domingo

A criança interior, o atendimento das necessidades emocionais básicas e a reparentalização limitada pela Terapia do Esquema

 A criança interior, o atendimento das necessidades emocionais básicas e a reparentalização limitada na Terapia do Esquema




Ao longo da vida, construímos maneiras de sentir, pensar e nos relacionar com o mundo. Muitas dessas formas de funcionamento começam a se desenvolver ainda na infância, a partir das experiências com nossas figuras de cuidado, do nosso temperamento e da maneira como nossas necessidades emocionais foram atendidas. Na Terapia do Esquema, Young, Klosko e Weishaar (2008) explicam que experiências precoces, especialmente quando envolvem a frustração persistente de necessidades emocionais básicas, podem contribuir para a formação de esquemas iniciais desadaptativos.

Segundo Young et al. (2008), existem cinco grupos de necessidades emocionais fundamentais ao desenvolvimento psicológico saudável: vínculo seguro, autonomia e competência, liberdade para expressar necessidades e emoções, espontaneidade e lazer, além de limites realistas e autocontrole. Quando essas necessidades são atendidas de maneira suficientemente adequada, favorecem o desenvolvimento da segurança emocional, da confiança, da autonomia e da capacidade de estabelecer relacionamentos saudáveis. Entretanto, quando são repetidamente negligenciadas, frustradas ou atendidas de maneira inconsistente, podem surgir padrões de funcionamento que continuam influenciando nossas experiências na vida adulta.

É nesse contexto que podemos compreender a metáfora da criança interior. Na Terapia do Esquema, ela está relacionada especialmente aos modos criança, que representam estados emocionais associados a necessidades, experiências e respostas desenvolvidas ao longo da história. Assim, uma pessoa adulta pode experimentar sentimentos intensos de abandono, rejeição, vergonha ou desamparo diante de determinadas situações, mesmo quando o contexto atual é diferente daquele vivido na infância. Isso não significa que todas as dificuldades emocionais tenham origem exclusivamente nas experiências infantis, mas que essas vivências podem constituir elementos importantes para a conceitualização clínica.

Muitas vezes, aquilo que observamos como sintoma é apenas uma manifestação de processos emocionais mais amplos. Uma pessoa que apresenta insegurança constante, por exemplo, pode ter desenvolvido crenças relacionadas à rejeição ou ao abandono. Outra, que demonstra necessidade excessiva de aprovação, pode ter aprendido que precisava atender às expectativas dos outros para preservar o vínculo afetivo. Por isso, compreender o sintoma exige investigar a história emocional, os esquemas ativados, os modos de enfrentamento e as necessidades que permanecem insatisfeitas.

Dentro dessa perspectiva, Young et al. (2008) apresentam a reparentalização limitada como um dos componentes fundamentais da relação terapêutica na Terapia do Esquema. Trata-se de uma postura clínica na qual o terapeuta busca oferecer, dentro dos limites éticos e profissionais da psicoterapia, experiências de segurança, acolhimento, validação emocional, orientação e estabelecimento de limites saudáveis. O objetivo não é substituir os pais ou reconstruir literalmente a infância, mas possibilitar experiências emocionais corretivas que contribuam para o desenvolvimento de formas mais adaptativas de lidar com as próprias necessidades.

A reparentalização limitada também exige sensibilidade para identificar os diferentes modos esquemáticos apresentados pelo paciente. Quando o modo Criança Vulnerável está ativado, por exemplo, pode ser necessário oferecer acolhimento, segurança e validação. Quando surgem modos de enfrentamento caracterizados por afastamento, submissão ou hipercompensação, o trabalho terapêutico procura compreender a função protetiva dessas respostas, sem deixar de reconhecer seus possíveis prejuízos. Dessa maneira, o terapeuta busca fortalecer gradativamente o Modo Adulto Saudável, favorecendo a autonomia, a autorregulação emocional e o atendimento mais adequado das necessidades emocionais.

Na minha compreensão clínica, é importante reconhecer que não basta identificar o esquema ou nomear o sintoma; precisamos compreender a história que contribuiu para a construção daquele funcionamento emocional. Esse olhar integrado permite investigar o que a pessoa viveu, como interpretou suas experiências, quais estratégias desenvolveu para se proteger e de que maneira essas estratégias continuam presentes em sua vida.

Acolher a criança interior, portanto, não significa permanecer preso ao passado, mas reconhecer que algumas experiências podem continuar influenciando nossa maneira de sentir e reagir no presente. A partir desse reconhecimento, a psicoterapia pode contribuir para a construção de novas experiências emocionais, para a ressignificação de crenças e para o fortalecimento de recursos internos.

Olhar para a criança que fomos é também uma oportunidade de compreender o adulto que nos tornamos. Na Terapia do Esquema, esse processo envolve mais do que revisitar lembranças: significa identificar necessidades, compreender padrões emocionais e desenvolver novas possibilidades de cuidado consigo mesmo.

A história não pode ser modificada, mas a maneira como nos relacionamos com ela pode ser transformada.

Kátia Baptista Guerra

CRP 02/22746

Instagram: @psikatiaguerra

Referência

Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

Nenhum comentário:

Perfil

A criança interior, o atendimento das necessidades emocionais básicas e a reparentalização limitada pela Terapia do Esquema

 A criança interior, o atendimento das necessidades emocionais básicas e a reparentalização limitada na Terapia do Esquema Ao longo da vida,...