segunda-feira

Intervenção no Apego Inseguro: Olhar Integrado ao sintoma e a trajetória profissional.




Sou Kátia Baptista Guerra, psicóloga clínica e hospitalar, neuropsicóloga, e venho construindo, ao longo da minha trajetória, um olhar que busca compreender a pessoa para além do sintoma. 

Minha prática clínica é fundamentada na.        Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências,       na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) e na Psicologia do Desenvolvimento.


Quando uma criança, adolescente ou adulto chega ao consultório trazendo ansiedade, depressão, dificuldades emocionais, problemas comportamentais ou sofrimento psicológico, eu não começo pelo sintoma. Eu começo pela pessoa.


Foi dessa forma que nasceu a metáfora do Arquipélago de Si, que tive a oportunidade de apresentar no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, realizado em setembro de 2025, em Maceió. Gosto de imaginar que cada pessoa é um arquipélago formado por várias ilhas. O sintoma é apenas uma delas. Para compreendê-lo, precisamos conhecer as demais ilhas que compõem a história emocional de cada indivíduo.


A primeira é a Ilha do Temperamento. Cada criança nasce com características próprias. Algumas são mais sensíveis, outras mais expansivas, algumas mais cautelosas ou mais intensas. Os estudos sobre personalidade, especialmente o modelo Big Five, mostram que traços como neuroticismo, extroversão, amabilidade, conscienciosidade e abertura influenciam a forma como cada pessoa percebe e responde ao mundo. O temperamento não determina o destino de ninguém, mas representa um importante ponto de partida para compreendermos vulnerabilidades e potencialidades.


Em seguida, encontramos a Ilha das Necessidades Emocionais Básicas. Todo ser humano precisa sentir-se amado, seguro, valorizado, pertencente e respeitado. Precisa também desenvolver autonomia, experimentar limites saudáveis e sentir-se livre para explorar o mundo. Quando essas necessidades são suficientemente atendidas, desenvolvemos recursos internos mais saudáveis. Quando não são atendidas, podem surgir dores emocionais que, mais tarde, se manifestam na forma de sintomas.


Outra ilha importante é a dos Estilos Parentais. Nenhuma criança se desenvolve sozinha. Os cuidadores exercem grande influência sobre a construção emocional dos filhos. Pais excessivamente rígidos, permissivos, superprotetores ou emocionalmente indisponíveis podem, muitas vezes sem intenção, contribuir para dificuldades futuras. Da mesma forma, ambientes suficientemente bons, com acolhimento, segurança e limites saudáveis, favorecem o desenvolvimento de vínculos seguros. Por isso, quando trabalho com crianças e adolescentes, a orientação parental é parte fundamental do processo terapêutico.


Existe também a Ilha dos Ambientes Vividos. A família, a escola, a comunidade, a cultura e as experiências sociais participam diretamente do desenvolvimento emocional. A criança cresce dentro de sistemas e, portanto, não é possível compreender o sofrimento sem considerar os contextos nos quais ela está inserida.


A Ilha dos Relacionamentos e do Desenvolvimento nos mostra que as relações humanas são grandes organizadoras da saúde mental. Nossa história de vínculos influencia a forma como nos relacionamos conosco, com os outros e com o mundo. Por isso, compreender o desenvolvimento humano e as diferentes etapas da vida é essencial para uma intervenção verdadeiramente individualizada.


E, então, chegamos à ilha que geralmente traz as pessoas para a psicoterapia: a Ilha dos Sintomas. Ansiedade, depressão, desregulação emocional, dificuldades escolares, problemas de comportamento ou sofrimento emocional não representam, para mim, o ponto de partida. São sinais. São formas que a mente e o corpo encontram para comunicar que algo precisa ser compreendido.


Por isso, meu olhar é um olhar integrado ao sintoma. Eu não pergunto apenas: “Qual é o problema?”. Procuro compreender: “Qual é a história por trás desse sofrimento?”, “Quais necessidades emocionais não foram atendidas?”, “Como essa pessoa aprendeu a se proteger?” e “O que esse sintoma está tentando comunicar?”.


Minha forma de intervir é baseada na intervenção no apego inseguro, na reparentalização limitada, na orientação parental, na regulação emocional, na psicoeducação e no trabalho multiprofissional. Mais do que reduzir sintomas, busco promover desenvolvimento emocional e favorecer a construção do Adulto Saudável.


Esse olhar não surgiu de forma rápida. É resultado de uma trajetória construída ao longo de muitos anos. Minha primeira formação foi em Pedagogia, ainda na década de 1990. Durante mais de vinte anos atuei na área da educação, exercendo funções de coordenação pedagógica e docência, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Foi nesse percurso que os estudos sobre desenvolvimento humano e vínculos começaram a despertar meu interesse.


Em 2015, iniciei minha formação em Psicologia. Posteriormente vieram as especializações em Psicologia Clínica e Hospitalar, Neuropsicologia, Neurociências, Parentalidade Positiva, Disciplina Positiva e Terapia do Esquema, incluindo formação pela Wainer Psicologia e treinamento avançada em Terapia do Esquema no Modelo Alemão (STCA).


Entre 2021 e 2023, tive a oportunidade de atuar como psicóloga hospitalar em um hospital público federal, na unidade de enfermaria de pediatria. Essa experiência transformou profundamente meu raciocínio clínico. Foi nesse contexto que pude observar como as histórias de apego, a regulação do sistema nervoso e o sofrimento emocional estavam intimamente relacionados às manifestações físicas e emocionais das crianças e adolescentes.


Dessa experiência nasceu também a publicação de dois casos clínicos sobre intervenção psicológica na dor crônica idiopática em pediatria. Esses estudos fortaleceram ainda mais minha compreensão sobre a importância da Teoria do Apego dentro do raciocínio clínico e sobre como a promoção de vínculos seguros pode contribuir para a saúde física e emocional.


Ao longo da minha trajetória, aprendi que pessoas não são diagnósticos, são: história, relações, necessidades emocionais e experiências.


E é justamente por isso que acredito que compreender o Arquipélago de Si nos permite olhar além do sintoma. Porque, quando compreendemos a história emocional de uma pessoa, conseguimos enxergá-la em sua totalidade. E é nesse encontro entre história, vínculos, neurociência, cuidado e desenvolvimento humano que acredito que nasce uma intervenção mais humana, mais profunda e verdadeiramente personalizada.


Kátia Baptista Guerra

Psicóloga Clínica e Hospitalar . Neuropsicóloga .CRP 02/22746

Terapia do Esquema . Teoria do Apego . Neurociências .TCC

Recife-Pernambuco, Brasil.

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