Alguns comportamentos difíceis não nascem apenas da falta de limites, mas de…
Necessidades emocionais não compreendidas, dificuldades de regulação emocional e experiências que influenciam a maneira como a criança sente, interpreta e reage ao mundo.
Quando uma criança apresenta irritabilidade, oposição, crises de choro, insegurança ou dificuldade para lidar com frustrações, é comum que os adultos pensem imediatamente na necessidade de estabelecer limites.
Os limites são importantes, mas nem todo comportamento difícil se explica pela ausência deles.
O que a neurociência nos ajuda a compreender?
Bruce Perry e Oprah Winfrey (2022), na obra O que aconteceu com você?, discutem como as experiências de vida, especialmente aquelas vivenciadas durante o desenvolvimento, podem influenciar os sistemas cerebrais envolvidos nas respostas ao estresse, na percepção de segurança e na regulação emocional.
Quando uma criança está muito assustada, frustrada ou emocionalmente sobrecarregada, pode apresentar maior dificuldade para organizar seus pensamentos, controlar impulsos e responder às orientações dos adultos.
Isso acontece porque os processos de regulação emocional e de controle cognitivo ainda estão em desenvolvimento e podem ser afetados por estados intensos de estresse.
Uma criança emocionalmente desorganizada pode precisar de ajuda para se regular antes de conseguir compreender e utilizar uma orientação.
Isso não significa retirar os limites, mas considerar o estado emocional e a capacidade de regulação da criança no momento de estabelecê-los.
O que a Terapia do Esquema acrescenta?
Jeffrey Young, Janet Klosko e Marjorie Weishaar (2008) destacam a importância das necessidades emocionais básicas para o desenvolvimento de padrões saudáveis de funcionamento psicológico.
Entre essas necessidades estão:
-Segurança, vínculo e acolhimento.
-Autonomia e desenvolvimento da competência.
- Liberdade para expressar emoções e necessidades.
-Espontaneidade e brincadeira.
-Limites realistas e autocontrole.
Quando essas necessidades são repetidamente frustradas, em interação com o temperamento e as experiências de vida, podem se desenvolver padrões emocionais e comportamentais desadaptativos.
Por exemplo, uma criança que reage intensamente diante de pequenos erros pode estar experimentando medo de fracassar, insegurança ou dificuldades de tolerância à frustração.
Outra criança que evita situações novas pode apresentar ansiedade, baixa confiança em suas capacidades ou necessidade aumentada de previsibilidade.
Essas possibilidades precisam ser investigadas. O comportamento isolado não permite determinar sua causa.
Como os pais podem agir?
Antes de interpretar uma reação difícil apenas como desobediência, é importante observar:
1. O que aconteceu antes?
Identifique a situação que antecedeu o comportamento.
2. O que a criança pode estar sentindo?
Observe possíveis sinais de medo, frustração, tristeza, ansiedade ou sobrecarga.
3. Qual necessidade precisa de atenção?
A criança pode precisar de segurança, acolhimento, orientação, descanso ou ajuda para desenvolver autonomia.
4. Como responder?
Ofereça uma resposta calma, firme e adequada à idade, validando a emoção sem necessariamente permitir o comportamento inadequado.
5. O que pode ser ensinado?
Ajude a criança a reconhecer emoções, comunicar necessidades, enfrentar pequenas frustrações e construir novas estratégias.
Por exemplo, diante de uma crise de raiva, os pais podem acolher o sentimento e manter o limite:
“Eu entendo que você ficou muito frustrado. Estou aqui para ajudar, mas não podemos machucar ninguém. Vamos encontrar outra maneira de resolver isso.”
Acolhimento e limites não são opostos. Eles podem atuar juntos no desenvolvimento emocional.
O sintoma é apenas uma ilha
Na minha proposta de raciocínio clínico, utilizo a metáfora do Arquipélago de Si para representar as diferentes dimensões que participam do funcionamento emocional.
O sintoma é apenas uma das ilhas.
Para compreender o comportamento de uma criança, também precisamos investigar seu temperamento, suas necessidades emocionais, as relações de cuidado, os ambientes e as experiências de desenvolvimento.
A Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia do Esquema contribuem para integrar essas informações, compreender os padrões de funcionamento e planejar intervenções individualizadas.
O objetivo não é procurar culpados, mas compreender o que está acontecendo e identificar o que pode ajudar a criança.
Uma reflexão para pais e cuidadores
Da próxima vez que seu filho apresentar um comportamento difícil, experimente acrescentar uma pergunta à preocupação com os limites:
“Além de orientar esse comportamento, o que meu filho precisa aprender, desenvolver ou receber de ajuda neste momento?”
Nem toda dificuldade nasce da falta de limites. E compreender as necessidades emocionais não significa deixar de educar.
Significa oferecer segurança, orientação e oportunidades para o desenvolvimento da autonomia e da regulação emocional.
Quer conhecer um pouco mais?
Para compreender como a Neurociência do Desenvolvimento, a Terapia Cognitivo-Comportamental e a Terapia do Esquema podem contribuir para o acompanhamento psicológico de crianças e adolescentes, entre em contato.
Kátia Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga
TCC | Terapia do Esquema
CRP 02/22746
WhatsApp: (81) 99108-0908
Instagram: @psikatiaguerra
Site: www.psikatiaguerra.com
Consultório: Empresarial One Way
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Referências
Perry, B. D., & Winfrey, O. (2022). O que aconteceu com você? Conversas sobre trauma, resiliência e cura (E. Nazarian, Trad.). Sextante.
Young, J. E., Klosko, J. S., & Weishaar, M. E. (2008). Terapia do esquema: Guia de técnicas cognitivo-comportamentais inovadoras (R. C. Costa, Trad.). Artmed.

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