A criança interior, as memórias emocionais e a Terapia do Esquema
Por Kátia Baptista Guerra
Você já percebeu que algumas situações da vida adulta despertam emoções muito mais intensas do que o momento parece justificar?
Às vezes, uma rejeição, uma crítica, uma separação ou a sensação de não ser importante para alguém provoca uma tristeza profunda, insegurança, medo ou necessidade intensa de aprovação.
Mas por que isso acontece?
O que a Terapia do Esquema explica sobre a criança interior?
Na Terapia do Esquema, Jeffrey Young, Janet Klosko e Marjorie Weishaar (2008) explicam que experiências emocionais vividas ao longo do desenvolvimento podem contribuir para a formação de esquemas iniciais desadaptativos.
Esses esquemas envolvem padrões de memórias, emoções, sensações corporais e crenças sobre nós mesmos e nossos relacionamentos.
Quando nossas necessidades emocionais básicas de segurança, vínculo, acolhimento, autonomia e validação não são suficientemente atendidas, podemos desenvolver formas de interpretar e enfrentar o mundo que continuam presentes na vida adulta.
Na Terapia do Esquema, utilizamos o conceito de Modo Criança Vulnerável para compreender momentos em que sentimentos antigos de abandono, medo, solidão, vergonha ou desamparo são reativados.
Não significa que exista literalmente uma criança dentro de nós. Trata-se de uma representação terapêutica de experiências emocionais e necessidades que ainda podem influenciar nosso funcionamento.
O que a neurociência explica sobre as memórias emocionais?
Nosso cérebro registra experiências e aprende com elas.
Memórias associadas a situações emocionalmente importantes podem influenciar a maneira como percebemos ameaças, interpretamos relacionamentos e respondemos ao ambiente.
A amígdala participa do processamento da relevância emocional e das ameaças; o hipocampo contribui para a memória contextual; e regiões do córtex pré-frontal participam da avaliação, do controle cognitivo e da regulação emocional.
Quando uma situação atual se assemelha a experiências anteriores, determinadas redes de memória e respostas emocionais podem ser reativadas, mesmo sem uma lembrança consciente e detalhada do passado.
As memórias não precisam desaparecer para que deixem de produzir o mesmo sofrimento.
A neurociência demonstra que as memórias não são registros imutáveis. Elas podem ser atualizadas, reorganizadas e adquirir novos significados por meio da aprendizagem e de novas experiências.
O objetivo terapêutico, portanto, não é apagar a história, mas modificar a maneira como experiências anteriores continuam influenciando o presente.
Por que o cérebro pode permanecer em estado de alerta?
Diante de uma ameaça percebida, nosso organismo pode ativar o sistema nervoso simpático, relacionado às respostas de mobilização diante do perigo.
Podem surgir aceleração dos batimentos cardíacos, tensão muscular, alterações respiratórias, inquietação e maior vigilância.
Essas são respostas fisiológicas de proteção.
Entretanto, quando os sistemas de resposta ao estresse permanecem frequentemente ativados ou apresentam dificuldades de regulação, a pessoa pode experimentar sofrimento significativo.
Na vida adulta, isso pode aparecer em situações como:
- Medo intenso de abandono ou rejeição.
-Ansiedade diante de separações.
-Necessidade excessiva de aprovação.
-Dificuldade para estabelecer limites.
-Hipervigilância nos relacionamentos.
- Reações emocionais intensas diante de críticas.
- Evitação de situações que despertam vulnerabilidade.
Essas manifestações também podem ocorrer em diferentes condições clínicas e psiquiátricas.
Nem toda ansiedade ou dificuldade emocional tem origem em experiências adversas da infância. Sintomas semelhantes podem resultar de diferentes fatores biológicos, psicológicos e ambientais.
Por isso, é fundamental realizar uma avaliação clínica cuidadosa, sem atribuir automaticamente todos os sintomas às experiências infantis.
Como a reparentalização limitada pode ajudar?
Na Terapia do Esquema, a reparentalização limitada é uma intervenção terapêutica em que o psicólogo oferece, dentro dos limites éticos e profissionais, uma relação caracterizada por acolhimento, segurança, empatia, validação e orientação.
O objetivo é favorecer experiências emocionais que contribuam para o atendimento de necessidades anteriormente frustradas e para o fortalecimento do Modo Adulto Saudável.
Por meio de técnicas vivenciais, como a imagética, o trabalho com modos e a ressignificação de experiências, o paciente pode reconhecer o sofrimento associado à sua história e desenvolver novas maneiras de cuidar de si.
Não podemos modificar os acontecimentos do passado.
Mas podemos trabalhar a forma como essas experiências são compreendidas, sentidas e enfrentadas no presente.
Por que precisamos olhar além dos sintomas?
Na minha prática clínica, considero fundamental compreender o indivíduo de maneira integrada.
Não basta identificar a ansiedade, a insegurança ou a dificuldade de relacionamento. Precisamos investigar o contexto em que essas manifestações acontecem.
Na minha metáfora do Arquipélago de Si, o sintoma representa apenas uma das ilhas.
Para compreender o funcionamento emocional, precisamos conhecer também o temperamento, as necessidades emocionais básicas, as relações de cuidado, os ambientes, as experiências de vida, os esquemas e os modos esquemáticos.
Esse olhar integrado contribui para uma conceitualização de caso mais consistente e para intervenções individualizadas.
A criança que você foi não precisa continuar enfrentando sozinha aquilo que um dia lhe causou sofrimento.
Reconhecer sua história não significa permanecer preso ao passado.
Significa desenvolver recursos para que o adulto de hoje consiga compreender, acolher e cuidar das necessidades emocionais que ainda merecem atenção.
Sugestão de filme: This Is Me…Now: A Love Story (2024)-Com Jennifer Lopez/ Prime Video
O filme apresenta, por meio de uma narrativa musical e simbólica, uma jornada de autoconhecimento, experiências afetivas, vulnerabilidade e busca pelo amor-próprio.
É uma oportunidade para refletir sobre como experiências anteriores podem influenciar escolhas amorosas, expectativas relacionais e a maneira como procuramos acolhimento.
Embora não seja uma representação técnica da Terapia do Esquema, a história permite estabelecer conexões com temas como necessidades emocionais, padrões relacionais, vulnerabilidade e fortalecimento do Adulto Saudável.
Uma pergunta para refletir após assistir:
Em quais momentos da minha vida adulta ainda procuro receber aquilo que senti faltar na minha história?
Assista no Prime Video:
https://www.primevideo.com/-/id/detail/0THMM8JADO0HZIC5AA3BQZ722W
Quer conhecer mais sobre reparentalização limitada e Terapia do Esquema?
Kátia Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga
Terapia Cognitivo-Comportamental | Terapia do Esquema
CRP 02/22746
Contato: (81) 99108-0908
Instagram: @psikatiaguerra
Blog: www.psikatiaguerra.com
Consultório: Empresarial One Way
Rua Guimarães Peixoto, 75, sala 1502
Casa Amarela, Recife – PE
Referência
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

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