segunda-feira

Intervenção Psikatiaguerra- Psicóloga Kátia Baptista Guerra- CRP 02/22746




O sintoma não é o começo da história

Ao longo dos anos, fui percebendo que as pessoas raramente chegam ao consultório trazendo aquilo que realmente precisam. Geralmente chegam pela ansiedade, pelas dificuldades emocionais, pelos conflitos familiares, pela tristeza, pelos sintomas físicos ou pelas preocupações com os filhos. Mas, quase sempre, existe uma história maior por trás daquilo que aparece.

Talvez por ter vivido muitos anos na educação antes da Psicologia, aprendi a olhar para o desenvolvimento humano de uma forma mais ampla. A experiência na coordenação pedagógica, na docência e, posteriormente, na Psicologia Clínica e Hospitalar, fez nascer em mim a necessidade de compreender a pessoa em sua totalidade.

Foi assim que surgiu a metáfora do Arquipélago de Si, apresentada no Congresso Brasileiro de Psicologia Hospitalar, em Maceió, em setembro de 2025. Essa metáfora nasceu da ideia de que ninguém é formado por uma única história. Somos resultado de muitos encontros, experiências, necessidades, vínculos e formas de adaptação.

Na prática clínica, isso significa que não procuro apenas entender “o que a pessoa tem”, mas principalmente “como ela se desenvolveu”. Procuro compreender suas características individuais, as experiências emocionais mais importantes, os vínculos estabelecidos ao longo da vida, os ambientes em que cresceu e a maneira como aprendeu a lidar com o sofrimento.

Por isso, meu trabalho é fundamentado na Terapia do Esquema, na Teoria do Apego, nas Neurociências e na Terapia Cognitivo-Comportamental. Essas abordagens me ajudam a construir um raciocínio clínico mais integrado, respeitando a singularidade de cada pessoa.

A experiência como psicóloga hospitalar na enfermaria pediátrica reforçou ainda mais essa compreensão. Ao acompanhar crianças e adolescentes em sofrimento, percebi que saúde emocional, vínculos e regulação do sistema nervoso caminham juntos. Essa vivência, inclusive, contribuiu para a publicação de estudos sobre intervenção psicológica em casos de dor crônica idiopática na pediatria.

Hoje, acredito que cuidar da saúde mental é muito mais do que combater sintomas. É oferecer espaço para que a pessoa compreenda sua história, encontre novos significados e desenvolva recursos mais saudáveis para seguir a vida.

Porque, no final, não se trata apenas de aliviar dores.

Trata-se de ajudar cada pessoa a construir uma relação mais segura consigo mesma, com os outros e com a própria história.




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