Pais, quando uma criança apresenta um comportamento que preocupa, precisamos compreender também o que ela está sentindo, como interpreta a situação e quais necessidades precisam de atenção.
No consultório, utilizo a casa interna como recurso para facilitar essa conversa. Essa proposta está presente na Terapia do Esquema para crianças e adolescentes e organiza o trabalho com experiências, esquemas e modos (Loose et al., 2013). A casa representa o mundo emocional; seus andares não correspondem a partes do cérebro.
O térreo: as experiências
Na casa que utilizo, o térreo representa aquilo que a criança vive e sente: momentos de carinho, brincadeiras, mudanças, conflitos, perdas e conquistas.
Nesse espaço, procuro compreender a experiência pela perspectiva da criança. Uma situação que parece pequena para um adulto pode ser difícil para ela.
Podemos perguntar: “O que aconteceu?”, “Como você se sentiu?” e “O que teria ajudado naquele momento?”. Essas perguntas abrem espaço para conhecer sua experiência antes de orientar sua resposta.
O primeiro andar: os esquemas
O primeiro andar representa padrões de compreensão sobre si, as outras pessoas e o mundo. Na Terapia do Esquema, os esquemas iniciais desadaptativos envolvem lembranças, emoções, pensamentos e sensações corporais, podendo influenciar a maneira de interpretar novas situações (Young et al., 2008).
Para explicar aos pais, uso um exemplo: uma criança pode interpretar um erro como sinal de que não é capaz ou não merece reconhecimento. Essa interpretação precisa ser investigada, sem transformar uma fala isolada em diagnóstico.
O segundo andar: os modos
O segundo andar representa os modos: estados emocionais e formas de reagir que ficam ativos em determinados momentos (Loose et al., 2013).
Na linguagem do cotidiano, podemos conversar sobre o momento em que a criança se sente vulnerável, fica muito irritada ou tenta se afastar de uma situação difícil.
Por isso, prefiro dizer “Agora você está com muita raiva” a dizer “Você é uma criança raivosa”. A primeira frase reconhece um estado e permite conversar sobre ele.
A estrela: as cinco necessidades emocionais básicas
A estrela de cinco pontas ajuda a apresentar os cinco grupos de necessidades do modelo clássico da Terapia do Esquema:
1. Vínculo seguro: proteção, estabilidade, aceitação e acolhimento.
2. Autonomia, competência e identidade: oportunidades de tentar, aprender e desenvolver seu próprio jeito.
3. Liberdade para expressar emoções e necessidades: poder falar sobre o que sente e precisa.
4. Espontaneidade e brincadeira: espaço para explorar, criar e se divertir.
5. Limites realistas e autocontrole: aprender regras, respeitar o outro e lidar com frustrações.
Na prática, convido os pais a observar como essas necessidades aparecem na rotina: há espaço para escutar? Para incentivar uma tentativa? Para brincar? Os combinados são claros e possíveis para a idade?
Acolher e orientar na mesma situação
Imagine que seu filho perde um jogo e joga as peças no chão. Uma resposta possível seria:
“Eu percebi que você ficou muito frustrado porque queria ganhar. Estou aqui para ajudar, mas não vou deixar você jogar as peças. Vamos fazer uma pausa e depois conversar.”
Essa fala mostra como podemos reconhecer a emoção e manter um limite. Depois, podemos ajudar a criança a encontrar outra maneira de expressar sua frustração.
A participação dos pais na terapia
Bizinoto (2015) apresenta a importância da avaliação, da psicoeducação, dos recursos vivenciais e da orientação aos pais na adaptação da Terapia do Esquema ao público infantil.
No meu trabalho, a casa ajuda a iniciar conversas. O que aparece nas brincadeiras precisa ser compreendido junto com a história da criança e a avaliação clínica.
Meu objetivo é construir com vocês uma compreensão que se transforme em cuidado cotidiano: escutar com atenção, oferecer apoio, incentivar autonomia e estabelecer limites com respeito.
Referências
Bizinoto, J. F. S. (2015). O modelo alemão da terapia do esquema: Conceituação, técnicas e aplicação clínica na psicoterapia infantil [Dissertação de mestrado, Universidade Federal de Uberlândia]. Repositório Institucional da Universidade Federal de Uberlândia. https://doi.org/10.14393/ufu.di.2015.249
Loose, C., Graaf, P., & Zarbock, G. (Eds.). (2013). Schematherapie mit Kindern und Jugendlichen. Beltz.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

Nenhum comentário:
Postar um comentário