O que seus olhos não conseguem enxergar em um consultório de psicoterapia infantil?
A psicoterapia infantojuvenil vai muito além dos brinquedos, das casinhas e da decoração de um consultório.
Quando você observa a imagem de um consultório infantil, o que consegue enxergar?
Talvez veja casinhas, bonecos, jogos, uma cozinha de brinquedo e um ambiente colorido, cuidadosamente preparado para receber crianças.
Mas existe algo muito importante que seus olhos não conseguem enxergar.
Seu filho. Sua filha. Sua história emocional.
E, principalmente, tudo aquilo que uma criança pode estar sentindo, mas ainda não consegue expressar em palavras.
O brincar não é apenas brincar
Na psicoterapia infantil, os brinquedos não estão ali simplesmente para entreter.
Eles podem funcionar como recursos terapêuticos que ajudam a criança a comunicar sentimentos, representar experiências, experimentar soluções, desenvolver habilidades e construir novas formas de lidar com situações difíceis.
Uma criança pode não conseguir dizer:
-“Tenho medo de ser abandonada.”
-“Sinto que ninguém me compreende.”
-“Tenho medo de errar.”
-“Fico triste quando não sou ouvido.”
-“Não sei como lidar com a minha raiva.”
Entretanto, alguns desses sentimentos podem aparecer nas histórias que ela cria, nos personagens que escolhe, nas situações que representa e na maneira como interage durante as atividades.
Muitas emoções aparecem no brincar antes de aparecerem nas palavras.
Isso não significa que cada brincadeira tenha um significado psicológico específico. O profissional precisa compreender a criança em seu contexto, considerando sua história, desenvolvimento, relações familiares e outras informações da avaliação clínica.
O que acontece durante uma sessão de psicoterapia infantil?
Por trás de uma brincadeira aparentemente simples, existe um trabalho clínico que envolve observação, escuta, formulação de hipóteses, planejamento e intervenções fundamentadas em conhecimentos psicológicos.
Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, utilizamos recursos lúdicos para ajudar a criança a reconhecer emoções, identificar pensamentos, desenvolver estratégias de enfrentamento, fortalecer habilidades sociais e aprender a lidar com situações desafiadoras.
Na Terapia do Esquema, também podemos explorar necessidades emocionais fundamentais, como segurança, vínculo, acolhimento, autonomia, validação emocional e limites realistas.
Dependendo da idade, das necessidades e dos objetivos terapêuticos, utilizamos histórias, personagens, dramatizações, jogos, desenhos e outras experiências adaptadas ao desenvolvimento da criança.
O brinquedo é um recurso. A intervenção psicológica é o que dá sentido clínico à sua utilização.
E os pais? Qual é o papel deles na psicoterapia?
Essa é uma das dúvidas mais frequentes das famílias.
A psicoterapia infantojuvenil não acontece de maneira isolada da vida da criança.
Os pais e cuidadores são importantes parceiros no processo terapêutico.
Por meio de entrevistas, orientações parentais e encontros de acompanhamento, buscamos compreender as dificuldades apresentadas, identificar necessidades emocionais e construir estratégias que possam favorecer o desenvolvimento infantil.
É importante lembrar que o comportamento de uma criança não acontece no vazio.
Por trás de determinadas reações podem existir dificuldades de autorregulação emocional, medos, frustrações, necessidades de conexão, experiências de aprendizagem e diversos outros fatores.
Por isso, nosso olhar precisa ir além do comportamento que aparece.
Afinal, o que estava faltando naquela imagem?
Estava faltando a criança.
Mas não apenas sua presença física.
Faltavam sua história, seus sentimentos, suas necessidades emocionais, seus medos, suas conquistas e tudo aquilo que ela ainda está aprendendo a compreender sobre si mesma e sobre o mundo.
Um consultório pode ter muitos brinquedos, jogos e recursos.
Entretanto, a psicoterapia acontece na relação terapêutica, na escuta qualificada, na avaliação cuidadosa e nas intervenções planejadas para atender às necessidades de cada criança ou adolescente.
Porque não basta olhar para o brinquedo. É preciso compreender a criança que brinca.
Uma reflexão para pais e cuidadores
Da próxima vez que observar seu filho brincando, experimente prestar atenção não apenas ao brinquedo, mas também à maneira como ele cria histórias, expressa sentimentos, enfrenta dificuldades e se relaciona.
O brincar é uma das muitas formas de conhecer o universo infantil.
E você: já percebeu alguma emoção do seu filho durante uma brincadeira que ele ainda não conseguia explicar em palavras?
Kátia Baptista Guerra
Psicóloga Clínica e Hospitalar | Neuropsicóloga
TCC -Terapia do Esquema
CRP 02/22746
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