta própria.

Compreendo o fortalecimento do Adulto Saudável como o desenvolvimento da capacidade de acolher emoções, avaliar situações, estabelecer limites e agir com responsabilidade. Isso inclui reconhecer a dor sem se abandonar a ela, questionar mensagens internas punitivas e buscar apoio quando necessário. A autonomia emocional pode, assim, ser entendida como a capacidade de cuidar de si e participar de relações de reciprocidade, preservando o direito de precisar de outras pessoas.

A confrontação empática contribui para esse desenvolvimento. Young et al. (2008) articulam a compreensão das origens dos padrões com o questionamento de suas consequências atuais. O terapeuta reconhece a experiência emocional do paciente e o ajuda a perceber como determinadas respostas podem manter seu sofrimento. Essa postura permite que acolhimento e mudança sejam trabalhados conjuntamente.

Considero que essa articulação evita dois riscos clínicos: validar de maneira indiscriminada respostas prejudiciais ou confrontá-las sem compreender a vulnerabilidade envolvida. A intervenção precisa reconhecer o sentimento e, simultaneamente, examinar interpretações e comportamentos. Sentir medo de rejeição, por exemplo, merece acolhimento; concluir que toda demora representa abandono exige investigação.

Um exemplo fictício ilustra essa possibilidade. Uma paciente interpreta a ausência de resposta a uma mensagem como evidência de desinteresse. Sente vergonha por precisar de atenção e se afasta da relação. Na sessão, a terapeuta pode ajudá-la a reconhecer a necessidade de consideração, compreender o afastamento como tentativa de proteção e examinar outras explicações para o acontecimento. Posteriormente, podem construir uma forma de comunicação mais clara, que permita expressar a necessidade sem transformar a incerteza em certeza de rejeição.

Nesse caso, a reparentalização limitada se manifesta na qualidade da resposta terapêutica e na maneira como essa resposta é elaborada. O acolhimento permite que a paciente entre em contato com a experiência; a investigação amplia sua compreensão; e a prática comportamental favorece novas possibilidades fora da sessão. O exemplo representa uma aplicação interpretativa dos fundamentos da abordagem, e não um procedimento obrigatório.

As técnicas cognitivas, experienciais e comportamentais ampliam esse trabalho. Young et al. (2008) apresentam recursos para examinar crenças, trabalhar experiências emocionais e romper padrões de comportamento. A ressignificação por imagens e os diálogos entre diferentes posições internas podem ajudar o paciente a reconhecer necessidades e desenvolver respostas alternativas. Sua utilização deve estar vinculada à conceitualização e à capacidade de participação da pessoa naquele momento.

Na minha interpretação, a profundidade de uma intervenção não deve ser medida pela intensidade emocional que ela provoca. O trabalho precisa permitir compreensão, elaboração e integração. É necessário respeitar o ritmo do paciente, explicar o propósito dos exercícios e reconhecer sua liberdade para discordar ou interromper. A experiência terapêutica deve favorecer participação e segurança.

O caráter limitado da reparentalização também precisa permanecer explícito. A relação acontece dentro de um contexto profissional, com condições de atendimento e disponibilidade definidas. Conforme a proposta de Young et al. (2008), o cuidado oferecido deve respeitar esses limites. A previsibilidade do enquadre constitui parte importante da experiência relacional, pois permite trabalhar necessidades e frustrações em condições que possam ser sustentadas.

Entendo que estabelecer limites com respeito pode representar uma intervenção reparadora. A terapeuta pode reconhecer o sofrimento associado a uma ausência ou mudança de horário, conversar sobre seus significados e planejar recursos para o intervalo. A manutenção do vínculo não exige eliminar toda frustração; exige abordá-la de modo compreensível e consistente.

Esse processo também demanda atenção às respostas emocionais da profissional. O desejo de proteger, aliviar rapidamente o sofrimento ou evitar conflitos pode interferir nas decisões clínicas. A reflexão e a supervisão ajudam a distinguir uma intervenção orientada pelas necessidades do paciente de uma resposta motivada principalmente pelo desconforto da terapeuta.

Por fim, considero que os resultados desse cuidado precisam ser acompanhados na vida cotidiana. A capacidade de expressar necessidades, reconhecer emoções, estabelecer limites e construir relações mais satisfatórias oferece indicadores relevantes de mudança. A experiência vivida na terapia ganha alcance quando o paciente passa a utilizar esses recursos em outros contextos.

A reparentalização limitada pode, portanto, ser compreendida como uma intervenção que combina vínculo, elaboração emocional e aprendizagem. Fundamentada na Terapia do Esquema, sua aplicação requer conceitualização individualizada, sensibilidade às necessidades e clareza sobre os limites profissionais. Nesta análise, seu propósito central é contribuir para que o paciente desenvolva uma relação consigo mesmo que permita acolher sua vulnerabilidade, exercer responsabilidade e construir escolhas mais autônomas.


Referência

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

terça-feira

Apego seguro: segurança emocional não significa ausência de limites

 

Quando falamos em apego seguro, não estamos falando de uma infância sem frustrações, conflitos ou limites. Uma relação segura não exige cuidadores perfeitos. Ela é construída, principalmente, por experiências repetidas nas quais a criança encontra disponibilidade, proteção, acolhimento e respostas suficientemente previsíveis quando precisa do adulto.


Na prática, oferecer segurança também significa estabelecer limites claros e adequados à idade. A criança pode ouvir “não”, esperar, lidar com pequenas frustrações e aprender que nem todos os seus desejos serão atendidos. O que faz diferença é a maneira como o adulto permanece emocionalmente disponível durante esses momentos: é possível sustentar um limite e, ao mesmo tempo, reconhecer o sentimento da criança.


Ao longo do desenvolvimento, essas experiências ajudam a criança a construir confiança para explorar o mundo e retornar à sua base de segurança quando necessário. Aos poucos, aquilo que inicialmente acontece na relação com o cuidador também participa do desenvolvimento de recursos para reconhecer emoções, buscar ajuda e se reorganizar diante de situações difíceis.


Por isso, acolher não é permitir tudo. Segurança emocional envolve afeto, previsibilidade, proteção e limites. Quando o adulto consegue comunicar “eu compreendo o que você está sentindo, estou aqui com você, mas esse limite continua existindo”, ele oferece à criança uma experiência importante: emoções podem ser acolhidas sem que os limites desapareçam.


Apego seguro não é criar um mundo sem frustrações. É oferecer uma relação suficientemente segura para que a criança aprenda a atravessá-las.


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica 

 CRP 02/22746

Apego inseguro na infância: o que é e como pode se manifestar?

 Apego inseguro na infância: o que é e como pode se manifestar?


Quando falamos em apego, estamos falando de uma necessidade humana básica: buscar proximidade e segurança nas relações significativas. Desde os primeiros anos de vida, a criança aprende, por meio das experiências repetidas com seus cuidadores, se pode procurar o outro quando sente medo, desconforto, tristeza ou necessidade de proteção. Essas experiências participam da construção de suas expectativas sobre si mesma, sobre o outro e sobre as relações.


O apego inseguro não é um diagnóstico e não significa falta de amor. Ele se refere a padrões relacionais que podem se desenvolver quando a criança encontra dificuldades para experimentar segurança, disponibilidade ou previsibilidade nas relações de cuidado. Dependendo de sua história e de suas características individuais, ela pode intensificar a busca por proximidade, evitar demonstrar necessidades emocionais ou apresentar respostas mais contraditórias diante da aproximação e do afastamento.


Na vida cotidiana, isso nem sempre aparece de maneira óbvia. Algumas crianças podem demonstrar maior dificuldade diante de separações; outras parecem excessivamente independentes e evitam pedir ajuda. Também podem surgir dificuldades para confiar, expressar necessidades ou se reorganizar emocionalmente diante de determinadas situações. Nenhum desses comportamentos, isoladamente, permite definir um padrão de apego. É necessário compreender a criança dentro de sua história, de suas relações e de seu contexto de desenvolvimento.


A boa notícia é que desenvolvimento não significa destino. Relações responsivas, experiências de segurança, corregulação, fortalecimento dos cuidadores e intervenções psicológicas adequadas podem oferecer novas experiências relacionais ao longo do desenvolvimento. Por isso, quando uma criança apresenta um comportamento difícil, talvez uma das perguntas mais importantes não seja apenas “como faço esse comportamento parar?”, mas também: “o que essa criança pode estar precisando comunicar?”


Compreender o apego é justamente ampliar o olhar: ir além do comportamento para compreender a necessidade emocional que pode existir por trás dele.


Kátia Regina Neves Baptista Guerra

Psicóloga Clínica 

CRP 02/22746

quarta-feira

Intervenção em momentos de ansiedade no consultório

 Por que, na minha prática clínica, eu primeiro acalmo o corpo e só depois trabalho os pensamentos?





Uma das perguntas que os pais mais fazem durante o processo terapêutico é: “Por que, quando meu filho está em uma crise de ansiedade, você não começa conversando ou explicando imediatamente o que está acontecendo?”


A resposta está na forma como nosso cérebro e nosso sistema nervoso funcionam.


Quando uma criança, um adolescente ou mesmo um adulto entra em uma crise de ansiedade, em um ataque de pânico ou em um momento de intensa desregulação emocional, o corpo interpreta aquela situação como se existisse um perigo real. O organismo entra em estado de alerta e ativa um conjunto de respostas automáticas de sobrevivência. O coração acelera, a respiração muda, os músculos ficam tensos, as mãos podem suar, o estômago “embrulha”, surgem tremores, sensação de falta de ar, vontade de fugir, de chorar ou até mesmo de se isolar.


Nesse momento, o cérebro está concentrado em proteger a pessoa. Por isso, áreas responsáveis pelo raciocínio, pela reflexão, pelo planejamento e pela aprendizagem ficam temporariamente menos disponíveis. É justamente por esse motivo que, durante uma crise, longas explicações, sermões ou tentativas de convencer a criança de que “não há motivo para ficar assim” costumam produzir pouco efeito.


Na minha prática clínica, utilizo esse conhecimento para orientar a intervenção. Antes de qualquer estratégia cognitiva, meu primeiro objetivo é ajudar o sistema nervoso a perceber que ele está seguro.


Isso significa que eu começo regulando o corpo.


Primeiro, ajudo a criança, o adolescente ou o adulto a diminuir o estado de alerta. Utilizo estratégias de ancoragem, orientação para o ambiente, consciência corporal, percepção dos pés apoiados no chão, respiração confortável, movimentos suaves e recursos que favorecem a sensação de segurança. Ao mesmo tempo, ofereço uma presença calma, uma voz tranquila e um ambiente previsível, porque o sistema nervoso também se regula por meio da relação com o outro.


Somente quando observo que o organismo começa a sair desse estado de hiperativação é que iniciamos a segunda etapa do trabalho.


É nesse momento que explico o que é a ansiedade, por que o corpo reagiu daquela maneira e quais sinais ele estava tentando comunicar. A criança aprende a reconhecer o que acontece com seu coração, sua respiração, seus músculos e seus pensamentos. Ela começa a perceber que aqueles sintomas, embora sejam muito desconfortáveis, representam uma resposta de proteção do organismo e não um sinal de que algo grave necessariamente está acontecendo.


Depois dessa compreensão, torna-se possível trabalhar os pensamentos, as emoções, os comportamentos e as situações que desencadearam aquela resposta. A partir daí, utilizo recursos da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e de outras abordagens baseadas em evidências para desenvolver novas formas de enfrentamento, fortalecer habilidades de regulação emocional e construir respostas mais saudáveis diante das dificuldades da vida.


Em outras palavras, o processo terapêutico segue uma sequência lógica.


Primeiro, o corpo precisa sentir segurança.


Depois, a mente consegue compreender.


Só então conseguimos ensinar novas estratégias de pensamento, comportamento e resolução de problemas.


Essa forma de intervenção respeita o funcionamento natural do cérebro e do sistema nervoso. Em vez de exigir que a criança pense de maneira racional quando seu organismo ainda acredita estar em perigo, nós ajudamos primeiro o corpo a desacelerar. Quando isso acontece, a aprendizagem, o diálogo e a reflexão tornam-se muito mais eficazes.


É por isso que costumo dizer aos pais que não adianta tentar conversar com um cérebro que ainda está tentando sobreviver. Antes de ensinar, precisamos regular. Antes de corrigir, precisamos acolher. Antes de pedir que a criança explique o que sente, precisamos ajudá-la a sentir que está segura.


Esse princípio também se aplica aos adolescentes e aos adultos. Independentemente da idade, quando o sistema nervoso está em intenso estado de alerta, o primeiro passo da intervenção é favorecer segurança, presença e regulação fisiológica. Somente depois o cérebro recupera sua capacidade de refletir, organizar emoções, aprender e construir novas formas de responder às experiências.


Essa é a razão pela qual, em minha prática clínica, costumo dizer que a intervenção acontece de baixo para cima: primeiro regulamos o corpo; depois integramos as emoções; e, por fim, trabalhamos os pensamentos, os significados e as mudanças comportamentais. Quando seguimos essa sequência, respeitamos o funcionamento do sistema nervoso e criamos condições para que a psicoterapia seja mais segura, acolhedora e efetiva.




segunda-feira

DEVOLUTIVA AOS PAIS

 




Na devolutiva aos responsáveis, compreendo a criança como alguém em desenvolvimento, navegando por diferentes “ilhas internas” que ajudam a explicar seu modo de ser, estar, sentir, reagir e se relacionar. Essa metáfora, denominada Arquipélago de Si, foi construída como uma forma de integrar conhecimentos da neurociência, da teoria do apego, da Terapia do Esquema, dos estudos sobre temperamento, estilos parentais e desenvolvimento emocional infantil.


Nesse modelo, o sintoma não é observado de forma isolada. Ele não é visto apenas como um comportamento inadequado, uma dificuldade escolar, uma crise emocional ou uma resposta desafiadora. O sintoma é compreendido como uma forma de comunicação da criança. Por isso, antes de perguntar apenas “como eliminar esse comportamento?”, é necessário compreender: o que esse sintoma está tentando mostrar, para que ele aparece e como os adultos podem ajudar a criança a construir novas formas de funcionamento.


A primeira ilha observada é a ilha do temperamento. Nela, buscamos compreender características mais estáveis da criança, como sua sensibilidade emocional, sua forma de reagir ao estresse, seu nível de organização, sua abertura para novidades, sua amabilidade e sua necessidade de previsibilidade. Uma criança com maior sensibilidade emocional pode precisar de mais acolhimento, tom de voz mais cuidadoso, antecipação das mudanças e validação afetiva. Já uma criança mais prática, objetiva e com maior capacidade de autorregulação pode responder melhor a orientações diretas, combinados claros e metas concretas. Assim, a orientação aos pais não deve ser igual para todas as crianças, pois cada criança navega com um tipo de barco e precisa de suprimentos emocionais diferentes.


A segunda ilha corresponde às necessidades emocionais básicas. Toda criança precisa se sentir segura, amada, vista, protegida, validada e orientada. Também precisa aprender limites, autonomia, espontaneidade e expressão emocional. Quando essas necessidades estão sendo atendidas de maneira equilibrada, a criança tende a permanecer mais regulada. Quando essas necessidades ficam fragilizadas, ela pode passar a expressar sofrimento por meio de ansiedade, irritabilidade, oposição, retraimento, insegurança, explosões emocionais, dificuldades escolares ou comportamentos repetitivos. Nesse sentido, o sintoma pode estar sinalizando uma necessidade emocional que precisa ser melhor compreendida e suprida.


A terceira ilha é a dos estilos parentais. Aqui observamos como os responsáveis orientam, acolhem, corrigem, estabelecem limites e respondem emocionalmente à criança. A parentalidade não é avaliada com julgamento, mas com cuidado clínico. Muitas vezes, os pais repetem padrões que viveram em sua própria infância. Outras vezes, tentam oferecer à criança tudo aquilo que não receberam, mas, nesse movimento, podem se sobrecarregar, ceder demais, proteger em excesso ou perder a direção do barco. Por isso, a devolutiva também olha para os esquemas positivos dos pais, suas forças, seus recursos, seus esforços e sua história.


A quarta ilha envolve os ambientes vividos pela criança: família, escola, rotina, vínculos, experiências de separação, mudanças, perdas, conflitos, cobranças, uso de telas, sono, alimentação e relações sociais. A criança não funciona fora do ambiente. Ela responde ao que vive, ao que percebe e ao que sente. Por isso, compreender o sintoma exige observar onde ele aparece, com quem aparece, em quais momentos aumenta e em quais situações diminui.


Somente depois dessa navegação chegamos à ilha dos sintomas. Nesse momento, o sintoma passa a ser compreendido dentro de uma história. Ele deixa de ser visto como algo solto e passa a ter sentido dentro do funcionamento da criança. A pergunta central não é apenas “qual é o problema?”, mas “qual é o caminho que levou essa criança a funcionar dessa forma?”. Esse olhar integrado permite construir uma intervenção mais precisa, respeitosa e eficaz.


Na devolutiva aos pais, é importante explicar que a criança está em construção. Ela ainda está aprendendo a nomear emoções, tolerar frustrações, organizar pensamentos, esperar, pedir ajuda, lidar com limites e retornar ao seu estado de equilíbrio. O papel dos adultos é funcionar como bússola, porto seguro e orientação de rota. Isso significa acolher sem permitir tudo, corrigir sem ferir, orientar sem humilhar, estabelecer limites sem retirar o afeto.


Também é necessário compreender o aspecto transgeracional. Muitas respostas parentais não começam na relação atual com o filho, mas na história emocional dos próprios pais. Aquilo que foi vivido, faltou, machucou ou foi excessivo pode reaparecer na forma de educar. Em alguns momentos, os pais repetem padrões familiares antigos. Em outros, tentam fazer o oposto, mas acabam se atropelando no desejo de proteger, compensar ou evitar sofrimento. Trazer essa consciência não serve para culpar, mas para ampliar a compreensão e abrir novas possibilidades de cuidado.


Assim, a devolutiva tem como objetivo ajudar os responsáveis a entenderem o funcionamento da criança de maneira simples e integrada. O foco é mostrar o que está acontecendo, para que determinada intervenção será feita e como a família pode continuar esse processo no cotidiano. O caminho terapêutico não busca apenas reduzir sintomas, mas fortalecer recursos internos, ampliar segurança emocional, ajustar práticas parentais e favorecer um desenvolvimento mais saudável.


Portanto, olhar para o filho pelo Arquipélago de Si é olhar para além do comportamento aparente. É compreender seu temperamento, suas necessidades, seus vínculos, seus ambientes, sua história e seus sintomas como partes de um mesmo mapa. Quando os pais conseguem navegar por esse mapa com mais clareza, deixam de agir apenas no susto ou na urgência e passam a conduzir a criança com mais segurança, presença, firmeza e afeto.









Jogo Bicho Zangados na Psicologia Clínica com uso estruturado com finalidades terapêuticas.

 O uso do jogo Bichos Zangados na Psicologia Infantil e Juvenil: contribuições da TCC, da Terapia do Esquema e da Neurociência





A infância é um período fundamental para o desenvolvimento das habilidades de autorregulação emocional, controle inibitório e aprendizagem social. Crianças que apresentam impulsividade, baixa tolerância à frustração, irritabilidade intensa e dificuldades para reconhecer e expressar emoções podem apresentar prejuízos no ambiente familiar, escolar e nas relações interpessoais. Nesse contexto, o brincar constitui uma importante ferramenta terapêutica, pois representa a linguagem natural da criança e favorece a expressão de sentimentos, pensamentos e comportamentos que ainda não conseguem ser plenamente verbalizados.


O jogo Bichos Zangados é um jogo comercial que pode ser utilizado como recurso lúdico-terapêutico em contextos clínicos, escolares e familiares. Quando mediado pelo profissional, favorece o desenvolvimento da consciência emocional, do autocontrole, do freio inibitório e da resolução de problemas, transformando a experiência do brincar em uma oportunidade de aprendizagem socioemocional.


Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), os comportamentos impulsivos e as reações intensas de raiva são compreendidos a partir da interação entre pensamentos, emoções e comportamentos. Muitas crianças apresentam respostas automáticas diante da frustração, reagindo antes de conseguirem refletir sobre as consequências de seus atos. Nesse sentido, a utilização de jogos permite trabalhar, de maneira concreta e experiencial, a identificação das emoções, a tolerância à espera, a resolução de problemas e a construção de estratégias mais adaptativas para lidar com situações difíceis (Young et al., 2008).


Sob a perspectiva da Terapia do Esquema para crianças e adolescentes, comportamentos explosivos e impulsivos podem refletir a ativação dos modos Criança Zangada e Criança Impulsiva. Essas respostas frequentemente representam tentativas de lidar com necessidades emocionais básicas que não foram suficientemente atendidas, como segurança, acolhimento, validação emocional e limites adequados. O trabalho terapêutico busca proporcionar experiências emocionais corretivas por meio da validação, do estabelecimento de limites saudáveis e do fortalecimento gradual do Modo Adulto Saudável, adaptado à realidade do desenvolvimento infantil (Reis, 2019).


A neurociência do desenvolvimento oferece importantes contribuições para a compreensão dessas dificuldades. Daniel Siegel (2015) destaca que as funções executivas, como controle inibitório, planejamento, flexibilidade cognitiva e regulação emocional, dependem do amadurecimento do córtex pré-frontal. Embora esse processo se inicie na infância, o desenvolvimento cerebral ocorre de maneira gradual e prolongada, estendendo-se até o início da vida adulta. Atualmente, estudos em neurodesenvolvimento apontam que a maturação funcional completa dessas regiões pode ocorrer por volta dos 25 anos. Isso significa que crianças e adolescentes ainda não possuem plenamente desenvolvida a capacidade de regular emoções e impulsos de maneira independente.


Dessa forma, a criança não nasce sabendo se acalmar, esperar, tolerar frustrações ou demonstrar empatia. Essas habilidades são aprendidas nas relações. Bruce Perry e Oprah Winfrey (2022) enfatizam que o cérebro é moldado pelas experiências repetidas e pelas relações de cuidado. Antes de desenvolver a autorregulação, a criança necessita da co-regulação proporcionada pelos adultos significativos. Pais, cuidadores, professores e terapeutas funcionam como reguladores externos, emprestando sua calma, sua capacidade de reflexão e sua empatia para que, progressivamente, essas habilidades sejam internalizadas.


Daniel Siegel (2015) descreve esse processo como “integração cerebral”, ressaltando que a repetição de experiências seguras e responsivas fortalece os circuitos neurais envolvidos na regulação emocional. Em outras palavras, a criança aprende empatia sendo tratada com empatia, aprende calma sendo acalmada e aprende autocontrole através das experiências repetidas de co-regulação. Não se trata apenas de ensinar regras ou impor limites, mas de oferecer experiências emocionais que promovam a maturação das redes neurais relacionadas às funções executivas.


Nesse contexto, recursos lúdicos como o jogo Bichos Zangados permitem criar experiências seguras e estruturadas para que a criança possa reconhecer emoções, tolerar a frustração, pensar antes de agir e experimentar novas formas de lidar com sentimentos intensos. Durante a brincadeira, o psicólogo atua como um facilitador desse processo, validando emoções, modelando respostas mais adaptativas e favorecendo o desenvolvimento do autocontrole e das habilidades sociais.


Assim, mais do que um simples passatempo, os jogos comerciais utilizados com finalidade terapêutica tornam-se instrumentos importantes para o desenvolvimento emocional, cognitivo e relacional. Sob a ótica da Terapia Cognitivo-Comportamental, da Terapia do Esquema e da Neurociência do Desenvolvimento, o brincar constitui um espaço privilegiado para que a criança construa gradualmente as capacidades que, no futuro, permitirão uma maior autonomia emocional e social.


Referências


Perry, B. D., & Winfrey, O. (2022). O que aconteceu com você? Conversas sobre trauma, resiliência e cura. Sextante.


Reis, A. H. (Org.). (2019). Terapia do esquema com crianças e adolescentes: Do modelo teórico à prática clínica. Episteme.


Siegel, D. J., & Bryson, T. P. (2015). O cérebro da criança: 12 estratégias revolucionárias para nutrir a mente em desenvolvimento do seu filho e ajudar sua família a prosperar. nVersos.


Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras. Artmed.

ORIENTAÇÃO PARENTAL

 


A importância da orientação parental na clínica infantojuvenil: um olhar integrado ao sintoma


Na psicologia clínica infantojuvenil, compreender uma criança ou um adolescente significa ir além daquilo que aparece na forma de sintomas. Ansiedade, irritabilidade, dificuldades escolares, desregulação emocional e problemas comportamentais são sinais importantes, mas raramente representam o ponto de partida do sofrimento. Por trás deles, existe uma história, relações e necessidades emocionais que precisam ser consideradas.


Em Aproxime-se dos seus filhos, Gordon Neufeld e Gabor Maté (2026) destacam que a necessidade mais importante da criança é estar emocionalmente vinculada aos seus cuidadores. Os autores mostram que o desenvolvimento saudável depende da qualidade desses vínculos e que os pais precisam ser uma base segura e uma referência emocional mais significativa do que as influências do grupo de pares. Essa ideia não se refere ao controle, mas à importância da conexão, da presença e do pertencimento.


Ao longo de sua obra, Gabor Maté tem chamado atenção para a necessidade de compreender o contexto antes de se buscar apenas um diagnóstico. Em vez de perguntar apenas “o que a criança tem?”, torna-se fundamental perguntar “o que aconteceu?”, “em que ambiente ela está inserida?” e “quais necessidades emocionais podem não estar sendo atendidas?”. Para Maté, muitos sintomas representam adaptações a experiências vividas e não podem ser entendidos isoladamente de sua história (Maté & Neufeld, 2026).


Nesse sentido, a orientação parental ocupa um papel central na clínica psicológica. Ela não busca culpados, mas promove compreensão. Pais e cuidadores educam a partir das experiências que receberam ao longo da vida, e muitas vezes padrões aprendidos na infância, estilos parentais, crenças familiares e dificuldades emocionais influenciam a maneira como respondem às necessidades dos filhos.


Além disso, o desenvolvimento infantil é influenciado por múltiplos contextos. Família, escola, amizades, cultura e experiências de vida fazem parte da construção emocional da criança. Por isso, o sintoma precisa ser compreendido de maneira contextualizada.


Foi a partir dessa compreensão que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em setembro de 2025, em Maceió, Alagoas. Assim como um arquipélago é formado por várias ilhas, cada pessoa também é constituída por diferentes dimensões interligadas.


Nessa metáfora, o olhar clínico passeia pelas ilhas do temperamento, das necessidades emocionais básicas, dos estilos parentais, dos ambientes vividos, dos relacionamentos e do desenvolvimento, para então compreender a ilha dos sintomas. O sofrimento emocional deixa de ser visto como algo isolado e passa a ser entendido dentro de uma história de vida.


Esse olhar integrado encontra respaldo nas contribuições da Teoria do Apego, da Psicologia do Desenvolvimento, da Neurociência e da Terapia do Esquema. O objetivo não é apenas reduzir sintomas, mas favorecer vínculos seguros, promover regulação emocional e atender necessidades emocionais que, muitas vezes, ficaram desassistidas.


Como afirmam Neufeld e Maté (2026), o desenvolvimento saudável não acontece apenas por meio de técnicas educativas, mas principalmente através dos relacionamentos. Por isso, na clínica infantojuvenil, cuidar da criança também significa cuidar das relações que a sustentam.


Referência

Neufeld, G., & Maté, G. (2026). Aproxime-se dos seus filhos: Por que os pais precisam ser mais importantes que os amigos (C. Simmer, Trad.). Sextante. (Trabalho original publicado em 2004).


Agendamento:

https://psikatiaguerra.com.br/



Publicação no Apego Inseguro:

https://doi.org/10.25060/residpediatr-2024.v14n2-998





O sintoma não é o começo da história.




O sintoma não é o começo da história






Ao longo dos anos, fui percebendo que as pessoas raramente chegam ao consultório trazendo aquilo que realmente precisam. Geralmente chegam pela ansiedade, pelas dificuldades emocionais, pelos conflitos familiares, pela tristeza, pelos sintomas físicos ou pelas preocupações com os filhos. Mas, quase sempre, existe uma história maior por trás daquilo que aparece.

Talvez por ter vivido muitos anos na educação antes da Psicologia, aprendi a olhar para o desenvolvimento humano de uma forma mais ampla. A experiência na coordenação pedagógica, na docência e, posteriormente, na Psicologia Clínica e Hospitalar, fez nascer em mim a necessidade de compreender a pessoa em sua totalidade.

Foi assim que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em Maceió, em setembro de 2025. Essa metáfora nasceu da ideia de que ninguém é formado por uma única história. Somos resultado de muitos encontros, experiências, necessidades, vínculos e formas de adaptação.

Na prática clínica, isso significa que não procuro apenas entender “o que a pessoa tem”, mas principalmente “como ela se desenvolveu”. Procuro compreender suas características individuais, as experiências emocionais mais importantes, os vínculos estabelecidos ao longo da vida, os ambientes em que cresceu e a maneira como aprendeu a lidar com o sofrimento.

Por isso, meu trabalho é fundamentado na Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia Cognitivo-Comportamental. Essas abordagens me ajudam a construir um raciocínio clínico mais integrado, respeitando a singularidade de cada pessoa.

A experiência como psicóloga hospitalar na enfermaria pediátrica reforçou ainda mais essa compreensão. Ao acompanhar crianças e adolescentes em sofrimento, percebi que saúde emocional, vínculos e regulação do sistema nervoso caminham juntos. Essa vivência, inclusive, contribuiu para a publicação de estudos sobre intervenção psicológica em casos de dor crônica idiopática na pediatria.

Hoje, acredito que cuidar da saúde mental é muito mais do que combater sintomas. É oferecer espaço para que a pessoa compreenda sua história, encontre novos significados e desenvolva recursos mais saudáveis para seguir a vida.

Porque, no final, não se trata apenas de aliviar dores.

Trata-se de ajudar cada pessoa a construir uma relação mais segura consigo mesma, com os outros e com a própria história.




Intervenção no Apego Inseguro: Olhar Integrado ao sintoma e a trajetória profissional.




Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga, e venho construindo, ao longo da minha trajetória, um olhar que busca compreender a pessoa para além do sintoma. 

Minha prática clínica é fundamentada na.        Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências,       na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na Psicologia do Desenvolvimento.


Quando uma criança, adolescente ou adulto chega ao consultório trazendo ansiedade, depressão, dificuldades emocionais, problemas comportamentais ou sofrimento psicológico, eu não começo pelo sintoma. Eu começo pela pessoa.


Foi dessa forma que nasceu a metáfora do Arquipélago de Si, que tive a oportunidade de apresentar no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, realizado em setembro de 2025, em Maceió. Gosto de imaginar que cada pessoa é um arquipélago formado por várias ilhas. O sintoma é apenas uma delas. Para compreendê-lo, precisamos conhecer as demais ilhas que compõem a história emocional de cada indivíduo.


A primeira é a Ilha do Temperamento. Cada criança nasce com características próprias. Algumas são mais sensíveis, outras mais expansivas, algumas mais cautelosas ou mais intensas. Os estudos sobre personalidade, especialmente o modelo Big Five, mostram que traços como neuroticismo, extroversão, amabilidade, conscienciosidade e abertura influenciam a forma como cada pessoa percebe e responde ao mundo. O temperamento não determina o destino de ninguém, mas representa um importante ponto de partida para compreendermos vulnerabilidades e potencialidades.


Em seguida, encontramos a Ilha das Necessidades Emocionais Básicas. Todo ser humano precisa sentir-se amado, seguro, valorizado, pertencente e respeitado. Precisa também desenvolver autonomia, experimentar limites saudáveis e sentir-se livre para explorar o mundo. Quando essas necessidades são suficientemente atendidas, desenvolvemos recursos internos mais saudáveis. Quando não são atendidas, podem surgir dores emocionais que, mais tarde, se manifestam na forma de sintomas.


Outra ilha importante é a dos Estilos Parentais. Nenhuma criança se desenvolve sozinha. Os cuidadores exercem grande influência sobre a construção emocional dos filhos. Pais excessivamente rígidos, permissivos, superprotetores ou emocionalmente indisponíveis podem, muitas vezes sem intenção, contribuir para dificuldades futuras. Da mesma forma, ambientes suficientemente bons, com acolhimento, segurança e limites saudáveis, favorecem o desenvolvimento de vínculos seguros. Por isso, quando trabalho com crianças e adolescentes, a orientação parental é parte fundamental do processo terapêutico.


Existe também a Ilha dos Ambientes Vividos. A família, a escola, a comunidade, a cultura e as experiências sociais participam diretamente do desenvolvimento emocional. A criança cresce dentro de sistemas e, portanto, não é possível compreender o sofrimento sem considerar os contextos nos quais ela está inserida.


A Ilha dos Relacionamentos e do Desenvolvimento nos mostra que as relações humanas são grandes organizadoras da saúde mental. Nossa história de vínculos influencia a forma como nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo. Por isso, compreender o desenvolvimento humano e as diferentes etapas da vida é essencial para uma intervenção verdadeiramente individualizada.


E, então, chegamos à ilha que geralmente traz as pessoas para a psicoterapia: a Ilha dos Sintomas. Ansiedade, depressão, desregulação emocional, dificuldades escolares, problemas de comportamento ou sofrimento emocional não representam, para mim, o ponto de partida. São sinais. São formas que a mente e o corpo encontram para comunicar que algo precisa ser compreendido.


Por isso, meu olhar é um olhar integrado ao sintoma. Eu não pergunto apenas: “Qual é o problema?”. Procuro compreender: “Qual é a história por trás desse sofrimento?”, “Quais necessidades emocionais não foram atendidas?”, “Como essa pessoa aprendeu a se proteger?” e “O que esse sintoma está tentando comunicar?”.


Minha forma de intervir é baseada na intervenção no apego inseguro, na reparentalização limitada, na orientação parental, na regulação emocional, na psicoeducação e no trabalho multiprofissional. Mais do que reduzir sintomas, busco promover desenvolvimento emocional e favorecer a construção do Adulto Saudável.


Esse olhar não surgiu de forma rápida. É resultado de uma trajetória construída ao longo de muitos anos. Minha primeira formação foi em Pedagogia, ainda na década de 1990. Durante mais de vinte anos atuei na área da educação, exercendo funções de coordenação pedagógica e docência, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Foi nesse percurso que os estudos sobre desenvolvimento humano e vínculos começaram a despertar meu interesse.


Em 2015, iniciei minha formação em Psicologia. Posteriormente vieram as especializações em Psicologia Clínica e Hospitalar, Neuropsicologia, Neurociências, Parentalidade Positiva, Disciplina Positiva e Terapia do Esquema, incluindo formação pela Wainer Psicologia e treinamento avançada em Terapia do Esquema no Modelo Alemão (STCA).


Entre 2021 e 2023, tive a oportunidade de atuar como psicóloga hospitalar em um hospital público federal, na unidade de enfermaria de pediatria. Essa experiência transformou profundamente meu raciocínio clínico. Foi nesse contexto que pude observar como as histórias de apego, a regulação do sistema nervoso e o sofrimento emocional estavam intimamente relacionados às manifestações físicas e emocionais das crianças e adolescentes.


Dessa experiência nasceu também a publicação de dois casos clínicos sobre intervenção psicológica na dor crônica idiopática em pediatria. Esses estudos fortaleceram ainda mais minha compreensão sobre a importância da Teoria do Apego dentro do raciocínio clínico e sobre como a promoção de vínculos seguros pode contribuir para a saúde física e emocional.


Ao longo da minha trajetória, aprendi que pessoas não são diagnósticos, são: história, relações, necessidades emocionais e experiências.


E é justamente por isso que acredito que compreender o Arquipélago de Si nos permite olhar além do sintoma. Porque, quando compreendemos a história emocional de uma pessoa, conseguimos enxergá-la em sua totalidade. E é nesse encontro entre história, vínculos, neurociência, cuidado e desenvolvimento humano que acredito que nasce uma intervenção mais humana, mais profunda e verdadeiramente personalizada.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar . Neuropsicóloga .CRP 02/22746

Terapia do Esquema . Teoria do Apego . Neurociências .TCC

Recife-Pernambuco, Brasil.

quinta-feira

Separação dos Pais na Primeira Infância: Como Ajudar uma Criança a se Sentir Segura em Meio às Mudanças

 


A separação dos pais é uma decisão dos adultos. A criança não tem culpa pelo que aconteceu e continua precisando sentir que é amada, protegida e importante para ambos. Embora a reorganização da família seja uma realidade vivida por muitas pessoas, é importante lembrar que as mudanças trazidas pela separação são percebidas intensamente pelas crianças, principalmente na primeira infância.


Nessa fase do desenvolvimento, elas ainda não possuem recursos emocionais e cognitivos suficientes para compreender completamente o que está acontecendo. Muitas vezes, não conseguem colocar em palavras aquilo que sentem e acabam expressando suas emoções através do comportamento, do brincar, do sono, da alimentação, da irritabilidade ou da necessidade maior de proximidade com os adultos.


Por isso, a criança não precisa conhecer detalhes dos conflitos do casal. Ela precisa de segurança, previsibilidade, rotina, cuidado emocional e da presença de adultos capazes de acolher seus sentimentos sem colocá-la no meio das dificuldades da relação conjugal.


Algumas atitudes podem ajudar significativamente nesse período de adaptação. Manter uma rotina estável sempre que possível, permitir que a criança fale da saudade, validar sentimentos como tristeza, medo, confusão ou raiva e explicar as mudanças com uma linguagem simples e adequada à idade são medidas que favorecem a segurança emocional.


Também é importante evitar falar mal do outro genitor na frente da criança ou colocá-la em uma posição de escolher lados. A criança precisa sentir que continua sendo filha e que não é responsável pelos conflitos dos adultos. Além disso, oferecer colo, escuta, presença e avisar com antecedência sobre visitas, mudanças e combinações contribui para reduzir a ansiedade e fortalecer o sentimento de previsibilidade.


Em alguns momentos, os comportamentos considerados difíceis podem ser, na verdade, pedidos de ajuda emocional. Regressões, irritabilidade, choro frequente, insegurança, dificuldades para dormir ou maior necessidade de proximidade podem representar tentativas da criança de comunicar aquilo que ainda não consegue verbalizar.


Na clínica psicológica, esses sentimentos podem ser trabalhados por meio do brincar, das histórias, dos desenhos, dos bonecos, das emoções e dos recursos simbólicos. O brincar é a linguagem natural da infância, e através dele a criança consegue expressar e organizar experiências que ainda não consegue elaborar apenas pela fala.


O objetivo do acompanhamento psicológico não é fazer a criança deixar de sentir saudade ou tristeza, mas ajudá-la a compreender que esses sentimentos são legítimos e fazem parte da experiência humana. A criança pode amar os dois pais, sentir falta de um deles, experimentar tristeza, raiva ou confusão e, ainda assim, continuar se desenvolvendo com segurança emocional.


A separação dos pais não precisa destruir a sensação de segurança da criança. O que mais protege seu desenvolvimento é a forma como os adultos conduzem esse processo. Quando existe respeito, responsabilidade afetiva, comunicação adequada e cuidado emocional, é possível construir novas formas de convivência e permitir que a criança continue sendo, acima de tudo, criança.


Kátia  Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga

CRP 02/22746

Instagram: @psikatiaguerra

Link: Publicação sobre a importância do Apego Seguro


https://residenciapediatrica.com.br/article/1516/intervencao-no-apego-inseguro-para-o-tratamento-da-dor-cronica-idiopatica-em-pediatria







terça-feira

O VALOR DO HOJE



Vivemos entre lembranças do que passou e expectativas sobre o que ainda virá. Muitas vezes ficamos presos ao ontem, revivendo dores, arrependimentos ou saudades. Em outros momentos, corremos para o amanhã, imaginando cenários, antecipando preocupações ou esperando que algo aconteça para então sermos felizes.


Mas a vida acontece no hoje. É no presente que construímos novas histórias, fortalecemos vínculos, aprendemos, sentimos, cuidamos de nós mesmos e escolhemos os próximos passos. O passado pode nos ensinar. O futuro pode nos inspirar. Mas somente o agora nos permite agir. Os verbos de ligação nos ajudam a refletir sobre isso.


Ser, estar, andar, ficar, parecer e permanecer fazem parte da experiência humana. Eles descrevem estados, condições e momentos da nossa existência. Mas existe um verbo que impulsiona a transformação: Continuar. Continuar apesar dos medos. Continuar apesar das perdas. Continuar mesmo quando os resultados ainda não apareceram. Continuar aprendendo, crescendo e ressignificando.


Porque não é apenas quem somos ou como estamos que define nossa trajetória. É o que fazemos com o que vivemos.


 Hoje é o único lugar onde a vida acontece. Ressignifique o ontem, sinta o agora e continue. Porque ser, estar, andar, ficar, parecer e permanecer são importantes, mas o que transforma é continuar.

Psicóloga Kátia Baptista Guerra

CRP 02/22746


Instagram:

@psikatiaguerra

TRAJETÓRIA PROFISSIONAL




Acredito que cada pessoa carrega uma história única, e que compreender essa trajetória é essencial para entender seus sentimentos, dificuldades, recursos internos e potencialidades. Por isso, meu trabalho é pautado na promoção da saúde emocional e do desenvolvimento humano, integrando conhecimento científico, experiência clínica e um olhar acolhedor para cada indivíduo.


Minha atuação com crianças, adolescentes e famílias começou em 1991, inicialmente na área educacional e psicopedagógica. Ao longo dos anos, ampliei minha formação e experiência profissional, incorporando a Psicologia, a Neuropsicologia e as Neurociências à minha prática clínica. Essa construção permitiu desenvolver uma compreensão mais ampla dos aspectos emocionais, cognitivos, relacionais e desenvolvimentais que influenciam a saúde mental em diferentes etapas da vida.


Na clínica, trabalho principalmente com abordagens baseadas em evidências científicas, com destaque para a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e a Terapia do Esquema. Meu objetivo é compreender não apenas os sintomas apresentados, mas também as experiências emocionais, familiares e contextuais que contribuem para sua origem e manutenção, oferecendo um olhar integrado para o sofrimento humano.


Possuo formação em Terapia do Esquema pelo Grupo Wainer Psicologia, referência nacional na área, e possuo formação internacional em Terapia do Esquema para Crianças e Adolescentes (ST-CA) com o Dr. Christof Loose, psicoterapeuta alemão reconhecido internacionalmente por suas contribuições ao desenvolvimento desse modelo para o público infantojuvenil.


Sou mestranda em Intervenção Psicológica no Desenvolvimento e na Educação pela Universidad Europea del Atlántico, na Espanha. Minha pesquisa concentra-se na intervenção psicológica precoce no apego inseguro e sua relação com as psicopatologias da infância, integrando conhecimentos da Teoria do Apego, das Neurociências do Desenvolvimento, da Neurobiologia do Trauma e da Terapia do Esquema.


Minha trajetória profissional também inclui experiência em Psicologia Hospitalar Pediátrica, atuando junto a crianças, adolescentes e seus familiares em contextos de hospitalização e adoecimento em um hospital público de alta complexidade. Essa vivência ampliou minha compreensão sobre os impactos emocionais do sofrimento físico, das mudanças familiares e das experiências adversas ao longo do desenvolvimento.


Atualmente, meu principal campo de estudo e atuação clínica é o apego inseguro e suas repercussões na saúde mental. A partir da integração entre Teoria do Apego, Neurociências e Terapia do Esquema, busco compreender como as experiências relacionais precoces influenciam a regulação emocional, a construção da personalidade, os relacionamentos interpessoais e a vulnerabilidade ao sofrimento psicológico.


Ao longo da minha carreira, tenho me dedicado ao desenvolvimento de estratégias de prevenção e intervenção voltadas ao fortalecimento das necessidades emocionais básicas, à construção de vínculos mais seguros e à promoção da saúde emocional. Todo esse trabalho é conduzido com compromisso ético, fundamentação científica e profundo respeito pela singularidade de cada criança, adolescente, adulto e família que confia em meu trabalho.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar ; Neuropsicóloga

CRP 02/22746

Perfil

País, seus filhos causam preocupações atualmente?

  Antes do comportamento: uma viagem pelo Arquipélago de Si Sejam bem-vindos a este canal. Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e ho...